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Nem toda dificuldade escolar significa um problema de saúde. Cada
criança tem seu próprio ritmo de desenvolvimento e aprendizagem, mas, quando
dificuldades para ler, escrever, compreender, memorizar ou manter a atenção
persistem e passam a interferir na rotina e na autoestima, é importante
investigar. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (Inep) mostram que 66% das crianças da rede pública atingiram,
em 2025, o padrão nacional de alfabetização esperado ao final do 2º ano do
ensino fundamental. O índice avançou em relação aos 59,2% de 2024, mas cerca de
um terço dos estudantes ainda não alcançou o nível esperado. A meta nacional é
superar 80% até 2030. No Dia Mundial da Alfabetização, celebrado em 8 de
setembro, o cenário reforça a importância de acompanhar o desenvolvimento
infantil e identificar precocemente possíveis dificuldades.
Segundo Daniela Gandolphi de Carvalho Nucci, médica pediatra do
Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), alguns sinais merecem atenção quando são
persistentes, desproporcionais à idade e não apresentam melhora mesmo com apoio
pedagógico. Entre eles estão dificuldades contínuas para reconhecer letras,
relacionar sons e letras, ler, escrever ou compreender textos; erros
frequentes; dificuldade para memorizar sequências e instruções; demora
excessiva na realização de tarefas e rendimento irregular. Recusa escolar,
irritabilidade, ansiedade, dores de cabeça ou de barriga antes das aulas e
frases como “eu sou burro” ou “não consigo aprender” também podem indicar que a
criança está enfrentando dificuldades. “A atenção deve estar voltada principalmente
para a evolução individual da criança. A comparação mais importante não deve
ser com os colegas, mas com a evolução da própria criança e com as
oportunidades de aprendizagem que ela recebeu”, afirma.
A dificuldade de aprendizagem não está necessariamente relacionada
à capacidade intelectual. Uma criança pode apresentar bom raciocínio,
criatividade e compreensão oral e, ainda assim, ter dificuldades específicas.
Na dislexia, por exemplo, podem surgir dificuldades para associar letras e
sons, ler com fluência, perceber rimas, separar palavras em sílabas e memorizar
sequências. Antes da alfabetização, esses sinais não permitem fechar um
diagnóstico, mas indicam a necessidade de acompanhar o desenvolvimento.
Isso também vale para o TDAH. Ser distraída ou agitada
ocasionalmente não significa que a criança tenha o transtorno. Os sintomas
precisam ser persistentes, aparecer em mais de um ambiente, como casa e escola,
e provocar prejuízos reais na aprendizagem, organização ou relações.
Problemas de visão e audição também podem ser confundidos com
dificuldades de aprendizagem. Aproximar muito o rosto de livros e telas, ter
dificuldade para copiar da lousa, perder a linha durante a leitura, apresentar
dores de cabeça, pedir repetidamente que algo seja dito novamente ou aumentar
muito o volume da televisão são sinais que merecem atenção. “A alfabetização
depende de várias habilidades que começam a se desenvolver muito antes da
entrada na escola. A avaliação deve considerar o desenvolvimento infantil como
um todo, e não apenas a leitura ou as notas”, explica Daniela.
A avaliação não significa necessariamente um diagnóstico. O
primeiro passo é conversar com a escola e procurar o pediatra, levando exemplos
concretos das dificuldades e informações sobre o desenvolvimento da criança.
Conforme o caso, podem participar da investigação profissionais como
fonoaudiólogo, oftalmologista, otorrinolaringologista, psicólogo,
neuropsicólogo, psicopedagogo, terapeuta ocupacional, neuropediatra ou
psiquiatra infantil. “Avaliar não significa necessariamente diagnosticar um
transtorno; significa compreender o perfil da criança e oferecer a ajuda
adequada no momento certo”, ressalta a especialista.
Em casa, a família pode contribuir estabelecendo uma rotina
previsível, dividindo as tarefas em etapas menores, fazendo pausas e
valorizando esforços e avanços. Evitar comparações, cobranças excessivas e
rótulos também é fundamental. “Gritos, ameaças, castigos e horas seguidas de
exercícios tendem a aumentar a ansiedade e não corrigem uma dificuldade de
aprendizagem. A criança precisa compreender que ter dificuldade não significa
ser menos inteligente e que pedir ajuda também faz parte de aprender”, finaliza
Daniela.

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