Tomar decisões estratégicas não se limita a
escolher o melhor caminho a ser seguido. Para um C-Level, isso também significa
administrar riscos e divergências a partir de uma postura ponderada — ainda
mais, em épocas mais propícias a tais ocorrências, como o período eleitoral. Em
um cenário em que opiniões podem, rapidamente, se transformar em
posicionamentos políticos polarizados, a preservação institucional é um cuidado
fundamental de ser garantida por esses executivos, de forma que a organização
não se torne protagonista de uma disputa que não faz parte de sua
finalidade.
Embora o debate seja parte natural de uma sociedade
democrática, pelo menos, em tese, a polarização pode tornar esse exercício mais
difícil, especialmente quando posições políticas passam a ser associadas à
própria identidade dos indivíduos e, sobretudo, questões pouco abertas de serem
conversadas entre pessoas com visões e opiniões distintas.
Dados do Ipsos-Ipec, de 2025, comprovam essa delicadeza:
apesar de 74% dos brasileiros declararem algum posicionamento político, quando
questionados sobre o que sentem a respeito dessa polarização no país, 19% apontaram
tristeza, 17% cansaço e 16% medo, como os que melhor representam essa
identificação.
Idealmente, deveria existir um espaço aberto e
esclarecido favorável ao debate e diferentes opiniões, mantendo o respeito,
gentileza e sobriedade – em que todos pudessem compartilhar suas visões e
argumentos, sem receio quanto à contradição negativa. Contudo, o que vemos na
realidade, é um mercado em que o encontro entre grupos com visões distintas
pode assumir a dinâmica de duas torcidas apaixonadas, como se fosse um clássico
de Fla-Flu, em que a intensidade das convicções acaba reduzindo o espaço para a
escuta e para a construção de uma conversa pautada pela razão, pelos argumentos
e pelo respeito às divergências.
É justamente nesse contexto que muitas empresas, diante
de um grande potencial de conflitos e polêmicas, acabam optando pela
neutralidade como o caminho mais seguro para evitar esses riscos – aguardando
um cenário político mais definido para tomar determinadas decisões
estratégicas, postergando planejamentos e movimentos mais estruturais até que
haja maior clareza sobre os possíveis rumos do país e, principalmente, sobre
quem estará à frente do governo nos próximos anos. O problema é que, em um
ambiente de incerteza, esperar por uma definição também é uma escolha — e pode
significar deixar para depois decisões que exigem, justamente, antecipação e
preparo.
Antecipar possíveis cenários e compreender como cada um
deles pode impactar o negócio ao longo dos próximos anos é uma medida
estratégica nesse sentido, ainda mais considerando que os efeitos de uma
eleição não se materializam um dia após a apuração dos votos, mas são
construídos ao longo dos quatro anos seguintes, a partir das decisões
econômicas e estruturais que serão tomadas pelo governo.
Embora uma eventual mudança de governo possa alterar
direcionamentos e prioridades, questões dessa natureza envolvem reformas
estruturais, decisões políticas complexas e um processo burocrático que demanda
tempo para produzir efeitos – o que ajudará o C-Level a estar preparado para
diferentes possibilidades e compreender quais decisões podem ser tomadas desde
já em cada uma delas.
Quanto aos possíveis conflitos decorrentes de
divergências políticas, nem todas as empresas possuem um devido espaço ou tempo
de qualidade para promover debates dessa natureza, o que reforça a importância
de estarem atentas ao seu público e à finalidade para a qual existe: gerar
resultados por meio das pessoas que a compõem. Desviar energia e atenção para
disputas que não estão relacionadas ao negócio pode significar, justamente,
deixar de concentrar naquilo que realmente demanda os esforços das
equipes.
Aqui, o papel do C-Level também é fundamental: quando o
líder demonstra uma defesa apaixonada por determinado lado político, aumenta o risco
de que sua posição seja reproduzida internamente e gere conflitos, além de
fazer com que pessoas que não se sintam representadas possam questionar o
próprio pertencimento à organização. Para garantir a preservação institucional,
portanto, cabe à liderança adotar uma postura ponderada, equilibrada e
conciliadora, evitando transformar convicções pessoais em orientações para a
empresa. Dar o exemplo sobre como lidar com as divergências.
O cenário ideal, naturalmente, seria aquele em que as
pessoas pudessem expressar suas opiniões, defender seus pontos de vista e
discordar umas das outras com base em fatos, dados e argumentos críveis, sempre
preservando o respeito e a liberdade de pensamento. Contudo, diante de tantas
outras prioridades e desafios que fazem parte da rotina empresarial, o mais
importante, nessas épocas, é garantir que as divergências não se transformem em
conflitos capazes de comprometer o ambiente, a cultura ou os resultados da
organização.
E, quando isso acontecer, caberá ao líder atuar para
apaziguar os ânimos, preservar a liberdade de expressão e, sobretudo, manter o
respeito entre as diferentes visões. Afinal, não se trata de exigir que as
pessoas deixem de lado suas paixões ou convicções, mas de compreender que,
dentro de uma organização, elas não podem se sobrepor ao respeito pelo outro e
aos objetivos que unem todos em torno de um mesmo propósito.
Thiago Gaudencio - headhunter e sócio da Wide Executive Search, boutique de recrutamento executivo focado em posições de alta e média gestão.
Wide
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