Pesquisar no Blog

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Nova terapia para câncer de pâncreas metastático traz perspectiva de mais tempo para pacientes, explica Amanda Meirelles

 Médica intensivista e referência na comunicação de saúde, Amanda Meirelles explica como o daraxonrasib atua e por que a aprovação nos Estados Unidos representa um avanço importante contra uma das formas mais agressivas de câncer

 

Uma nova terapia aprovada pela agência reguladora americana, Food and Drug Administration (FDA), na última semana (26/8), traz uma perspectiva diferente para pacientes com câncer de pâncreas metastático. Não se trata de uma cura, mas de um avanço que mostra uma possibilidade concreta de ampliar a sobrevida de parte desses pacientes com o daraxonrasib, que é uma terapia direcionada a uma das principais vias envolvidas no crescimento do tumor. 

O resultado que levou à aprovação havia chamado atenção meses antes, durante a reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), um dos principais encontros mundiais da oncologia. No estudo de fase 3 RASolute 302, que acompanhou 500 pacientes, a sobrevida mediana foi de 13,2 meses entre os pacientes que receberam daraxonrasib, contra 6,7 meses entre aqueles tratados com quimioterapia, praticamente o dobro. O tempo sem progressão da doença também foi aproximadamente duas vezes maior: 7,2 meses contra 3,6 meses. 

Para a médica intensivista Amanda Meirelles, que se consolidou como uma das principais vozes da comunicação de saúde no Brasil, a notícia tem um significado que vai além dos números. A própria médica perdeu uma tia para o câncer de pâncreas e contou em vídeo postado em seu Instagram, no último domingo, que essa experiência pessoal mudou a forma como recebe notícias de avanços na área: “Minha tia morreu de câncer de pâncreas. E uma das partes mais difíceis de ser médica é você descobrir que tem batalhas que você não vence só porque estudou mais, porque conhece a doença, ou simplesmente porque você ama muito alguém. Às vezes você sabe exatamente o que está acontecendo e, mesmo assim, não consegue mudar o final”, desabafa Amanda. 

É justamente por essa experiência, somada à sua atuação como médica e comunicadora, que Amanda chama atenção para a importância de traduzir avanços científicos sem transformar esperança em promessa: “Quando eu vejo notícias como essa, é algo que realmente me atravessa de um jeito muito diferente. Porque pela primeira vez em muito tempo, a gente está falando de uma mudança que realmente pode significar mais tempo para pessoas com câncer de pâncreas metastático”, enfatiza a Dra.

 

Como funciona a nova terapia 

O daraxonrasib é uma terapia-alvo oral que atua sobre a família de proteínas RAS, envolvida no crescimento dos tumores. A via RAS é considerada um dos principais motores do câncer de pâncreas, e atingir essa proteína foi durante décadas um dos grandes desafios da oncologia. 

Amanda explica o mecanismo de maneira mais simples: “O medicamento ele vai bloquear a forma ativa de proteínas da família RAS. RAS como se fosse um acelerador que manda a célula do câncer crescer. E em muitos cânceres de pâncreas, alterações nessa via fazem esse acelerador ficar praticamente travado no ‘ligado’, favorecendo assim o crescimento e a sobrevivência do tumor. E durante décadas, atingir essa via com medicamentos foi um dos grandes desafios da oncologia. E agora a gente conseguiu atacá-la de uma maneira diferente”. 

No estudo RASolute 302, o medicamento também apresentou uma taxa de resposta objetiva maior do que a quimioterapia: 31,6% dos pacientes tiveram redução do tumor dentro dos critérios definidos pelo estudo, contra 11,2% no grupo que recebeu quimioterapia. “E eu sei que quando a gente fica falando de número, a medicina parece fria, mas eu não consigo olhar para esses 13 meses e enxergar apenas uma estatística. Eu penso em uma pessoa. Eu penso em uma família. Na possibilidade de, muitas vezes, mais tempo. Mais um aniversário, mais um Natal, mais uma viagem, mais um abraço”, conta Amanda Meirelles.

 

Avanço não significa cura 

Apesar dos resultados, a Dra. Amanda reforça que a aprovação não significa que o câncer de pâncreas metastático tenha deixado de ser uma doença grave ou que o novo medicamento funcione para todos os pacientes: “Esse tratamento não é cura. A gente não está falando sobre isso e é importante deixar isso claro. O câncer de pâncreas metastático continua sendo uma doença extremamente agressiva, e nem todo paciente a gente sabe que vai responder da mesma forma. A quimioterapia ela não deixou de existir, e ainda temos um caminho muito grande pela frente”. 

O significado desse avanço está justamente na possibilidade de transformar uma descoberta científica em algo concreto para quem enfrenta a doença. “Essa aprovação inaugura uma nova classe de tratamento nesse cenário por meio de uma terapia oral direcionada à RAS. Justamente uma das vias que durante décadas esteve entre os alvos mais difíceis de atingir no câncer. É uma porta que parecia quase que impossível de abrir e começou a ceder”, lembra Amanda. 

E é nesse ponto que a experiência da médica como profissional de saúde e comunicadora se encontra com a ciência: “Talvez isso seja o que mais me emociona na medicina. Porque a ciência não é apenas descobrir uma nova molécula, mas sim transformar conhecimento em tempo. E para quem já perdeu alguém cedo demais, tempo nunca é só tempo. Às vezes o tempo é a chance de viver aquilo que ainda faltava”, conclui Amanda Meirelles.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados