Estudo apoiado pela FAPESP
acompanhou 109 pacientes por um ano. Os resultados oferecem uma alternativa
viável para reduzir o uso de antimicrobianos e frear a resistência bacteriana
A doença é uma inflamação crônica causada pelo acúmulo
de bactérias abaixo da gengiva, afetando os tecidos de suporte dos dentes
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A combinação de ômega-3 e ácido
acetilsalicílico (AAS) em baixa dose apresentou resultados semelhantes aos do
uso de antibióticos no tratamento da periodontite grave, segundo estudo publicado em maio
no Journal of Periodontology. Os resultados sugerem uma alternativa
terapêutica promissora para parte dos pacientes e ganham relevância em um
contexto global de preocupação crescente com a resistência bacteriana aos
antimicrobianos.
A pesquisa, apoiada pela FAPESP
(projetos 20/05874-2 e 20/05875-9), acompanhou
durante um ano 109 pacientes com periodontite em estágio avançado. A doença é
uma inflamação crônica causada pelo acúmulo de bactérias abaixo da gengiva, que
afeta os tecidos de suporte dos dentes. Quando não controlada, pode causar
mobilidade, perda óssea e até a queda dos dentes.
“Os pacientes com doença grave
apresentam bolsas muito profundas, que funcionam como reservatórios para
bactérias associadas à doença. É um quadro bastante desafiador de tratar”,
afirma a cirurgiã-dentista Nídia Cristina Castro dos Santos,
professora e pesquisadora do Einstein Hospital Israelita e primeira autora do
estudo. Também assinam o artigo cientistas da Universidade Guarulhos (UNG), da
Universidade de Taubaté (Unitau), da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto
da Universidade de São Paulo (FORP-USP) e da Universidade Harvard (Estados
Unidos).
Os participantes foram
distribuídos aleatoriamente em quatro grupos. Todos passaram pela instrumentação
subgengival (procedimento popularmente chamado de raspagem, considerado o
tratamento padrão da periodontite), mas receberam terapias complementares
diferentes.
O grupo-controle utilizou
placebo tanto para os antibióticos quanto para a combinação de ômega-3 e AAS
(medicamento também conhecido como aspirina), com cápsulas idênticas às dos
tratamentos ativos. Um segundo grupo recebeu a combinação dos antibióticos
metronidazol e amoxicilina, considerada a terapia com melhores evidências
científicas para casos graves da doença, administrada três vezes ao dia,
durante 14 dias. O terceiro grupo tomou 3 gramas por dia de ômega-3, além de
uma dose diária de AAS por seis meses. Já o quarto grupo recebeu a combinação
das duas estratégias simultâneas: os antibióticos por duas semanas e o
protocolo com ômega-3 e AAS por seis meses. Os participantes foram reavaliados
após três meses, seis meses e um ano.
Ao final do acompanhamento,
cerca de 58% dos pacientes tratados com antibióticos atingiram a meta clínica
estabelecida pelos pesquisadores, definida pela presença de no máximo quatro
bolsas periodontais profundas remanescentes. Entre aqueles que receberam
ômega-3 e AAS, o percentual foi praticamente o mesmo: 57,7%. Já no grupo que
recebeu apenas a raspagem e placebo, o índice ficou em 23,1%. A associação das
duas estratégias – antibióticos e suplementação – não trouxe benefícios
adicionais.
“O uso de antibióticos não é
considerado o padrão-ouro do tratamento. Embora a associação entre metronidazol
e amoxicilina apresente bons resultados nos casos mais severos, seu uso deve
ser avaliado caso a caso por causa dos riscos relacionados à resistência
bacteriana e aos possíveis efeitos adversos”, diz Castro.
Os resultados reforçam uma
linha de investigação que vem sendo pesquisada há algum tempo. Em estudo
anterior, também apoiado pela FAPESP e publicado na revista Scientific
Reports, pesquisadores observaram em ratos com doença periodontal que a
suplementação com ômega-3, especialmente quando associada ao exercício físico,
reduziu a inflamação e a perda óssea provocadas pela infecção. Embora realizado
em modelo animal, o trabalho já indicava o potencial do nutriente nos processos
inflamatórios relacionados à saúde bucal (leia mais em: agencia.fapesp.br/55792).
De acordo com Castro,
diferentemente dos anti-inflamatórios tradicionais, que atuam bloqueando
determinadas vias inflamatórias, o ômega-3 participa da produção de moléculas
envolvidas na resolução natural da inflamação e no reparo dos tecidos. Já o AAS
em baixa dose foi utilizado porque potencializa a formação desses mediadores. A
hipótese dos pesquisadores era que essa estratégia ajudaria o organismo a
controlar melhor o processo inflamatório crônico característico da
periodontite.
“Nós imaginávamos que a combinação
de antibióticos e ômega-3 teria o melhor desempenho no controle da periodontite
desses pacientes. Também acreditávamos que o resultado do grupo que usou o
ômega-3 com o AAS ficaria um pouco abaixo do grupo dos antibióticos. O
resultado foi surpreendente porque as duas terapias tiveram um desempenho muito
parecido, abrindo um novo caminho para o tratamento desses pacientes”, diz
Castro.
Outro dado que chamou a atenção
dos pesquisadores foi a manutenção dos benefícios observados. Mesmo seis meses
após o fim da suplementação, os pacientes continuavam apresentando resultados
semelhantes aos registrados ao término do tratamento. Segundo Castro, isso
sugere que a modulação da resposta inflamatória pode produzir efeitos
duradouros, embora os mecanismos envolvidos ainda estejam sendo investigados.
Para a cirurgiã-dentista Magda Feres, autora
principal do estudo, professora titular da Escola de Medicina Dentária de Harvard
e do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UNG, os resultados indicam que
a modulação da resposta inflamatória pode representar uma alternativa viável
para pacientes selecionados. “A combinação de ômega-3 e aspirina em baixa dose
alcançou benefícios clínicos comparáveis aos do protocolo com metronidazol e
amoxicilina, o que abre uma alternativa real para quem não pode usar
antibióticos, especialmente pacientes com alergia ou intolerância a esses
medicamentos”, afirma.
Segundo Feres, os resultados
ganham importância diante da crescente preocupação com a resistência aos
antibióticos, considerada uma das principais ameaças à saúde pública mundial.
“Mostrar que é possível tratar a periodontite grave modulando a resposta do
próprio organismo é uma informação nova e relevante, que contribui para
preservar os antibióticos para quando forem realmente indispensáveis”, diz.
As autoras ressaltam, porém,
que os resultados não significam uma mudança imediata na prática clínica. O
estudo foi realizado com pacientes sem doenças sistêmicas importantes e ainda
serão necessários novos trabalhos para confirmar os achados em diferentes
populações e identificar quais grupos realmente podem se beneficiar de cada
abordagem.
Parte dessa resposta, conta
Feres, pode vir das análises microbiológicas atualmente em andamento, que
investigam como as terapias influenciam a composição das bactérias presentes
nas bolsas periodontais. Dados preliminares já sugerem uma redução de espécies
associadas à doença e um aumento de microrganismos relacionados à saúde
gengival. “É um avanço importante, mas não um ponto final. A mensagem,
portanto, é de otimismo cauteloso: temos uma alternativa promissora e
cientificamente plausível ao antibiótico em casos selecionados. A substituição
de rotina virá com mais evidências”, conclui.
O artigo Immunomodulators,
associated or not with systemic antibiotics, to treat periodontitis: A 1-year
multicenter, placebo-controlled, double-blind, randomized clinical trial pode
ser lido em: aap.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jper.70081.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/combinacao-de-omega-3-e-acido-acetilsalicilico-tem-eficacia-semelhante-a-de-antibioticos-contra-periodontite-grave/59118
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