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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A atenção da sala se perde antes do celular aparecer

Depois de acompanhar mais de 200 apresentações no palco, encontrei um padrão: o problema quase nunca é de quem ouve


Nos cinco primeiros minutos da apresentação, quase ninguém tira o olho da própria tela. Seja teclando no notebook ou escrevendo no celular. E a Julia fica naquela: será que estão anotando? Será que estão me ouvindo? Ou será que estão intelectualmente envolvidos em outra atividade? A dúvida aparece na voz dela. Da metade para frente, a sua concentração desanda. Ela sai da sala chateada com a desatenção do público e se perguntando onde foi que errou.

Você já saiu de uma sala assim?

Ou talvez tenha saído com a certeza de que o problema era só o celular dos outros?

Já acompanhei e analisei, ao vivo, a fala de mais de 200 profissionais em palco nos últimos anos. Aprendi uma verdade difícil de engolir: deixar de interpretar a desatenção do público como (apenas) falta de respeito. Se o assunto importa para quem ouve e os olhos continuam grudados na tela, o caminho mais útil é interpretar a distração como diagnóstico para melhorar futuras apresentações ou palestras.

 

Os principais erros

Mapeei os três principais deslizes que observei na estruturação do conteúdo de apresentações e na performance de quem fala. Evitá-los é um bom caminho para reter a atenção de quem ouve:

  1. Começar pelo histórico ou currículo. Se o público não entender nos primeiros segundos o que muda na sua vida, o que precisa ser decidido hoje ou o que está em jogo se nada for definido, a atenção dele corre sério risco de ir embora. Isso significa abandonar aquele currículo projetado no PowerPoint ou o longo contexto do projeto. A melhor estratégia dependerá da ocasião. Em reuniões, a ideia de “começar pelo fim” é um excelente caminho.
  2. O PowerPoint já entregou tudo. Não despeje os indicadores e conclusões todos de uma vez. Se a pauta já estava na mesa e o seu slide mostrou o final, as chances de a plateia ler tudo e parar de ouvir aumentam muito. Lembre-se: uma frase, um dado ou um bloco por vez.
  3. Dados e histórias do ego. É natural se entusiasmar com uma conquista ou a história da própria empresa. E pode ser realmente algo incrível para o seu time, mas aceite: para quem ouve, é apenas mais um fato em meio a milhares de fatos que vai assimilar naquele dia. Antes de falar, mergulhe no mundo de quem vai escutar. Por que a conquista ou aquela história importam diretamente para ele? E aqui, um bom dado e uma boa história sintonizados com a vida do público, funcionam melhor que longas histórias ou 20 números.

 

Menos monólogo, mais diálogo

Por fim, recomendo que você encare qualquer fala em público, seja para 5, 10 ou mil pessoas, como um diálogo. Quando uma apresentação tem cara de monólogo, e mais parece um discurso do que uma conversa, naturalmente o público se distancia.

Olhar para o maior número de pessoas possível, pausar em alguns momentos e perguntar se quem ouve está conseguindo acompanhar são maneiras eficazes de garantir que o público sinta que é parte da construção daquela linha de raciocínio com você. E é.

Você não fala para você, você fala para o seu público.

Se a atenção dele está inteiramente no celular, culpá-lo pode ser o caminho mais fácil - mas definitivamente não será o mais produtivo para a sua evolução como orador. 

 

Giovana Pedroso - TEDx Speaker, jornalista e especialista em comunicação


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