Estudos brasileiros não identificaram queda mensurável nas taxas após o início da campanha; especialista defende ações permanentes, ampliação do tratamento e políticas baseadas em evidências
O Setembro Amarelo ampliou o debate sobre saúde
mental e ajudou a romper o silêncio em torno do suicídio. Mais de 10 anos após
o início da campanha no Brasil, no entanto, estudos não identificaram redução
mensurável nas taxas de suicídio associada à iniciativa. Isso não significa que
a campanha seja ineficaz. Para Lucas Benevides, psiquiatra e professor de
Medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), os resultados revelam
principalmente os limites de uma mobilização concentrada na conscientização e
em apenas um período do ano.
“A ausência de redução estatisticamente demonstrada
não equivale a dizer que a campanha não funciona. Significa que dar
visibilidade ao tema, isoladamente, não foi suficiente para reverter uma
tendência que possui múltiplas causas”, afirma Benevides. O psiquiatra reforça
que estudos observacionais e análises de séries temporais não permitem
estabelecer, por si só, uma relação direta de causa e efeito.
Afinal, o
Setembro Amarelo funciona?
A resposta exige cautela. Os estudos disponíveis são
observacionais e analisam a evolução dos indicadores ao longo do tempo. Esse
tipo de pesquisa permite identificar tendências, mas não é suficiente para
estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Por isso, segundo Benevides,
não é adequado afirmar que a campanha seja comprovadamente ineficaz. A
conclusão é que, até o momento, não foi encontrado um impacto mensurável do
Setembro Amarelo sobre as taxas de suicídio no Brasil.
“A campanha pode ter contribuído para aumentar a
circulação de informações, reduzir parte do estigma e estimular algumas pessoas
a procurar ajuda. Mas esses efeitos intermediários não necessariamente se
traduzem, sozinhos, em redução das mortes”, explica o psiquiatra. O
especialista do CEUB destaca que diferentes fatores podem influenciar os
indicadores, como acesso ao tratamento, condições socioeconômicas,
disponibilidade de serviços, uso de álcool e outras drogas, isolamento social,
violência e presença de transtornos mentais.
Falar sobre
saúde mental é importante, mas não basta
A conscientização pode ajudar as pessoas a reconhecer
sinais de sofrimento, conversar sobre saúde mental e buscar atendimento. O
problema surge quando a comunicação é tratada como uma estratégia completa de
prevenção: “Existe uma grande diferença entre fazer as pessoas falarem sobre
saúde mental e efetivamente prevenir o suicídio. A conscientização é
necessária, mas precisa ser acompanhada de acesso a psiquiatras, psicólogos,
Centros de Atenção Psicossocial, serviços de emergência e outras formas
concretas de cuidado”.
Na prática, uma campanha pode aumentar a demanda por
atendimento sem que a rede esteja preparada para acolher quem procura ajuda.
Filas, dificuldade para encontrar profissionais, falta de continuidade do
tratamento e baixa integração entre os serviços podem fazer com que a pessoa
reconheça o próprio sofrimento, mas não encontre uma resposta adequada.
“Conscientização sem infraestrutura de acesso pode
levar ao reconhecimento do problema sem oferecer uma resposta concreta a quem
já está em situação de risco”, alerta o professor do CEUB. Para Benevides,
ampliar de forma permanente o acesso à saúde mental tende a produzir efeitos
mais consistentes
O que ajuda
efetivamente a prevenir suicídios?
Não existe uma medida única capaz de impedir todos os
casos. A literatura científica, porém, aponta estratégias com evidências mais
consistentes. Entre elas estão:
- redução
do acesso a meios letais;
- acompanhamento
ativo após uma tentativa de suicídio ou alta hospitalar;
- ampliação
do acesso ao tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico;
- capacitação
de profissionais que mantêm contato frequente com grupos vulneráveis;
- integração
entre os serviços de saúde e as redes familiar, escolar e comunitária;
- comunicação
responsável, sem sensacionalismo ou exposição indevida.
Professores, agentes comunitários de saúde e profissionais próximos de populações vulneráveis podem, por exemplo, ser capacitados para reconhecer sinais de alerta, realizar uma primeira escuta e encaminhar a pessoa para atendimento especializado. “Isso não significa transformar esses profissionais em responsáveis pelo diagnóstico. O objetivo é ajudá-los a identificar situações preocupantes e acionar a rede de cuidado”.
Depois da emergência, o cuidado precisa continuar
O período posterior a uma tentativa de suicídio ou à alta hospitalar é considerado especialmente sensível. Para Benevides, o atendimento emergencial não deve representar o fim da assistência, mas o início de um acompanhamento mais próximo. A continuidade do cuidado pode envolver consultas regulares, tratamento dos transtornos mentais associados, contato ativo da equipe de saúde, apoio familiar e elaboração de um plano para lidar com novas crises. “Não basta atender a emergência e esperar que a pessoa procure novamente o serviço caso volte a piorar. É necessário acompanhar, manter o vínculo e reduzir as barreiras de acesso ao tratamento”, afirma.
Por que o suicídio não pode ser explicado por uma única causa?
Frases de efeito podem facilitar a comunicação, mas correm o risco de simplificar um fenômeno complexo. Segundo Benevides, o suicídio é multideterminado e pode envolver a interação entre fatores psiquiátricos, sociais, familiares, econômicos e culturais. Não é adequado, portanto, atribuir um caso a um único acontecimento, como uma separação, demissão, endividamento, situação de violência ou diagnóstico de depressão. Esses fatores podem estar presentes, mas não explicam todas as circunstâncias envolvidas.
“O suicídio é um fenômeno multideterminado. Quando o tema é resumido a uma frase de efeito, existe o risco de gerar uma falsa sensação de solução simples para um problema extremamente complexo”, explica. Essa simplificação pode ainda produzir culpa entre familiares e amigos, como se uma conversa ou atitude específica pudesse necessariamente ter evitado o desfecho.
O que precisa mudar no Setembro Amarelo?
Para o professor do CEUB, a campanha pode continuar contribuindo para a prevenção, desde que seja integrada a uma estratégia mais ampla. Isso inclui manter ações durante todo o ano, fortalecer a rede assistencial e avaliar os resultados das iniciativas. O especialista aponta como desafios: a concentração das atividades em setembro, o uso de mensagens genéricas e a falta de indicadores públicos que permitam acompanhar os efeitos das ações. Segundo ele, uma política de prevenção precisa avaliar fatores como acesso ao atendimento, continuidade do tratamento, acompanhamento após crises e capacidade de resposta dos serviços. “Prevenção do suicídio precisa ser uma política de saúde contínua, não apenas uma campanha sazonal”, defende Benevides.
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