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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A IA já formou uma opinião sobre a sua empresa. Você concorda com o que ela diz?

A inteligência artificial entrou nas empresas e não é mais novidade. Só que mais do que usar a tecnologia, as marcas precisam entender como estão sendo interpretadas por ela

 

Há pouco tempo, a principal pergunta das empresas era como usar inteligência artificial. Hoje, essa discussão já avançou. Ferramentas de IA entraram em processos, pesquisas, análises, produção de conteúdo e inúmeras outras atividades do dia a dia corporativo.

Mas existe uma questão que ainda recebe menos atenção: enquanto as empresas aprendem a usar a inteligência artificial, quanto estão observando a forma como a inteligência artificial tem interpretado essas mesmas empresas?

Essa pergunta interessa especialmente à comunicação.

 

Da adoção à reputação

Quando pensamos em IA dentro das organizações, a discussão normalmente começa pela eficiência. Como ganhar produtividade? Como automatizar processos? Como pesquisar melhor? Como produzir mais rápido?

Tudo isso importa. Mas existe outra transformação acontecendo fora das empresas.

Pessoas também estão recorrendo à inteligência artificial para pesquisar organizações, comparar soluções, conhecer potenciais empregadores, avaliar fornecedores e entender mercados. Nesse processo, as ferramentas deixam de ser apenas instrumentos utilizados pela companhia e passam a participar do caminho pelo qual diferentes públicos formam uma percepção sobre ela.

Um estudo recente da RepTrak, companhia global especializada em mensuração de reputação corporativa, ajuda a dimensionar esse fenômeno. Em dados coletados no fim de 2025, apenas 10% dos públicos pesquisados disseram reconhecer conscientemente a inteligência artificial como um dos pontos de contato pelos quais haviam recebido informações sobre determinada empresa.

O próprio estudo alerta, porém, que esse número não representa toda a exposição à IA. Uma pessoa pode receber, por exemplo, uma síntese gerada por inteligência artificial em uma busca sem identificar aquela experiência dessa forma.

O dado mais interessante aparece quando a pesquisa compara a percepção de reputação entre quem reconheceu esse contato e quem não reconheceu. Na metodologia utilizada, as pessoas expostas à IA atribuíram às empresas uma pontuação média de reputação 6,5 pontos superior à registrada entre as não expostas.

Não significa que a IA, sozinha, tenha provocado essa diferença. O que o resultado mostra é que ela já aparece associada a uma variação relevante de percepção.

Para quem trabalha com reputação, há uma mensagem importante aí: talvez estejamos medindo apenas a parte mais visível de uma influência que tende a crescer.

Uma pessoa pode pesquisar uma empresa antes de uma compra. Um profissional pode utilizar uma ferramenta para preparar uma análise sobre possíveis fornecedores. Um candidato pode pedir um resumo sobre determinada companhia antes de aceitar uma entrevista.

Em muitos desses casos, a inteligência artificial não é percebida como destino da pesquisa. Ela está no meio do caminho, organizando e sintetizando informações.

 

O que alimenta essas respostas?

E é justamente aqui que comunicação e inteligência artificial começam a se encontrar de forma mais profunda.

Uma IA não conhece uma empresa a partir daquilo que seus executivos sabem sobre ela internamente. Sua interpretação depende das informações às quais consegue acessar ou que fazem parte do ecossistema informacional utilizado para formular suas respostas.

Isso inclui conteúdos publicados pela própria organização, matérias jornalísticas, registros públicos e referências produzidas por terceiros. Por isso, observar apenas a resposta final de uma ferramenta é insuficiente. Também importa compreender que tipo de informação pública existe sobre a empresa, quais narrativas aparecem com consistência e quais aspectos importantes simplesmente não estão bem documentados.

Essa lógica dá uma nova dimensão ao trabalho de comunicação.

Durante muito tempo, uma matéria relevante tinha como objetivo chegar ao público daquele veículo, ampliar a visibilidade da empresa e contribuir para a construção de credibilidade. Tudo isso continua valendo. Mas aquele conteúdo agora também integra um ambiente informacional que pode ser consultado, relacionado e sintetizado por ferramentas de inteligência artificial.

O mesmo acontece com um artigo de opinião, uma entrevista, um estudo proprietário, uma página institucional ou uma manifestação pública de uma liderança.

Comunicação deixa registros. E esses registros passam a ter importância também na forma como as máquinas conseguem compreender uma organização.

Por isso, vejo cada vez menos sentido em tratar imprensa, comunicação institucional e posicionamento em inteligência artificial como universos separados.

Todos participam, de maneiras diferentes, da construção de uma mesma reputação.

 

Não é sobre escrever para robôs

Essa mudança não deveria provocar uma corrida para produzir conteúdo pensando exclusivamente em algoritmos.

Esse seria, na minha visão, um erro.

O objetivo não pode ser descobrir uma fórmula para fazer uma inteligência artificial falar bem sobre determinada empresa. Ninguém controla integralmente o que uma IA responderá e, principalmente, reputação não se resolve com volume de conteúdo.

O trabalho mais consistente acontece antes.

É preciso organizar aquilo que a empresa diz sobre si mesma, manter seus canais institucionais claros e atualizados, produzir conteúdo que realmente demonstre conhecimento, conquistar presença legítima em fontes externas e construir relações de confiança com imprensa, públicos e mercado.

Quando esse ecossistema é sólido, existe uma matéria-prima muito melhor para qualquer pessoa ou tecnologia que tente compreender aquela organização.

É uma mudança relevante na comunicação, mas não uma ruptura com aquilo que sempre sustentou reputações fortes.

 

Quanto mais IA, mais o humano importa

Talvez esse seja o aspecto que mais me interessa nessa transformação.

A inteligência artificial consegue processar uma quantidade de informações que nenhuma pessoa conseguiria analisar na mesma velocidade. Pode cruzar fontes, resumir conteúdos e devolver uma interpretação em poucos segundos.

Mas a qualidade daquilo que ela encontra continua dependendo das histórias, informações, decisões e comportamentos que as empresas colocam no mundo.

Por isso, a presença crescente da IA não diminui o valor da comunicação humanizada. Ela aumenta a responsabilidade sobre ela.

Empresas continuarão precisando de informações confiáveis, lideranças coerentes, posicionamentos claros e relações construídas com verdade. A diferença é que, agora, parte desse conteúdo pode chegar às pessoas depois de passar pela interpretação de uma inteligência artificial.

Durante anos, perguntamos o que alguém encontraria ao pesquisar uma empresa no Google.

Agora há uma pergunta a mais: quando uma inteligência artificial precisar explicar quem é a sua empresa, que história ela terá disponível para contar?

 

Francine Ferreira - Jornalista, especialista em Comunicação Empresarial. Diretora e fundadora da Expressio Comunicação Humanizada

 

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