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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Aquecimento além de 1,5°C vai provocar perdas econômicas de mais de 2% do PIB global, alertam especialistas em encontro do iCS

 Relatório especial do PNUMA aponta que ultrapassagem de 1,5°C se tornou inevitável; cientistas destacam urgência de acelerar descarbonização e preparar cidades e populações para um planeta mais quente


O impacto das mudanças climáticas sobre a economia global pode alcançar patamares ainda mais elevados. Em um cenário de aquecimento entre 1.5° a 1.7°C, as perdas econômicas, como infraestrutura, agricultura, saúde e energia, que já acontecem em todo mundo, representam 2% do PIB global. O alerta foi feito pelo economista Sergio Margulis, especialista sênior do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor de Economia da Sustentabilidade da PUC-Rio, durante mesa redonda promovida nesta quarta-feira (2/09) pelo
Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Margulis adverte que, para não aumentar essa conta, é preciso investir na implementação de ações de descarbonização. O economista destaca que o investimento atual em descarbonização, considerado essencial para interromper o aquecimento, já é da ordem de 2% do PIB global (US$ 117,2 trilhões em 2025, segundo o FMI). No entanto, é preciso mais, chegando à ordem de US$ 5 trilhões anuais. Adiar esses investimentos, no entanto, pode sair mais caro, uma vez que aumentaria as perdas que vêm pelos efeitos do clima, além de demandar mais recursos para adaptação às mudanças climáticas. 

No encontro – aberto por Roberto Kishinami, especialista sênior do iCS –, foi discutido o novo Relatório Especial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre o overshoot: a ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris. Também participou da discussão Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), da Organização Meteorológica Mundial (OMM). 

Para a cientista, a dimensão e a duração do overshoot serão determinantes para os impactos sobre a sociedade e o meio ambiente. Quanto mais distante o planeta chegar de 1,5°C e quanto mais tempo permanecer acima desse limite, maior será a necessidade de remoção de dióxido de carbono da atmosfera e mais difícil será reverter o aquecimento. 

“Os jovens de hoje vão viver um mundo em que terão que lidar com um aquecimento acima de 1,5°C, com um pico que não sabemos qual será e, depois, com um processo lento de reversão, se formos capazes de reverter”, afirmou Thelma. 

Segundo Thelma Krug, o planeta já registra cerca de 1,37°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais, com avanço aproximado de 0,26°C por década. O orçamento de carbono restante para limitar o aquecimento a 1,5°C seria de cerca de 130 bilhões de toneladas de CO a partir de 2026. Para efeito de comparação, as emissões fósseis e da indústria chegaram a aproximadamente 40 bilhões de toneladas em 2024. 

“Fazendo uma conta bem rápida, teríamos três ou quatro anos para limitar o aquecimento, se continuarmos no ritmo atual de emissões”, explicou Thelma. 

Para Sergio Margulis, o relatório funciona como uma “chacoalhada” diante de uma trajetória de emissões que não tem apresentado a redução necessária. Apesar de os investimentos em energias renováveis terem avançado, o crescimento econômico global ainda permanece muito dependente de combustíveis fósseis. 

Além dos custos da mitigação e das perdas provocadas diretamente pelos impactos climáticos, os países precisarão ampliar os investimentos em adaptação. Para Margulis, países mais vulneráveis não podem aguardar eventual reversão do aquecimento para agir. No Brasil, eventos extremos recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul, já evidenciam a necessidade de preparação. 

“Adaptação não resolve o problema físico do aquecimento global. Temos que parar com as emissões. Os países não podem ficar esperando a reversão do clima para agir”, destacou.
 

Adaptação exige repensar cidades e infraestrutura 

O cenário também amplia a pressão sobre governos para incorporar projeções climáticas ao planejamento urbano. No Brasil, os impactos serão diferentes entre as regiões: enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas mais intensas e frequentes, a Amazônia e o semiárido podem sofrer com secas prolongadas e ondas de calor. Segundo Thelma, será necessário considerar diferentes níveis futuros de aquecimento nas cidades e antecipar riscos. 

“Normalmente, olhamos pelo retrovisor e falamos: ‘vou me adaptar para o que aconteceu’. A gente reage às coisas que aconteceram e não projeta o que pode acontecer. É preciso repensar a agricultura, a saúde, as cidades e a construção civil”, afirmou a cientista. 

Em cidades costeiras, a elevação do nível do mar representa um desafio de longo prazo. Mesmo com uma futura reversão do overshoot, o nível dos oceanos continuará subindo por décadas ou séculos devido à inércia do sistema climático. No Sul e Sudeste do Brasil, Margulis destacou ainda o risco da combinação dessa elevação com chuvas intensas e marés meteorológicas, ampliando a possibilidade de inundações em áreas vulneráveis. 

Para os especialistas, a constatação de que haverá overshoot não representa o abandono das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. O objetivo de alcançar emissões líquidas zero de CO permanece, e a prioridade é impedir que a ultrapassagem de 1,5°C seja ainda maior e prolongada. 

“O overshoot não coloca o Acordo de Paris em xeque. Ele alerta os países de que agora vamos ter que segurar o aumento acima de 1,5°C para poder reverter”, concluiu Thelma.


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