Depois de acompanhar mais de 200 apresentações no palco, encontrei um padrão: o problema quase nunca é de quem ouve
Nos cinco primeiros
minutos da apresentação, quase ninguém tira o olho da própria tela. Seja
teclando no notebook ou escrevendo no celular. E a Julia fica naquela: será que
estão anotando? Será que estão me ouvindo? Ou será que estão intelectualmente
envolvidos em outra atividade? A dúvida aparece na voz dela. Da metade para
frente, a sua concentração desanda. Ela sai da sala chateada com a desatenção
do público e se perguntando onde foi que errou.
Você já saiu de uma sala
assim?
Ou talvez tenha saído com
a certeza de que o problema era só o celular dos outros?
Já acompanhei e analisei, ao vivo, a fala de mais de 200
profissionais em palco nos últimos anos. Aprendi uma verdade difícil de engolir:
deixar de interpretar a desatenção do público como (apenas) falta de respeito.
Se o assunto importa para quem ouve e os olhos continuam grudados na tela, o
caminho mais útil é interpretar a distração como diagnóstico para melhorar
futuras apresentações ou palestras.
Os principais erros
Mapeei os três principais
deslizes que observei na estruturação do conteúdo de apresentações e na
performance de quem fala. Evitá-los é um bom caminho para reter a atenção de
quem ouve:
- Começar pelo histórico
ou currículo. Se o
público não entender nos primeiros segundos o que muda na sua vida, o que
precisa ser decidido hoje ou o que está em jogo se nada for definido, a
atenção dele corre sério risco de ir embora. Isso significa abandonar
aquele currículo projetado no PowerPoint ou o longo contexto do projeto. A
melhor estratégia dependerá da ocasião. Em reuniões, a ideia de “começar
pelo fim” é um excelente caminho.
- O PowerPoint já entregou
tudo. Não despeje os indicadores e
conclusões todos de uma vez. Se a pauta já estava na mesa e o seu slide
mostrou o final, as chances de a plateia ler tudo e parar de ouvir
aumentam muito. Lembre-se: uma frase, um dado ou um bloco por vez.
- Dados e histórias do
ego. É natural se entusiasmar com
uma conquista ou a história da própria empresa. E pode ser realmente algo incrível
para o seu time, mas aceite: para quem ouve, é apenas mais um fato em meio
a milhares de fatos que vai assimilar naquele dia. Antes de falar,
mergulhe no mundo de quem vai escutar. Por que a conquista ou aquela
história importam diretamente para ele? E aqui, um bom dado e uma boa
história sintonizados com a vida do público, funcionam melhor que longas
histórias ou 20 números.
Menos monólogo,
mais diálogo
Por fim, recomendo que
você encare qualquer fala em público, seja para 5, 10 ou mil pessoas, como um
diálogo. Quando uma apresentação tem cara de monólogo, e mais parece um
discurso do que uma conversa, naturalmente o público se distancia.
Olhar para o maior número
de pessoas possível, pausar em alguns momentos e perguntar se quem ouve está
conseguindo acompanhar são maneiras eficazes de garantir que o público sinta
que é parte da construção daquela linha de raciocínio com você. E é.
Você não fala para você,
você fala para o seu público.
Se a atenção dele está inteiramente no celular, culpá-lo pode ser
o caminho mais fácil - mas definitivamente não será o mais produtivo para a sua
evolução como orador.
Giovana Pedroso - TEDx Speaker, jornalista e especialista em comunicação

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