Relatório especial do PNUMA aponta que ultrapassagem de 1,5°C se tornou inevitável; cientistas destacam urgência de acelerar descarbonização e preparar cidades e populações para um planeta mais quente
O impacto das mudanças climáticas sobre a economia
global pode alcançar patamares ainda mais elevados. Em um cenário de
aquecimento entre 1.5° a 1.7°C, as perdas econômicas, como infraestrutura,
agricultura, saúde e energia, que já acontecem em todo mundo, representam 2% do
PIB global. O alerta foi feito pelo economista Sergio Margulis, especialista
sênior do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor de
Economia da Sustentabilidade da PUC-Rio, durante mesa redonda promovida nesta
quarta-feira (2/09) pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS).
Margulis adverte que, para não aumentar essa conta, é
preciso investir na implementação de ações de descarbonização. O economista
destaca que o investimento atual em descarbonização, considerado essencial para
interromper o aquecimento, já é da ordem de 2% do PIB global (US$ 117,2
trilhões em 2025, segundo o FMI). No entanto, é preciso mais, chegando à ordem
de US$ 5 trilhões anuais. Adiar esses investimentos, no entanto, pode sair mais
caro, uma vez que aumentaria as perdas que vêm pelos efeitos do clima, além de
demandar mais recursos para adaptação às mudanças climáticas.
No encontro – aberto por Roberto Kishinami, especialista sênior do
iCS –, foi discutido o novo Relatório Especial do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre o overshoot: a ultrapassagem temporária do limite
de 1,5°C de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris. Também
participou da discussão Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema
Global de Observação do Clima (GCOS), da Organização Meteorológica Mundial
(OMM).
Para a cientista, a dimensão e a duração do overshoot serão
determinantes para os impactos sobre a sociedade e o meio ambiente. Quanto mais
distante o planeta chegar de 1,5°C e quanto mais tempo permanecer acima desse
limite, maior será a necessidade de remoção de dióxido de carbono da atmosfera
e mais difícil será reverter o aquecimento.
“Os jovens de hoje vão viver um mundo em que terão que lidar com
um aquecimento acima de 1,5°C, com um pico que não sabemos qual será e, depois,
com um processo lento de reversão, se formos capazes de reverter”, afirmou
Thelma.
Segundo Thelma Krug, o planeta já registra cerca de 1,37°C de
aquecimento em relação aos níveis pré-industriais, com avanço aproximado de
0,26°C por década. O orçamento de carbono restante para limitar o aquecimento a
1,5°C seria de cerca de 130 bilhões de toneladas de CO₂
a partir de 2026. Para efeito de comparação, as emissões fósseis e da indústria
chegaram a aproximadamente 40 bilhões de toneladas em 2024.
“Fazendo uma conta bem rápida, teríamos três ou quatro anos para
limitar o aquecimento, se continuarmos no ritmo atual de emissões”, explicou
Thelma.
Para Sergio Margulis, o relatório funciona como uma “chacoalhada”
diante de uma trajetória de emissões que não tem apresentado a redução
necessária. Apesar de os investimentos em energias renováveis terem avançado, o
crescimento econômico global ainda permanece muito dependente de combustíveis
fósseis.
Além dos custos da mitigação e das perdas provocadas diretamente
pelos impactos climáticos, os países precisarão ampliar os investimentos em
adaptação. Para Margulis, países mais vulneráveis não podem aguardar eventual
reversão do aquecimento para agir. No Brasil, eventos extremos recentes, como
as enchentes no Rio Grande do Sul, já evidenciam a necessidade de preparação.
“Adaptação não resolve o problema físico do aquecimento global.
Temos que parar com as emissões. Os países não podem ficar esperando a reversão
do clima para agir”, destacou.
Adaptação exige repensar cidades e infraestrutura
O cenário também amplia a pressão sobre governos para incorporar
projeções climáticas ao planejamento urbano. No Brasil, os impactos serão
diferentes entre as regiões: enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas mais
intensas e frequentes, a Amazônia e o semiárido podem sofrer com secas
prolongadas e ondas de calor. Segundo Thelma, será necessário considerar diferentes
níveis futuros de aquecimento nas cidades e antecipar riscos.
“Normalmente, olhamos pelo retrovisor e falamos: ‘vou me adaptar
para o que aconteceu’. A gente reage às coisas que aconteceram e não projeta o
que pode acontecer. É preciso repensar a agricultura, a saúde, as cidades e a
construção civil”, afirmou a cientista.
Em cidades costeiras, a elevação do nível do mar representa um
desafio de longo prazo. Mesmo com uma futura reversão do overshoot, o nível dos
oceanos continuará subindo por décadas ou séculos devido à inércia do sistema
climático. No Sul e Sudeste do Brasil, Margulis destacou ainda o risco da
combinação dessa elevação com chuvas intensas e marés meteorológicas, ampliando
a possibilidade de inundações em áreas vulneráveis.
Para os especialistas, a constatação de que haverá overshoot não
representa o abandono das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. O objetivo
de alcançar emissões líquidas zero de CO₂ permanece, e a prioridade é
impedir que a ultrapassagem de 1,5°C seja ainda maior e prolongada.
“O overshoot não coloca o Acordo de Paris em xeque. Ele alerta os
países de que agora vamos ter que segurar o aumento acima de 1,5°C para poder
reverter”, concluiu Thelma.
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