Lesões na boca, manchas nas mãos e pés, ínguas e alterações na pele podem estar relacionadas a infecções sexualmente transmissíveis; especialista também esclarece dúvidas sobre testosterona e ejaculação retrógrada
Quando o assunto é infecção sexualmente transmissível (IST), é comum imaginar
que os primeiros sinais estarão necessariamente na região genital. Mas isso nem
sempre acontece. Lesões, feridas, manchas e alterações na pele podem surgir em
diferentes partes do corpo, dependendo da prática sexual e da área que teve
contato durante a relação. Boca, lábios, língua, garganta, região ao redor do
ânus, nádegas, virilha, mãos e pés estão entre os locais que podem apresentar
manifestações.
Mosiah
Machado, médico da família e comunidade e docente da disciplina de Saúde
Digital do Centro Universitário Cesuca, da Grande Porto Alegre, explica que
alguns sinais merecem atenção especial. Feridas ou úlceras que aparecem sem
explicação, principalmente quando não provocam dor, pequenas bolhas agrupadas e
dolorosas, novas verrugas, manchas espalhadas pelo corpo, secreções genitais ou
anais, dor ou secreção retal, além de feridas persistentes na boca, podem estar
associados a ISTs.
Um
dos exemplos é a sífilis, que pode começar com uma ferida geralmente única e indolor
e, posteriormente, provocar manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e
plantas dos pés. O herpes costuma provocar pequenas bolhas que se rompem e
formam feridas dolorosas, enquanto o HPV pode causar verrugas genitais ou
perianais. Já gonorreia e clamídia também podem atingir garganta e reto e, em
muitos casos, não apresentar sintomas.
O
especialista ressalta, porém, que a aparência de uma lesão isoladamente não é
suficiente para confirmar ou descartar uma IST. Uma espinha ou foliculite, por
exemplo, costuma estar relacionada a um folículo piloso, enquanto um pelo
encravado frequentemente aparece após a depilação. Afta geralmente é dolorosa,
ocorre dentro da boca e tende a desaparecer espontaneamente em uma ou duas
semanas. Já uma lesão relacionada a uma IST pode persistir, aumentar, formar
bolhas ou úlceras e aparecer acompanhada de outros sinais.
Mesmo sem sintomas, testagem pode ser necessária
Outro
ponto de atenção é que muitas ISTs são assintomáticas. Por isso, não é preciso
esperar o aparecimento de feridas, corrimentos ou outros sinais para procurar
atendimento. A testagem é especialmente importante depois de uma relação sexual
sem preservativo ou outra exposição de risco, quando um parceiro recebe
diagnóstico de uma IST e em situações que demandem rastreamento periódico.
No
caso de uma exposição recente ao HIV, a recomendação é procurar atendimento
rapidamente, já que a PEP deve ser iniciada o quanto antes e no máximo em 72
horas. “Não tenho nada visível” não significa necessariamente que não exista
uma infecção, reforça o especialista.
Testosterona não substitui os cuidados com a saúde sexual
A
saúde sexual também envolve cuidados específicos para homens trans que fazem
terapia hormonal. Segundo Mosiah, a testosterona pode provocar aumento do
clitóris e alterações na sensibilidade. A menstruação geralmente diminui ou
cessa, mas também podem ocorrer redução da lubrificação vaginal, ressecamento,
afinamento e maior fragilidade da mucosa.
A
terapia hormonal pode aumentar a libido em algumas pessoas, especialmente no
início do tratamento, mas não há uma resposta única. A redução da lubrificação
pode provocar ardência, fissuras, pequenos sangramentos ou dor durante relações
com penetração vaginal ou frontal. Lubrificantes podem ajudar, mas sintomas
persistentes precisam ser avaliados.
Um
dos principais esclarecimentos é que testosterona não funciona como
anticoncepcional. Mesmo sem menstruar, uma pessoa que mantém útero e ovários
pode eventualmente ovular e engravidar. Além disso, a testosterona não protege
contra HIV, sífilis, gonorreia, clamídia, HPV ou outras ISTs. A prevenção deve
considerar as práticas sexuais e os órgãos envolvidos, podendo incluir
preservativos, lubrificação, vacinação contra HPV e hepatite B e, quando
indicada, PrEP.
Os
cuidados ginecológicos também continuam necessários de acordo com os órgãos
presentes. Pessoas que possuem colo do útero, por exemplo, devem manter o
rastreamento do câncer cervical conforme as recomendações aplicáveis.
Sangramentos persistentes ou que retornam após um período sem menstruação
também merecem investigação.
Para
o médico, um dos erros mais comuns é acreditar que o uso de testosterona
significa que não há mais necessidade de acompanhamento ginecológico. O cuidado
deve considerar os órgãos presentes, as cirurgias realizadas e as práticas
sexuais, permitindo uma orientação individualizada sobre contracepção,
prevenção de ISTs, rastreamento e conforto sexual.
Orgasmo seco pode ter relação com ejaculação retrógrada
Outro
tema que ainda gera dúvidas é a chamada ejaculação retrógrada. A condição
acontece quando, durante o orgasmo, o sêmen segue para a bexiga em vez de sair
pela uretra. Isso ocorre quando o mecanismo que normalmente fecha o colo da
bexiga durante a ejaculação não funciona adequadamente. Depois, o sêmen é
eliminado junto com a urina e, em geral, não causa danos à bexiga.
Entre
as principais causas estão cirurgias da próstata ou do colo da bexiga,
alterações neurológicas, como neuropatia relacionada à diabetes ou lesões da
medula, e o uso de determinados medicamentos, incluindo alguns alfabloqueadores
utilizados para sintomas urinários relacionados à próstata. Alguns
antidepressivos também podem interferir no mecanismo ejaculatório.
O
sinal mais característico é o orgasmo com pouco ou nenhum sêmen, conhecido como
“orgasmo seco”. Algumas pessoas também podem perceber que a primeira urina
depois do orgasmo fica mais turva. No entanto, a redução do volume de sêmen não
significa necessariamente ejaculação retrógrada, e a confirmação pode ser feita,
quando necessário, pela pesquisa de espermatozoides na urina após o orgasmo.
A
condição também ajuda a esclarecer uma diferença importante: ejaculação,
orgasmo e ereção não são a mesma coisa. A pessoa pode continuar tendo ereção e
sensação de orgasmo mesmo sem exteriorizar o sêmen. O principal impacto da
ejaculação retrógrada costuma estar relacionado à fertilidade, já que pouco ou
nenhum sêmen chega ao exterior, embora a produção de espermatozoides continue
ocorrendo. Por isso, a condição não deve ser confundida com esterilidade.
Na
maioria dos casos, o tratamento não é necessário quando a pessoa não está
incomodada e não deseja ter filhos. A avaliação médica é indicada quando a
alteração surge sem explicação, persiste, aparece após uma cirurgia ou medicamento,
preocupa em relação à fertilidade ou provoca impacto significativo na vida sexual.
Quando houver suspeita de que um medicamento seja responsável, ele não deve ser
interrompido por conta própria.
“A informação correta é uma das principais ferramentas para cuidar da saúde sexual. Muitas situações podem não apresentar sinais evidentes, enquanto outras manifestações podem ser confundidas com problemas comuns. Por isso, diante de uma exposição de risco, de uma alteração persistente ou de qualquer dúvida, o mais seguro é procurar avaliação profissional em vez de tentar fazer um diagnóstico pela aparência”, orienta Mosiah Machado.
Centro Universitário Cesuca
imprensacesuca@agenciamaquina.com
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