Setembro
Lilás chama atenção para mudanças cognitivas que não devem ser automaticamente
atribuídas à idade
Esquecer algo de vez em quando ou
precisar de um pouco mais de tempo para se lembrar de uma informação pode fazer
parte do envelhecimento. O sinal de alerta surge quando essas mudanças se
tornam frequentes ou intensas e começam a interferir na rotina e na autonomia.
Durante o Setembro Lilás, mês de conscientização sobre a doença de Alzheimer e
outras demências, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)
reforça a importância de investigar alterações cognitivas persistentes.
“A maioria das funções cognitivas decai
com a idade. No entanto, apesar disso, é possível manter a autonomia e a
independência. É importante investigar quando a piora cognitiva é exuberante,
exagerada ou quando essa perda cursa com dependência para realizar atividades
às quais a pessoa estava acostumada”, explica Ivan Aprahamian, geriatra e
psiquiatra, professor livre-docente e diretor científico da SBGG.
Nem toda alteração cognitiva, porém,
está relacionada ao Alzheimer. Depressão, transtornos do sono, descompensação de
doenças, efeitos de medicamentos, deficiências vitamínicas e até o uso abusivo
de álcool podem afetar a cognição. Por isso, identificar o que mudou e
investigar a causa é fundamental.
Na apresentação mais comum do
Alzheimer, os primeiros sinais costumam estar relacionados à memória recente.
“Frente a uma apresentação típica da doença, que perfaz 90% dos casos, vemos
perda de memória verbal recente, ou seja, esquecimento de fatos ou eventos
atuais. Em fases iniciais observamos confusões mentais com eventos, ocorrências
recentes na vida daquela pessoa e desorientações espaciais e temporais”,
esclarece Ivan.
Com a evolução da doença, outras
funções cognitivas também podem ser afetadas, incluindo linguagem, orientação,
comportamento, planejamento e capacidade de tomar decisões. “Quando os
esquecimentos se tornam mais frequentes e intensos em um intervalo curto de
tempo, é importante olhar com cautela para a possibilidade de uma alteração
patológica”, afirma Laiss Bertola, psicóloga, neuropsicóloga e 2ª vice-presidente
de Gerontologia da SBGG-MG.
Diagnóstico precoce
ajuda a planejar o cuidado
Identificar o Alzheimer nas fases
iniciais permite organizar o cuidado e envolver a família nas decisões. “O
diagnóstico precoce ainda é importante. Não pelo fato de termos alguns
tratamentos sofisticados, caros e de longo prazo, mas por podermos nos planejar
como família. A doença tem um impacto brutal em nossas vidas e exige muita
resiliência de todos os envolvidos”, contextualiza Ivan.
O diagnóstico, porém, não significa
interromper as atividades que fazem parte da vida da pessoa. Dentro das
possibilidades de cada indivíduo, manter uma rotina ativa, com estímulos
cognitivos e vínculos sociais, pode favorecer o bem-estar e a participação no
cotidiano. “Já temos muitas evidências de que as intervenções não
farmacológicas são importantes para manutenção de qualidade de vida, de
autonomia e independência, sempre pelo maior tempo possível dentro da
capacidade daquela pessoa”, destaca Laiss.
Cuidado vai além
do diagnóstico
O acompanhamento da pessoa com
Alzheimer deve considerar não apenas os aspectos clínicos da doença, mas também
sua funcionalidade, rotina, relações e ambiente. A atuação conjunta de
diferentes profissionais contribui para um cuidado mais amplo e individualizado.
O geriatra atua no manejo amplo do quadro clínico e das condições de saúde,
enquanto profissionais da Gerontologia contribuem para aspectos relacionados à
funcionalidade, rotina, adaptação e qualidade de vida.
“O cuidado da pessoa com demência é
multifatorial, exige múltiplos profissionais de diferentes áreas. Devemos ter
um olhar que seja realmente mais biopsicossocial da pessoa com demência, no seu
ambiente, no seu ecossistema e no seu sistema familiar”, pontua Laiss.
Além do acompanhamento adequado, o
controle de fatores de risco ao longo da vida também é importante para a saúde
cerebral. Hipertensão, diabetes, obesidade, depressão, colesterol elevado,
tabagismo, sedentarismo, perda auditiva e baixa atividade intelectual e social
estão entre os fatores que merecem atenção. “Tratar esses fatores é
fundamental. Sempre colocarmos nosso cérebro para trabalhar, ser desafiado com
nossos aprendizados é um bom remédio”, reforça Ivan.
SBGG apoia
campanha “Alzheimer: O diagnóstico importa”
A Sociedade Brasileira de Geriatria e
Gerontologia (SBGG) se une à campanha da FEBRAZ para o Setembro Lilás, que
neste ano traz o mote “Alzheimer: O diagnóstico importa”. A iniciativa reforça
a importância de reconhecer os sinais da doença e buscar avaliação e
acompanhamento adequados.
Para Leonardo Oliva, geriatra e
presidente da SBGG: “Apoiar a campanha da FEBRAZ no Setembro Lilás é reafirmar
o compromisso da SBGG com um envelhecimento mais saudável, digno e baseado em
ciência. O diagnóstico da doença de Alzheimer não deve ser visto como um ponto
final, mas como um ponto de partida para ampliar as possibilidades de
tratamento, planejamento do cuidado, preservação da autonomia e apoio às
famílias. Também é nosso papel combater a ideia de que alterações cognitivas
importantes são parte natural do envelhecimento e reforçar a importância de
investigá-las”.
Já de acordo com Isabela Oliveira
Azevedo Trindade, fisioterapeuta, especialista em Gerontologia e presidente do
Departamento de Gerontologia da SBGG: “A campanha traz uma mensagem
fundamental: diante de uma doença que ainda não tem cura, diagnosticar não
significa apenas dar um nome ao que está acontecendo, mas abrir possibilidades
de cuidado, tratamento e planejamento. O diagnóstico em tempo oportuno também
permite que a própria pessoa participe das decisões sobre seu cuidado, expresse
seus desejos e preserve, pelo maior tempo possível, sua autonomia e
funcionalidade. Precisamos, portanto, perder o medo do diagnóstico: ele não
representa o fim da vida, mas o início de uma nova forma de cuidar, olhando não
apenas para a doença, mas para a pessoa, sua história, seus vínculos e suas
escolhas”.
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – SBGG
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