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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Alerta do smartwatch é caso de pronto-socorro?

Tecnologia pode contribuir para o diagnóstico de arritmias, mas não detecta infarto; é preciso saber interpretar os dados e reconhecer sinais de gravidade

 

O paciente chega ao pronto-socorro com palpitação, abre o celular e mostra ao médico o que, até pouco tempo atrás, dificilmente faria parte de uma consulta de emergência: o registro do próprio batimento cardíaco captado pelo smartwatch. O comportamento, que está se tornando cada vez mais comum, já começa até a mudar a forma como algumas doenças cardiovasculares são investigadas.

No Hcor, o cardiologista Dr. Alexandre Abla observa um aumento claro na chegada de pacientes ao pronto-socorro com registros de frequência cardíaca e eletrocardiogramas feitos por relógios inteligentes, principalmente por adultos jovens, entre 30 e 40 anos. “Esses dados podem ser especialmente úteis em casos de sintomas intermitentes, quando o paciente sente uma alteração no coração, mas chega ao hospital depois que o episódio já terminou”, explica. 

O médico estima, com base na sua experiência clínica que, entre os que buscam atendimento de emergência após alertas relacionados ao ritmo cardíaco, cerca de 60% a 70% apresentam alguma arritmia confirmada posteriormente. “Métodos tradicionais, como o Holter, monitoram a atividade cardíaca por um período determinado, mas podem não coincidir com o momento em que uma arritmia surge. O smartwatch é interessante porque pode registrar o que está acontecendo e isso ajuda muito a fechar diagnósticos de arritmias”, completa. 

O especialista ressalta, porém, que o dispositivo pode ser muito útil em identificar alterações do ritmo cardíaco, mas não detecta infarto e não substitui avaliação médica. “Os dispositivos que possuem função de eletrocardiograma geralmente fazem uma leitura de uma única derivação, enquanto a investigação de um infarto exige avaliação médica e exames apropriados, incluindo o eletrocardiograma convencional de 12 derivações”, ressalta.

 

Nem todo alerta significa doença cardíaca 

Outro ponto de atenção é que o relógio pode registrar alterações na frequência cardíaca sem que exista necessariamente uma arritmia. Café em excesso, estresse, privação de sono, ansiedade e desidratação podem provocar taquicardia, uma aceleração do ritmo normal do coração. Além disso, o próprio dispositivo pode gerar registros inadequados. Se o relógio estiver frouxo ou mal adaptado, pode captar um dado errado. 

Por isso, o que aparece na tela deve ser tratado como uma informação para investigação, e não como um diagnóstico pronto. “No pronto-socorro, a equipe considera os registros trazidos pelo paciente, mas com cautela, levando em conta o modelo do aparelho, a qualidade da informação e a necessidade de confirmação por exames médicos. Quando uma arritmia é identificada, o paciente pode ser encaminhado para investigação complementar”, conta. 

A orientação também depende dos sintomas. Segundo o Dr. Abla, mal-estar importante ou sintomas súbitos devem levar o paciente imediatamente a uma emergência. Já um registro isolado, sem sintomas relevantes, pode ser discutido com o cardiologista em uma avaliação ambulatorial. 

A American Heart Association (Associação Americana de Cardiologia) orienta que pacientes compartilhem com seus profissionais de saúde as informações de wearables quando houver alertas de alteração do ritmo, justamente porque esses dados podem contribuir para a investigação de fibrilação atrial.

 

Entre prevenção e ansiedade 

O avanço do monitoramento contínuo, no entanto, traz um paradoxo: quanto mais o paciente sabe sobre o próprio corpo, maior pode ser a ansiedade relacionada a qualquer pequena alteração. Para o Dr. Abla, o fenômeno merece atenção. “Um monitoramento contínuo pode gerar uma ansiedade em caso de ausência de monitorização. Se estou sem meu relógio ou não carreguei o aparelho, posso me sentir vulnerável, frágil ou exposto”, revela. 

O objetivo, portanto, não é transformar o usuário em um fiscal permanente do próprio pulso, mas utilizar a tecnologia de forma direcionada. Na avaliação do cardiologista, os smartwatches podem ser especialmente interessantes para pacientes com risco de arritmia que apresentam sintomas difíceis de documentar ou para pessoas que já têm diagnóstico de arritmia e precisam acompanhar seus sintomas. 

A tecnologia pode colocar uma nova ferramenta nas mãos do paciente e uma nova fonte de informação para o médico. Mas, entre o alerta do relógio e uma decisão clínica, continua existindo uma etapa indispensável: a avaliação profissional.

 

Hcor


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