Em testes laboratoriais, dispositivo de baixo custo identificou concentrações muito baixas de cloxacilina, tetraciclina e estreptomicina em amostras de leite de vaca e de cabra
Um grupo de pesquisadores do
Brasil e dos Estados Unidos desenvolveu uma língua eletrônica capaz de detectar
no leite de vaca e de cabra concentrações muito baixas de três antibióticos –
cloxacilina, tetraciclina e estreptomicina –, inclusive quando presentes
simultaneamente. A tecnologia ainda se encontra em escala laboratorial, mas
apresenta uma característica particularmente atraente: seus elementos sensores
são constituídos simplesmente por fibras poliméricas revestidas com MXenes, uma
família relativamente nova de materiais bidimensionais com propriedades
elétricas e químicas singulares.
Os MXenes pertencem à grande
classe dos chamados nanomateriais bidimensionais, ou nanomateriais 2D. O
exemplo mais conhecido dessa categoria é o grafeno, constituído por uma única
folha de átomos de carbono. No caso dos MXenes, a estrutura é um pouco mais
complexa: as folhas são formadas por algumas camadas atômicas sobrepostas,
compostas por metais de transição (como titânio, nióbio, vanádio ou
molibdênio), combinadas com carbono, nitrogênio ou ambos.
“Por meio de um dispositivo de
baixo custo, cujos sensores são formados por fibras de náilon revestidas com
diferentes MXenes, conseguimos detectar pequenas quantidades de antibióticos em
leite e fazer a diferenciação entre amostras de leite de vaca e leite de cabra.
Nos dois meios, foi possível detectar três antibióticos diferentes, em
quantidades bem baixas, até mesmo quando misturados”, diz Murilo Facure, atualmente professor da Escola de Engenharia de São Carlos da
Universidade de São Paulo (EESC-USP) e primeiro autor do estudo.
O trabalho foi publicado no periódico ACS Omega e envolveu uma equipe
multidisciplinar formada por pesquisadores da Embrapa Instrumentação, das
universidades federais de São Carlos (UFSCar) e da Bahia (UFBA), além da Drexel
University (Estados Unidos), constituindo um dos resultados de uma linha de
pesquisa que vem explorando os MXenes na construção de sensores químicos.
O nome MXene, ainda não muito
familiar mesmo entre pesquisadores da área de ciência dos materiais, designa
não uma substância específica, mas uma numerosa família de materiais que
começou a ser estudada há cerca de 15 anos e vem despertando interesse
crescente por combinar elevada condutividade elétrica, grande área superficial
e uma superfície que pode ser funcionalizada para diferentes tipos de grupos
químicos.
“Quando mudamos a composição do
MXene, mudamos também suas propriedades. E era exatamente isso que buscávamos para
a língua eletrônica: que tivéssemos sensores com propriedades e performances
diferentes agregadas no mesmo dispositivo”, explica Facure.
Família de
folhas nanométricas
O pesquisador conta que os
MXenes têm uma estrutura parecida com uma folha, só que em dimensão muito
reduzida, dentro da nanoescala. Quimicamente, os integrantes da família de
MXenes podem ser descritos como carbetos ou nitretos de metais de transição. Um
dos exemplares mais estudados é o carbeto de titânio (Ti₃C₂), o primeiro membro da família, reportado em 2011. A fórmula pode
parecer pouco amigável, mas sua estrutura é relativamente fácil de visualizar.
Há três planos atômicos de titânio intercalados com dois planos de carbono,
formando uma espécie de sanduíche com cinco camadas.
Outros integrantes da família
apresentam diferentes metais e diferentes números de camadas. E o carbono pode
ser substituído total ou parcialmente por nitrogênio. Essa diversidade é uma
das grandes riquezas dessa família de materiais.
Não existe, portanto, “o
MXene”, da mesma maneira que existe uma composição química definida para o
grafeno. O que existe é uma família de MXenes. Mudando-se o metal, o número de
camadas e a proporção de carbono e nitrogênio, obtêm-se materiais com propriedades
distintas.
“Há ainda outra possibilidade
de alteração da composição dos MXenes. As superfícies das folhas podem ser
funcionalizadas, isto é, modificadas com grupos químicos contendo oxigênio,
hidroxila, flúor ou cloro, entre outros. Essas chamadas terminações
superficiais dependem, em grande medida, do método empregado na preparação do
material e alteram a maneira como ele interage com o ambiente”, acrescenta
Facure.
É também nesse aspecto que
aparece uma diferença importante em relação ao grafeno. “No grafeno, temos
basicamente só carbono. Nos MXenes, é possível obter uma química de superfície
muito mais diversificada e rica. E isso possibilita vários tipos de interação
com materiais de interesse. Em um trabalho anterior, que também contou com a contribuição do grupo do professor Yury
Gogotsi, da Drexel University, e da professora Luiza Mercante, da UFBA, nós já
havíamos produzido, com outra arquitetura, uma ‘língua eletrônica’ para
detectar neurotransmissores: acetilcolina, dopamina, glicina, glutamato,
histamina, tirosina. Este foi mais um exemplo da versatilidade dos MXenes. Há
muitos outros”, informa Daniel Corrêa, pesquisador da Embrapa Instrumentação e orientador de Facure durante
seu doutorado.
Essa riqueza química se soma a
propriedades físicas igualmente interessantes. Muitos MXenes apresentam elevada
condutividade elétrica (capacidade de conduzir corrente elétrica); outros se
destacam pela capacitância (capacidade de armazenar carga elétrica). Como essas
características variam de um membro para outro da família, é possível escolher
ou combinar diferentes MXenes conforme a aplicação desejada.
O próprio nome ajuda a contar a
história do material. Os MXenes são geralmente produzidos a partir de sólidos
cristalinos conhecidos como fases MAX. Nessa denominação, M corresponde a um
metal de transição; A, a um elemento pertencente aos grupos 13 ou 14 da tabela
periódica, frequentemente alumínio; e X, a carbono ou nitrogênio. O
procedimento consiste, de forma simplificada, em retirar seletivamente a camada
A. Partindo, por exemplo, do Ti₃AlC₂ (carbeto
de titânio e alumínio), remove-se o alumínio por ataque químico, e o que
permanece é a estrutura Ti₃C₂. Em
outras palavras, sai o “A” de “MAX” e sobra “MX”. O sufixo “ene” é
característico da nomenclatura de materiais bidimensionais em inglês (por
exemplo, graphene). O sufixo equivalente em português é “eno”. Mas
a denominação “MXenos” ainda não está consolidada.
“Depois dessa remoção, porém,
as folhas de MXenes ainda permanecem empilhadas. É necessário separá-las por um
processo de delaminação ou esfoliação para obter lâminas individuais ou
conjuntos com poucas camadas. O resultado são estruturas extremamente finas,
mas com grande extensão superficial, dentro da escala nano. Daí sua
classificação como materiais bidimensionais”, detalha Facure.
Ele, Corrêa e Mercante são autores
de um artigo de revisão publicado
na Revista Virtual de Química, concebido justamente para auxiliar a
difundir de forma mais ampla essa classe de materiais à comunidade científica brasileira.
“Quando voltei do meu estágio de doutorado nos Estados Unidos, havia
pouquíssima gente trabalhando com MXenes aqui. Por isso, resolvemos escrever
esse artigo de revisão”, justifica o pesquisador. Facure começou a trabalhar
com MXenes durante seu doutorado na UFSCar, orientado por Corrêa. Com apoio da FAPESP, permaneceu durante um ano (2022-2023) no grupo do
professor Gogotsi, da Drexel University, instituição onde, em 2011, foi reportado
o primeiro MXene.
Desde então, Gogotsi consolidou-se como uma das principais referências mundiais na área e tem colaborado com o grupo de pesquisadores brasileiros.
Uma língua
sem papilas gustativas
Compreender a diversidade de
composições e propriedades ajuda a entender por que os MXenes se prestam tão
bem à construção de uma “língua eletrônica”. Um sensor químico convencional é
geralmente desenvolvido para ser o mais seletivo possível: idealmente, ele deve
responder à substância que se deseja detectar e ignorar todas as demais. A lógica
da “língua eletrônica” é diferente. Em vez de depender de um único sensor, ela
utiliza várias unidades sensoriais que respondem de maneiras diferentes, porém
complementares, às substâncias presentes na amostra. A informação relevante
está no padrão produzido pelo conjunto.
“Na ‘língua eletrônica’, a
gente trabalha com diferentes sensores, para que cada um forneça uma resposta
específica. E, assim, possamos investigar, simultaneamente, diferentes
analitos”, explica Facure.
É daí que vem a analogia com a
língua biológica. O reconhecimento não depende de uma única “papila” que
identifique sozinha determinado componente, mas da combinação de sinais
produzidos por diferentes receptores. Na versão eletrônica, as respostas são
grandezas elétricas, posteriormente analisadas em conjunto. Dessa forma, para
cada solução investigada, a língua eletrônica produz uma espécie de “impressão
digital” daquela amostra. Posteriormente, por meio de tratamento estatístico
adequado de dados, é possível identificar semelhanças e diferenças entre as
amostras investigadas e detectar analitos de interesse.
Os MXenes oferecem uma vantagem
importante para esse tipo de arquitetura. Como os diversos integrantes da
família possuem diferentes condutividades elétricas, capacitâncias e características
superficiais, uma mesma substância pode perturbar eletricamente cada um deles
de maneira distinta. Reunidas, essas pequenas diferenças formam uma assinatura
característica da amostra.
O grupo já havia explorado esse
princípio no trabalho de identificação de neurotransmissores. Naquele estudo,
diferentes MXenes foram depositados sobre eletrodos, de modo que cada unidade
sensorial apresentasse propriedades distintas. No novo trabalho, destinado à
análise do leite, os pesquisadores deram um passo adicional: simplificaram
radicalmente a própria construção dos eletrodos.
Fio de
náilon
“Nas versões anteriores, foram
utilizados eletrodos interdigitados de ouro”, relata Facure. A palavra
“interdigitado” faz referência a conjuntos que se encaixam alternadamente, como
os dedos de duas mãos entrelaçadas, sem se tocar. Essa geometria potencializa
algumas propriedades elétricas medidas, além de aumentar a área de interação
entre o eletrodo e o material analisado. O problema é que o processo de
fabricação desses eletrodos é sofisticado e custoso. A alternativa encontrada
foi substituir esses componentes por algo muito mais prosaico: fibras de
náilon.
“A gente simplesmente pega uma
fibra de náilon, que é um material barato, e a mergulha em uma dispersão
contendo folhas de MXenes. Interações químicas entre o nanomaterial e o náilon
fazem com que as folhas sejam aderidas e se fixem na superfície da fibra. Ela é
então retirada com cuidado da dispersão e, depois de seca, passa a apresentar
uma fina camada de MXene na sua superfície”, descreve o pesquisador.
Nos testes da “língua
eletrônica” em amostras de leite, foram utilizadas três composições diferentes
de MXenes, variando-se a proporção entre carbono e nitrogênio. Isso
possibilitou que cada fibra reagisse ao ambiente químico circundante de maneira
diferente. “Cada fibra revestida passa, assim, a desempenhar simultaneamente o
papel de suporte e de elemento sensor. O fio, que apresenta elevada
condutividade elétrica, é conectado diretamente a um impedancímetro, aparelho
que aplica um pequeno sinal elétrico e mede como o sistema responde a ele. A
‘língua eletrônica’ registra assim diferentes parâmetros, entre eles
resistência elétrica, capacitância e as componentes real e imaginária da
impedância. O resultado é uma série de dados elétricos, que precisam ser depois
analisados, para que possamos entender o que a ‘língua’ provou”, detalha
Facure.
Quando as fibras são colocadas
em contato com o leite, moléculas presentes na amostra interagem com a
superfície dos MXenes. Essas interações alteram, em maior ou menor grau, as
propriedades elétricas medidas em cada fibra.
O ponto decisivo é que nenhum
dos sensores precisa reconhecer sozinho e inequivocamente determinado
antibiótico. Cada um fornece uma parte da informação. É o conjunto das
respostas que permite caracterizar a amostra.
A quantidade de informação
produzida dessa maneira é grande demais para ser interpretada diretamente a
partir dos valores individuais. Os pesquisadores recorreram, por isso, a
métodos estatísticos multivariados, capazes de encontrar padrões em conjuntos
complexos de dados. Entre os métodos, foi utilizado o PCA, ou análise de componentes
principais, técnica que reduz o grande número de variáveis originais a algumas
combinações que concentram as diferenças mais importantes entre as amostras.
Depois dessa filtragem, os dados são tratados em softwares especializados e
convertidos em mapas visuais.
Foi essa combinação de três
tipos de MXenes, medidas elétricas e tratamento estatístico que permitiu à
língua eletrônica reconhecer os antibióticos e diferenciar os dois tipos de
leite.
“A presença simultânea de mais
de um antibiótico é especialmente relevante para demonstrar o princípio de
funcionamento do sistema. Em vez de procurar uma única molécula em uma solução
simples, a língua eletrônica precisa extrair informações de uma matriz complexa
como o leite, na qual proteínas, gorduras, açúcares, sais e inúmeras outras
substâncias também podem interagir com os sensores”, comenta Corrêa.
O resultado não significa,
porém, que exista um aparelho pronto para chegar às fazendas, laticínios ou
órgãos de fiscalização. Facure enfatiza que se trata ainda de uma “pesquisa de
bancada”, isto é, um experimento realizado em escala laboratorial e sob
condições controladas, antes de sua aplicação em escala maior ou em condições
reais. Mas o potencial tecnológico é bastante evidente.
A fabricação de sensores é
apenas uma das aplicações possíveis desses materiais bidimensionais. “Nosso
grupo também vem trabalhando com compósitos baseados em MXenes para
dispositivos de armazenamento de energia, especialmente em supercapacitores,
que são capazes de acumular e liberar carga elétrica rapidamente. E há ainda
estudos em andamento envolvendo a aplicação de MXenes em nanogeradores,
sistemas de remediação de poluentes, entre outras aplicações”, ressalta Corrêa.
O trabalho publicado na
revista ACS Omega também recebeu financiamento da FAPESP por
meio de um Projeto Temático, coordenado pelo professor do Instituto de Física de São Carlos
(IFSC-USP) Osvaldo Novais de Oliveira Junior.
O artigo MXene-modified
fiber-based electronic tongue for sensitive detection of antibiotic residues in
milk pode ser acessado em: pubs.acs.org/acsodf/article/11/4/5779/5077877/.


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