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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CagriSema, medicamento em desenvolvimento da Novo para obesidade e diabetes, reduz food noise (ruído alimentar) e demonstra benefícios para a saúde dos órgãos e ossos

 

  • Em um estudo de ressonância magnética funcional (fMRI) com duração de um ano, método não invasivo utilizado para medir a atividade cerebral durante tarefas específicas, a CagriSema alterou a forma como o cérebro reagia a alimentos tentadores e altamente calóricos em áreas associadas ao desejo por comida, prazer e autocontrole em pessoas vivendo com sobrepeso ou obesidade.¹
  • Em adultos com diabetes tipo 2, a CagriSema reduziu a gordura prejudicial ao redor dos órgãos abdominais, incluindo fígado e pâncreas. Resultados preliminares também sugerem preservação da saúde óssea apesar da perda substancial de peso.²˒³
  • Em conjunto, esses resultados sugerem que CagriSema pode atuar sobre fatores conjuntos da obesidade e do diabetes tipo 2 no cérebro e em múltiplos órgãos e tecidos, incluindo os ossos e não apenas sobre o peso corporal e os níveis de glicose no sangue.¹⁻³

 

Bagsværd, Dinamarca – A Novo Nordisk anunciou, hoje, novos dados sobre CagriSema e a forma como a molécula atua no cérebro e no organismo, durante o Congresso Anual de 2026 da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD). 

Em um estudo de ressonância magnética funcional (fMRI) de 52 semanas, técnica de imagem cerebral que permite avaliar como o cérebro responde a determinados estímulos, realizado com adultos com sobrepeso ou obesidade, CagriSema modificou as respostas cerebrais a estímulos relacionados a alimentos altamente calóricos em regiões associadas ao desejo por comida, recompensa, processamento sensorial e controle comportamental. 

Além disso, CagriSema promoveu melhora substancial do comportamento alimentar, reduzindo o food noise (ruído alimentar), os pensamentos intrusivos relacionados à comida, a fome e o apetite, além de melhorar o controle desses desejos após 22 e 52 semanas de tratamento. O estudo, que também recebeu o prêmio de Melhor Resumo Científico da EASD 2026, demonstrou que essas melhorias estiveram associadas a uma redução de 22,4% do peso corporal em comparação ao placebo após 52 semanas (diferença estimada de tratamento na semana 52; p

No geral, os resultados sugerem que CagriSema pode ajudar a abordar fatores biológicos que dificultam a manutenção da perda de peso no longo prazo, incluindo fome, desejos por comida e preocupação constante com a alimentação, e não apenas a ingestão calórica. 

Separadamente, em um subestudo com ressonância magnética realizado dentro do estudo de fase 3a REIMAGINE 1, que avaliou os efeitos metabólicos sistêmicos em adultos com diabetes tipo 2 em estágio inicial, CagriSema 2,4 mg/2,4 mg promoveu reduções significativas da gordura abdominal, bem como da gordura acumulada no fígado e no pâncreas, em comparação ao placebo, acompanhadas de uma redução de 14,3% do peso corporal na semana 40.² 

Além disso, uma análise post hoc dos marcadores ósseos do estudo de fase 3 REIMAGINE 2, realizado com adultos com diabetes tipo 2 inadequadamente controlado, demonstrou sinais de equilíbrio saudável na manutenção óssea juntamente com uma redução de 14,2% do peso corporal com CagriSema 2,4 mg/2,4 mg na semana 68, fornecendo o que os autores do estudo descreveram como uma “evidência preliminar tranquilizadora em relação às alterações ósseas com CagriSema em pessoas com diabetes tipo 2”.³ 

“Para muitas pessoas que vivem com sobrepeso ou obesidade, sabemos que o food noise representa um desafio contínuo para alcançar seus objetivos de saúde. Com base nesses dados de imagem cerebral por fMRI, estamos encorajados pelo potencial da CagriSema de ajudar a reduzir o ruído alimentar de forma mensurável, associado a uma redução de 22,4% do peso corporal após 52 semanas”, afirmou Martin Holst Lange, vice-presidente executivo, diretor científico e líder de Pesquisa e Desenvolvimento da Novo. 

“Ao mesmo tempo, pessoas que vivem com sobrepeso, obesidade e diabetes tipo 2 estão cada vez mais interessadas não apenas na quantidade de peso perdido, mas também na qualidade dessa perda de peso. Os dados apresentados na EASD 2026 reforçam evidências emergentes de que o componente de amilina de CagriSema pode influenciar a biologia da doença no cérebro e em diversos órgãos, indo além da simples redução do peso corporal”. 

Em conjunto, os três estudos sugerem que a CagriSema, ainda em investigação, pode atuar sobre a obesidade e o diabetes tipo 2 por meio de efeitos coordenados no comportamento alimentar, nos níveis de gordura presentes nos órgãos e ao redor deles, e na remodelação óssea, mecanismos que vão muito além da redução de peso isoladamente. 

“O aspecto mais impressionante desses dados comportamentais e de fMRI cerebral é que, após 52 semanas, em todas as medidas relacionadas ao apetite e ao comportamento alimentar, as pessoas com sobrepeso e obesidade apresentaram redução substancial dos desejos por comida e mudanças sustentadas na resposta cerebral à visualização de imagens de alimentos altamente calóricos”, afirmou Tony Goldstone, professor clínico de Psiconeuroendocrinologia e endocrinologista consultor do Imperial College London. “Isso foi acompanhado por redução da ingestão energética e do peso corporal, demonstrando a associação entre o enfrentamento do food noise e uma perda de peso bem-sucedida e sustentada”. 

CagriSema é o tratamento em desenvolvimento de próxima geração da Novo para obesidade e diabetes. Em dezembro de 2025, a Novo submeteu um pedido de registro para obesidade à Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e à Health Canada. Em 2026, foi iniciado um estudo de fase 3 para avaliar eficácia e segurança da formulação de alta dose de CagriSema 2,4 mg/7,2 mg em adultos com obesidade. 

A obesidade e diabetes tipo 2 continuam entre as doenças crônicas de maior impacto e ainda insuficientemente tratadas em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas vivem atualmente com obesidade, enquanto a Federação Internacional de Diabetes estima que aproximadamente 589 milhões de adultos convivam com diabetes, sendo a maioria casos de diabetes tipo 2.⁴˒⁵ 

Além do próprio excesso de peso, a obesidade aumenta o risco de doença cardiovascular, esteatose hepática (gordura no fígado) associada à disfunção metabólica (MASLD), doença renal crônica e diversos tipos de câncer.⁶ Muitas pessoas relatam pensamentos persistentes relacionados à alimentação como uma barreira para a manutenção da perda de peso em longo prazo. Historicamente, as terapias disponíveis têm sido avaliadas principalmente pela redução observada na balança, e não pelos fatores subjacentes que influenciam o comportamento alimentar ou pela localização da gordura no organismo. 

A gordura ectópica, ou seja, a gordura acumulada no fígado, no pâncreas e ao redor dos órgãos abdominais, é um importante fator contribuinte para a resistência à insulina e para a progressão do diabetes tipo 2.⁷ 

Os estudos com CagriSema apresentados na EASD 2026 foram desenvolvidos para preencher essas lacunas, avaliando como a terapia afeta o cérebro, o comportamento e o organismo como um todo, e não apenas o peso corporal.

 

Sobre CagriSema 

CagriSema é administrado por via subcutânea uma vez por semana e está sendo investigado pela Novo como tratamento para adultos com sobrepeso ou obesidade (programa REDEFINE) e para adultos com diabetes tipo 2 (programa REIMAGINE). O medicamento consiste em uma combinação de dose fixa de cagrilintida, um agonista de ação prolongada do receptor de amilina, e semaglutida, um agonista do receptor de GLP-1. Em dezembro de 2025, a Novo submeteu um pedido de registro à FDA, nos EUA, para o uso de CagriSema no controle do peso corporal, reafirmando o compromisso da companhia com a inovação no tratamento da obesidade. Uma decisão regulatória é esperada para o quarto trimestre de 2026.

 

Sobre o programa REDEFINE 

REDEFINE é um programa global de desenvolvimento clínico de fase 3 que avalia a CagriSema administrado por via subcutânea uma vez por semana para obesidade. O programa inclui dois estudos pivotais de fase 3 que recrutaram aproximadamente 4.600 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os estudos de fase 3 incluem:

  • REDEFINE 1: estudo de fase 3, com 68 semanas de duração, avaliando eficácia e segurança de CagriSema 2,4 mg/2,4 mg administrado semanalmente, comparado a cagrilintida 2,4 mg, semaglutida 2,4 mg e placebo, em 3.417 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a uma ou mais comorbidades, sem diabetes tipo 2.
  • REDEFINE 2: estudo de fase 3, com 68 semanas de duração, avaliando CagriSema 2,4 mg/2,4 mg versus placebo em 1.206 adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso.
  • REDEFINE 3: estudo de fase 3 orientado por eventos cardiovasculares, avaliando CagriSema 2,4 mg/2,4 mg versus placebo em 7.000 adultos com doença cardiovascular estabelecida, com ou sem diabetes tipo 2.
  • REDEFINE 8: estudo de fase 3, com 104 semanas de duração, avaliando eficácia e segurança de CagriSema 2,4 mg/2,4 mg versus placebo em 400 adultos com obesidade, incluindo avaliações de composição corporal. O estudo contempla uma extensão de 52 semanas para investigar a manutenção da perda de peso.
  • REDEFINE 9: estudo de fase 3, com 68 semanas de duração, avaliando CagriSema 1,7 mg/1,7 mg e 1,0 mg/1,0 mg versus placebo em 300 adultos com sobrepeso ou obesidade.
  • REDEFINE 11: estudo de fase 3, com 80 semanas de duração, avaliando CagriSema 2,4 mg/2,4 mg versus placebo em 600 adultos com obesidade, incluindo fase de extensão para investigação da manutenção da perda de peso.
  • CagriSema em alta dose 2,4 mg/7,2 mg: estudo de fase 3 de eficácia e segurança iniciado em 2026 em adultos com obesidade.


Sobre o programa REIMAGINE 

REIMAGINE é um programa global de desenvolvimento clínico de fase 3 que avalia a CagriSema administrado uma vez por semana em pessoas com diabetes tipo 2.

  • REIMAGINE 1: estudo de fase 3, com 40 semanas de duração, avaliando CagriSema 2,4 mg/2,4 mg e 1 mg/1 mg versus placebo em 189 adultos com diabetes tipo 2 inadequadamente controlado apenas com dieta e exercício.
  • REIMAGINE 2: estudo de fase 3, com 68 semanas de duração, avaliando CagriSema 2,4 mg/2,4 mg e 1 mg/1 mg versus semaglutida 2,4 mg, semaglutida 1 mg, cagrilintida 2,4 mg e placebo em 2.713 adultos com diabetes tipo 2 inadequadamente controlado com metformina, com ou sem um inibidor de SGLT2.
  • REIMAGINE 3: estudo de fase 3, com 40 semanas de duração, avaliando CagriSema 2,4 mg/2,4 mg e 1 mg/1 mg versus placebo em 274 adultos com diabetes tipo 2, em associação à insulina basal administrada uma vez ao dia, com ou sem metformina.

Além disso, os estudos REIMAGINE 4 e REIMAGINE 5 avaliaram CagriSema 2,4 mg/2,4 mg e 1 mg/1 mg, respectivamente, em comparação à tirzepatida em adultos com diabetes tipo 2 recebendo o tratamento padrão de cuidado.


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Referências:

1.    Uhre VF, Alex M, Bak N, et al. Effects of CagriSema on appetite, eating behaviour and food cue reactivity using functional MRI in adults with overweight or obesity. Late-breaking abstract, EASD Annual Meeting 2026.

2.    Pratley RE, Adhya R, Casu A, et al. Efficacy of CagriSema on body composition in participants with early type 2 diabetes: REIMAGINE 1. Late-breaking abstract, EASD Annual Meeting 2026. NCT06323174.

3.    Haluzík M, Fabricius TW, Gajria R, et al. Effect of CagriSema on bone biomarkers in participants with inadequately controlled type 2 diabetes: REIMAGINE 2. Late-breaking abstract, EASD Annual Meeting 2026. NCT06065540.

4.    World Health Organization. Obesity and overweight fact sheet. 8 December 2025.

5.    International Diabetes Federation. IDF Diabetes Atlas, 11th edition.

6.    Snel M, Jonker JT, Schoones J, et al. Ectopic fat and insulin resistance: pathophysiology and effect of diet and lifestyle interventions. Int J Endocrinol. 2012;2012:983814.

7.Taylor R. Type 2 diabetes as a disease of ectopic fat? BMC Med. 2014;12:123. s40290-022-00456-6


Tive câncer de mama. Posso amamentar?

 

Pediatra explica, de forma simples, o que muda na amamentação depois do tratamento contra o câncer de mama

 

Depois de enfrentar um câncer de mama, pensar na chegada de um filho traz sonhos, esperança e também muitas dúvidas. Uma delas costuma tocar fundo: será que vou conseguir amamentar? Para a pediatra Marli Rio, essa é uma pergunta que merece uma resposta honesta, sem promessas fáceis: depende. Depende do tratamento que cada mulher fez, e cada história precisa ser olhada de perto.

"Para algumas mulheres, amamentar vai ser possível. Para outras, os tratamentos ou os remédios que ainda precisam tomar podem impedir. Mas há uma coisa que precisa ficar clara desde o início: não conseguir amamentar não torna ninguém menos mãe", afirma Marli.

No Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama, a pediatra reforça a importância de também falar sobre a vida depois do tratamento, os planos que mudam e o cuidado que cada mulher merece para seguir seu caminho.


O que muda depende da cirurgia e do tratamento

A possibilidade de amamentar depende, entre outras coisas, do tipo de cirurgia feita, se houve radioterapia (tratamento com raios que ajuda a combater o câncer) e dos remédios usados.

Quando a mama inteira é retirada em uma cirurgia chamada mastectomia, aquele lado não produz mais leite, mesmo que a mulher tenha feito uma reconstrução. Se só uma mama foi retirada, a outra pode produzir leite normalmente, e em muitas mulheres isso é suficiente para alimentar o bebê. Já quando as duas mamas são retiradas, não será possível amamentar no peito.

"Ter tido câncer de mama não quer dizer, sozinho, que toda chance de amamentar acabou. Outros tipos de cirurgia e a radioterapia também podem interferir, por isso é a equipe médica quem vai dizer o que é possível para cada mulher", explica a pediatra.


A conversa deve começar antes do bebê nascer

O ideal é que essa conversa comece ainda antes da gravidez ou durante o pré-natal, reunindo o médico que acompanha o tratamento e o pediatra.

Existem remédios contra o câncer que não podem ser usados junto com a amamentação, e terminar a quimioterapia nem sempre significa que o tratamento acabou de vez. "Nenhum remédio deve ser parado por conta própria na tentativa de amamentar. Isso precisa ser decidido junto com o médico", alerta Marli.

Com essa orientação, a mulher chega ao nascimento do bebê conhecendo melhor suas possibilidades, e precisa ter espaço para dizer o que deseja, perguntar o que teme e ser ouvida sem julgamento.


O que importa é o vínculo, não só o peito

Como pediatra, Marli defende olhar para a mãe e para o bebê juntos. Acompanhar como a criança está se alimentando e crescendo ajuda a perceber quando é preciso ajustar algo. Se o leite materno não estiver disponível, ou não for suficiente, o pediatra pode indicar a alternativa mais adequada para a idade e as necessidades do bebê.

"Para quem sonhou em amamentar, descobrir que não vai ser possível pode doer, e essa tristeza merece respeito. Acolher também é deixar a mulher falar sobre essa frustração, sem pressa para que ela 'aceite logo' e sem colocar culpa nenhuma nisso", pontua.

O vínculo com o filho se constrói no dia a dia: no colo, no olhar, na voz que acalma, na presença e na resposta às suas necessidades. Alimentar o bebê com carinho continua sendo um momento de proximidade, mesmo quando não é no peito.


Além da pergunta sobre amamentar

"Amamentar não precisa virar mais uma prova de força depois do câncer. Cada mulher merece apoio para viver a maternidade dentro das suas possibilidades, com segurança e respeito à própria história", conclui Marli.

Ao lado da pergunta "será que vou conseguir amamentar?", a pediatra defende abrir espaço para outra, igualmente importante: "como você está se sentindo com tudo isso?". Porque as mães também precisam de colo.

 

Marli Rio - pediatra há 30 anos. Seu trabalho é dedicado a cuidar do bebê sem deixar de enxergar a mulher que acabou de se tornar mãe, dando visibilidade às dificuldades maternas que tantas vezes permanecem invisíveis. Instagram:@dramarlirio


Estigma social atrasa tratamento e piora o prognóstico de quem vive com obesidade

 Falta de apoio familiar e julgamento afastam pessoas dos consultórios e geram prejuízos que podem ser irreversíveis, alerta cirurgião bariátrico


Os pacientes que buscam o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília, raramente chegam cedo. Em geral, eles passam anos ouvindo que não têm força de vontade, que são preguiçosos ou que basta fechar a boca. E, muitas vezes, quem mais repete esse julgamento são familiares e pessoas próximas. “Eu costumo dizer que quem chega ao consultório depois de ouvir tanto absurdo já é um vencedor, só por ter tido a coragem de entrar pela porta”, afirma o médico. 

Esse atraso na procura pelo tratamento tem consequências clínicas concretas e, em alguns casos, irreversíveis. Cada ano que o paciente adia o tratamento é um ano a mais de doença ativa no organismo, assim como as comorbidades associadas a ela. “Um diabético operado nos primeiros anos de doença tem chance real de remissão. O mesmo paciente operado dez anos depois, já usando insulina, na maioria das vezes vai conseguir controle e redução de medicação, mas não a remissão completa, porque a reserva pancreática já se perdeu”, explica De Fazzio. O mesmo vale para as articulações: o emagrecimento alivia a dor, mas a lesão instalada não se desfaz. 

Por trás do estigma está um equívoco fundamental sobre a natureza da obesidade. A doença tem base metabólica e hormonal. Trata-se de um problema crônico e multifatorial que pode ser agravado quando o julgamento vem, inclusive, de dentro do próprio sistema de saúde. De Fazzio relata que vários pacientes chegam ao consultório depois de terem sido desestimulados por profissionais de saúde que não dominam a fisiopatologia da obesidade e, por isso, subestimam a complexidade dessa condição de saúde.
 

Acolhimento como parte do protocolo clínico 

O ambiente doméstico pode ser tanto o maior aliado quanto o principal obstáculo no tratamento. De Fazzio relata casos de pacientes na primeira semana de pós-operatório — com dieta restrita e organismo em adaptação — que voltaram para casa e encontraram churrascos, festas e pedidos de pizza, sem nenhuma consideração pelo momento que atravessavam. Há ainda pacientes que chegam ao consultório escondidos, sem contar a ninguém sobre a consulta ou o tratamento. 

“Quando percebo que o paciente está atravessando essa jornada sozinho, peço para trazer alguém à consulta, que pode ser um familiar ou amigo próximo. Sento com essa pessoa e explico como ela pode ser o diferencial positivo no tratamento. Funciona, porque na maioria das vezes o familiar não está sabotando por maldade, mas por desinformação”, conta o médico. 

Além disso, a forma como o profissional de saúde recebe o paciente também contribui para o sucesso do tratamento. O paciente com obesidade chega ao consultório já machucado por anos de julgamento, e se ele encontra mais um profissional apressado que apenas entrega uma receita sem escutá-lo, dificilmente dará continuidade ao protocolo, diz De Fazzio. Por isso, a escuta ativa, a explicação detalhada sobre a doença e a construção de um vínculo de confiança são, na visão do cirurgião, tão determinantes para o resultado de longo prazo quanto a técnica cirúrgica ou a medicação escolhida. 

“Acolher é escutar de verdade. É perguntar sobre a história daquela pessoa, entender o que ela já tentou, o que deu errado, o que ela sente. Obesidade é uma doença crônica, então o acompanhamento dura anos. Ninguém mantém um vínculo desses com quem o faz se sentir julgado”, conclui o especialista.
 

César De Fazzio - O cirurgião bariátrico César De Fazzio dedica-se à área do aparelho digestivo há mais de 15 anos. Fundador do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília-DF, é referência no tratamento cirúrgico e clínico da obesidade. Com um olhar sistêmico do paciente, o especialista coordena todas as etapas do emagrecimento, integrando medicina, nutrição e psicologia em um acompanhamento multidisciplinar. Sua prática é pautada em evidências científicas, pela ética e pelo uso de tecnologia de ponta com materiais de alta qualidade em intervenções minimamente invasivas, visando resultados de longo prazo. Prioriza a segurança e um atendimento transparente e individualizado.


Antes de escolher um profissional da saúde, o que faz você confiar nele

A experiência vivida pelo paciente também contribui para a
 construção da credibilidade do profissional de saúde
 
Magnific
Experiência, indicação e presença digital ajudam a formar uma percepção, mas é a relação construída ao longo do atendimento que pode transformar confiança em credibilidade

 

A escolha de um profissional da saúde começa muito antes da consulta. Uma indicação de alguém de confiança, uma busca nas redes sociais, uma avaliação na internet ou até a forma como o profissional se apresenta podem influenciar a decisão do paciente. Mas existe uma etapa que nenhum perfil ou recomendação consegue substituir: a experiência de ser atendido. É nesse encontro entre expectativa e entrega que a credibilidade começa, de fato, a ser construída. 

Para quem trabalha na área da saúde, essa relação pode ir além do atendimento. A confiança construída com o paciente pode se refletir em indicações, relacionamento e novas oportunidades profissionais. Nesse contexto, a credibilidade também ganha espaço na forma como o profissional conduz sua carreira e seu negócio. 

“Credibilidade não é simplesmente sobre como os outros nos veem, mas também sobre como nos apresentamos, agimos e honramos nossos compromissos”, afirma o cirurgião plástico e empreendedor Dr. Vinicius Julio Camargo. 

A construção dessa percepção envolve fatores que não dependem apenas da exposição. Coerência entre discurso e prática, cumprimento de compromissos, honestidade, clareza e qualidade na entrega fazem parte da relação que se estabelece entre profissional e paciente.

 

O que acontece no atendimento também comunica

Na saúde, a reputação é construída em situações que nem sempre chegam às redes sociais. 

Uma explicação dada durante uma consulta, a maneira de apresentar as possibilidades de um tratamento, a transparência sobre limitações e riscos e o acompanhamento depois de um procedimento são exemplos de situações que participam da experiência do paciente. 

O próprio especialista relata que procura explicar procedimentos e opções de tratamento de forma clara e transparente, para que seus pacientes tenham informações sobre possibilidades e limitações antes de tomar uma decisão. 

A mesma lógica aparece na forma de conduzir o atendimento. Segundo ele, a estrutura criada para oferecer suporte antes e depois dos procedimentos passou a ser percebida pelos pacientes e contribuiu para a experiência oferecida. 

Não se trata apenas de oferecer mais serviços. O ponto está na consistência da experiência. 

“Obter credibilidade profissional significa ser visto como alguém confiável, coerente e competente. É ser reconhecido como alguém que não apenas fala, mas faz, não apenas promete, mas entrega”, diz o cirurgião plástico.

 

Credibilidade é construída no cotidiano

Não existe uma ação isolada capaz de produzir uma reputação sólida. Ela resulta de comportamentos repetidos ao longo do tempo. 

Honrar compromissos, comunicar-se com clareza, agir com honestidade e manter uma postura coerente são aspectos destacados pelo especialista como parte dessa construção. No caso dos profissionais da saúde, a honestidade também está relacionada à maneira de lidar com informações, tratamentos, riscos e eventuais erros. 

Essa construção exige tempo. A perda de confiança, por outro lado, pode acontecer diante de uma experiência que contradiga aquilo que o profissional vinha demonstrando. 

“A credibilidade é um ativo inestimável. Ela é construída ao longo do tempo, mas pode ser destruída rapidamente”, conclui Dr. Vinicius. 

Esse valor está justamente no tempo necessário para construir uma relação de confiança. Para o profissional da saúde, cada contato com o paciente contribui para formar uma percepção que pode acompanhar sua trajetória. 

A exposição pode fazer um profissional ser mais conhecido, mas, quando a conduta não corresponde ao que foi apresentado, os compromissos assumidos não são cumpridos ou a entrega fica aquém do prometido, a credibilidade pode ser comprometida. 



Dr. Vinicius Julio Camargo - médico cirurgião plástico, empreendedor e escritor. Atua como Diretor Técnico do Alda Instituto de Saúde. É sócio-fundador da Oxyneo® (primeira clínica de medicina hiperbárica do sudoeste do Paraná) e idealizador da plataforma Átrio, voltada à gestão de rotinas de atendimento e administrativas para clínicas multidisciplinares. É autor de dois livros e defensor da integração entre ética, gestão e excelência médica.


Dia Nacional da Pessoa Idosa: revisão de medicamentos é importante para a saúde mental no envelhecimento

 Para o Dia Nacional da Pessoa Idosa, o psiquiatra Dr. Guido Boabaid May alerta para os riscos da polifarmácia e explica como a farmacogenética pode contribuir para tratamentos mais personalizados

 

Lembrado em 1º de outubro, o Dia Nacional da Pessoa Idosa chama a atenção para os cuidados necessários para promover saúde mental e qualidade de vida durante o envelhecimento. Aposentadoria, perdas, doenças crônicas, dor e isolamento social podem aumentar a vulnerabilidade a quadros como depressão e ansiedade. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 15% das pessoas com 70 anos ou mais vivam com algum transtorno mental, sendo depressão e ansiedade os mais frequentes. 

Nesse cenário, outro ponto merece atenção: o uso simultâneo de diversos medicamentos, realidade frequente entre idosos e que pode afetar a cognição e o bem-estar. “A principal razão é a multimorbidade: com o avanço da idade, torna-se mais comum uma mesma pessoa apresentar simultaneamente hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, dor crônica, alterações do sono, doenças osteoarticulares e transtornos psiquiátricos, por exemplo. Cada condição pode resultar na prescrição de um ou mais medicamentos, muitas vezes por diferentes especialistas”, explica o psiquiatra Dr. Guido Boabaid May, CEO e fundador da GnTech. 

Segundo o especialista, o problema não está necessariamente na quantidade de medicamentos, mas na chamada polifarmácia inadequada, quando há interações, doses inadequadas ou medicamentos que já não são necessários. “Quanto maior a complexidade do esquema terapêutico, maior pode ser o risco de interações, efeitos adversos, dificuldade de adesão, quedas, confusão mental e hospitalizações”, aponta. 

Outro risco é a chamada cascata de prescrição, quando um efeito colateral é interpretado como um novo problema de saúde e leva à inclusão de outro medicamento. “Ela acontece quando o efeito adverso de um medicamento é interpretado como uma nova doença e, em vez de revisar o primeiro medicamento, acrescenta-se outro para tratar aquele sintoma”, explica o psiquiatra. 

Em um estudo publicado em 2025 com 13.670 adultos de 65 anos ou mais, 98,8% apresentavam pelo menos uma variante farmacogenética considerada acionável por alguma diretriz, e aproximadamente 27,5% chegaram a utilizar pelo menos um medicamento para o qual aquela informação genética poderia indicar uma mudança em relação à prescrição convencional. Nesse contexto, a farmacogenética pode contribuir para uma abordagem mais personalizada. 

Para Guido, a ferramenta pode ser especialmente relevante para pacientes idosos, que apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos adversos e frequentemente utilizam vários medicamentos. “Quando existe uma interação gene-medicamento respaldada por evidências e diretrizes farmacogenéticas, essa informação pode ajudar o médico a selecionar um medicamento ou ajustar sua dose de maneira mais individualizada”, afirma. 

O especialista ainda reforça que o objetivo não é simplesmente retirar medicamentos, mas otimizar o tratamento. “O conceito correto é otimizar a farmacoterapia: manter aquilo que oferece benefício, ajustar o que precisa ser ajustado e retirar, de forma segura e supervisionada, aquilo que já não faz sentido”, avalia. Além da medicação, Guido também alerta para a importância de não naturalizar alterações emocionais ou cognitivas como consequência do envelhecimento. “Talvez a mensagem mais importante seja que não devemos naturalizar sofrimento psíquico nem alterações cognitivas simplesmente porque a pessoa envelheceu”, conclui. 



Guido Boabaid May - Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 115 mil consultas realizadas, mais de 1.200 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 30 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro "Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025.


Cerca de 43% dos casos de câncer de próstata são diagnosticados com doença avançada, aponta levantament

  



Análise do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica, com dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) e do DataSUS, mostra ainda que 86,5% dos registros da doença se concentram em pacientes a partir dos 60 anos. Levantamento também aponta aumento no número de exames de PSA e biópsias no SUS e avanço recente da ressonância magnética multiparamétrica na investigação do câncer de próstata


Cerca de 43% dos casos de câncer de próstata com estadiamento conhecido registrados entre 2020 e 2023 foram diagnosticados já com doença avançada. Dos 69.676 pacientes com informação sobre o estágio do tumor, 29.667 estavam nos estádios III ou IV, o equivalente a 42,6%. No estádio III, o tumor avançou para além dos limites da próstata ou atingiu estruturas próximas, enquanto o estádio IV caracteriza a disseminação da doença para linfonodos distantes ou outros órgãos, como os ossos. O levantamento foi realizado pelo Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR), a partir de dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) e do DataSUS, ambos vinculados ao Ministério da Saúde.

Os dados do RHC mostram que 13.636 pacientes (19,6%) daqueles com estadiamento conhecido, estavam no estádio III. Outros 16.031, equivalentes a 23%, encontravam-se no estádio IV. O maior contingente, de 30.454 pacientes (43,7%), estava no estádio II, enquanto 9.529 (13,7%) foram classificados no estádio I. Apenas 26 registros aparecem no estádio 0.

Somados, os estádios II, III e IV concentraram 60.121 pacientes  (86,3%) daqueles com estadiamento conhecido. O levantamento do RHC contabiliza, no entanto, 115.071 registros de câncer de próstata entre 2020 e 2023, número superior aos 69.676 incluídos na tabela que considera os estádios de 0 a IV. Por isso, os percentuais referentes ao estágio da doença são calculados apenas sobre os casos para os quais essa classificação está disponível na consulta.

“Identificar o câncer de próstata antes que ele avance amplia as possibilidades de tratamento e pode ter impacto importante no prognóstico. Quando encontramos uma proporção relevante de pacientes já nos estádios III e IV, o dado chama atenção para a necessidade de melhorar a jornada que vai da avaliação do risco e do diagnóstico até o acesso ao especialista e ao tratamento. Não se trata apenas de fazer um exame, mas de garantir que uma alteração seja adequadamente investigada e que o paciente percorra as etapas seguintes sem atrasos”, afirma Gustavo Cardoso Guimarães, urologista e cirurgião oncológico, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos e da Medicina Genômica da BP.

Casos se concentram após os 60 anos - A distribuição por idade reforça a relação do câncer de próstata com o envelhecimento. Dos 115.071 registros do RHC entre 2020 e 2023, 99.507 ocorreram em pacientes com 60 anos ou mais, o equivalente a 86,5% do total. A partir dos 65 anos, foram 81.490 casos (70,8%). Cerca de metade dos registros, 56.434, estava concentrada em pessoas com 70 anos ou mais, correspondendo a 49% do total.

As duas faixas com maior número de registros foram justamente as de 65 a 69 anos, com 25.056 casos e de 70 a 74, com 24.977. Juntas, elas responderam por 50.033 diagnósticos (43,5%) de todos os casos registrados no período. Entre 60 e 64 anos foram 18.017 casos; entre 75 e 79, 18.117; entre 80 e 84, 9.142; e, a partir dos 85 anos, outros 4.198. A frequência cai acentuadamente nas idades mais jovens. Entre 50 e 59 anos, o RHC contabilizou 13.935 casos, correspondentes a 12,1% do total. Dos 40 aos 49 anos foram 1.449 registros (1,3%). Até os 39 anos, houve apenas 177 casos, aproximadamente 0,15% do total. Considerando todos os pacientes com menos de 50 anos, foram 1.626 registros, o equivalente a 1,4%. Apenas três casos não apresentavam informação sobre idade.

A distribuição não significa que homens mais jovens estejam livres da doença, mas evidencia como sua ocorrência aumenta nas faixas etárias mais elevadas. Entre 55 e 59 anos, por exemplo, foram registrados 10.016 casos. Na faixa imediatamente seguinte, dos 60 aos 64, o número sobe para 18.017 e chega a mais de 25 mil entre 65 e 69 anos.

Tratamentos recebidos - Os dados do RHC também permitem observar quais modalidades de tratamento aparecem na assistência aos pacientes. Como cirurgia, radioterapia, hormonioterapia e quimioterapia podem ser utilizadas isoladamente ou em diferentes combinações, um mesmo registro pode aparecer associado a mais de uma modalidade. Por esse motivo, os percentuais de cada tratamento não devem ser somados entre si. A radioterapia aparece em algum momento do tratamento de 42.393 pacientes, o equivalente a 36,8% dos 115.071 registros. A hormonioterapia apresenta proporção semelhante: está presente em 42.053 casos (36,5%). Já a cirurgia aparece em 32.577 registros, correspondentes a 28,3%, enquanto a quimioterapia integra o tratamento de 12.521 pacientes (10,9%).

O banco registra ainda 17.378 pacientes (15,1% do total), na categoria “Nenhum”, referente ao tratamento informado no RHC. Outros 1.118 aparecem como “Sem Informação”. Esses registros precisam ser interpretados dentro das características do banco hospitalar e, isoladamente, não permitem afirmar que o paciente nunca tenha recebido tratamento em outro serviço ou momento da assistência.

A escolha terapêutica depende de características como extensão e agressividade do tumor, idade, condições clínicas e preferências do paciente. Tumores localizados podem ter indicação de cirurgia ou radioterapia, enquanto a terapia hormonal assume papel importante em diferentes situações da doença, sobretudo quando há maior extensão tumoral. Em determinados contextos de baixo risco, também pode ser adotada a vigilância ativa, com acompanhamento periódico e sem tratamento imediato.

Diagnóstico em números - A análise do IUCR também reuniu dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS disponíveis no DataSUS. Entre 2020 e dezembro de 2025, foram registrados 40,58 milhões de procedimentos selecionados relacionados à investigação da próstata no sistema público. O número se refere à quantidade de procedimentos aprovados, e não ao número de pessoas examinadas, já que um mesmo paciente pode realizar mais de um exame ao longo do período.

O PSA responde pela maior parte desse volume. Foram 35.857.129 dosagens do antígeno prostático específico, correspondentes a 88,4% dos procedimentos selecionados na consulta. O PSA é uma proteína produzida pela próstata cuja concentração é medida por meio de exame de sangue. Alterações podem estar relacionadas ao câncer, mas também a condições não malignas, como aumento benigno da próstata e processos inflamatórios.

O número anual de dosagens cresceu no período analisado. Foram 3,31 milhões em 2020, 5,24 milhões em 2021, 6,22 milhões em 2022, 6,93 milhões em 2023, 6,97 milhões em 2024 e 7,19 milhões em 2025. Entre 2020 e 2025, o volume registrado mais que dobrou, com crescimento de aproximadamente 117%. A comparação, porém, deve considerar o impacto da pandemia de Covid-19 sobre a assistência naquele ano.

“O PSA continua sendo uma ferramenta muito importante, mas hoje não deve ser entendido como um exame que, quando alterado, leva automaticamente a uma biópsia. O resultado precisa ser analisado junto com idade, histórico familiar, avaliação clínica e outros fatores de risco. Quando necessário, a ressonância magnética multiparamétrica pode acrescentar informações que ajudam a selecionar melhor quem realmente precisa avançar para uma investigação invasiva. O objetivo é aumentar a capacidade de encontrar tumores clinicamente relevantes e, ao mesmo tempo, reduzir procedimentos desnecessários”, explica Guimarães.

Além do PSA, o SUS registrou 4.073.508 ultrassonografias de próstata por via abdominal entre 2020 e 2025 e 363.544 ultrassonografias por via transretal. As biópsias de próstata somaram 272.063 procedimentos. Nesse caso, o crescimento anual foi contínuo: de 24.877 em 2020 para 35.051 em 2021, 42.033 em 2022, 49.386 em 2023, 55.926 em 2024 e 64.790 em 2025. Entre o primeiro e o último ano, o aumento foi de aproximadamente 160%. Somente de 2024 para 2025, houve crescimento de 15,8%.

Outro dado que chama atenção é a ressonância magnética multiparamétrica da próstata. Na consulta ao DataSUS, o procedimento passa a aparecer em 2024, com 3.496 registros, e chega a 8.380 em 2025, totalizando 11.876 no período e representando crescimento de aproximadamente 140% entre os dois anos. Como o procedimento só aparece nos dois anos finais da série consultada, o dado deve ser interpretado também à luz de sua disponibilidade e de seu registro no SUS.

Ao mesmo tempo, a ultrassonografia transretal apresentou comportamento diferente: passou de 33.656 procedimentos em 2020 para 49.237 em 2021, 60.861 em 2022, 70.707 em 2023 e 76.099 em 2024, mas recuou para 72.979 em 2025. A ultrassonografia abdominal, por sua vez, avançou de 393.109 registros em 2020 para 849.167 em 2025.

“O diagnóstico do câncer de próstata está passando por uma mudança importante. A discussão não deve ficar restrita ao PSA isoladamente. A tendência é trabalhar com uma avaliação baseada em risco, incorporando informações clínicas e familiares e, quando indicada, a ressonância magnética antes da decisão pela biópsia. Essa organização da investigação é especialmente importante porque precisamos encontrar os tumores que podem ameaçar a vida do paciente sem transformar toda alteração do PSA em procedimento invasivo ou tratamento”, afirma o diretor do IUCR.

História familiar - O histórico familiar é um dos fatores considerados na avaliação do risco para câncer de próstata, mas o levantamento evidencia uma limitação importante no preenchimento dessa informação. Dos 115.071 registros do RHC, 62.383 (54,2%), aparecem na categoria “Sem Informação” para história familiar de câncer. Em outras palavras, o dado não está disponível para mais da metade dos pacientes registrados entre 2020 e 2023.

Entre aqueles para os quais a informação foi registrada, a distribuição é praticamente equilibrada. Há 26.117 pacientes com resposta positiva para história familiar de câncer e 26.571 com resposta negativa. Excluídos os registros sem informação, portanto, 49,6% dos 52.688 pacientes com esse dado disponível apresentavam histórico familiar de câncer. A variável do RHC, porém, deve ser interpretada com uma ressalva: ela se refere à história familiar de câncer em geral e não exclusivamente à ocorrência de câncer de próstata entre familiares. Por isso, o percentual não pode ser apresentado como proporção de pacientes com antecedentes familiares específicos da doença ou mesmo para uma determinada síndrome de câncer hereditário. 

A história familiar ganha importância na avaliação individual, sobretudo quando há casos de câncer de próstata em parentes próximos, particularmente quando diagnosticados em idades mais jovens e pode fazer parte de uma avaliação mais ampla de predisposição hereditária. A análise conjunta desse histórico com idade, características clínicas e resultados dos exames ajuda a definir quando e como aprofundar a investigação.

Os dois bancos utilizados no levantamento retratam dimensões diferentes da assistência. O RHC reúne informações dos pacientes atendidos em hospitais com registro de câncer e, por isso, não corresponde à incidência da doença na população brasileira. Já os dados do DataSUS utilizados na análise mostram a produção ambulatorial do SUS e contabilizam procedimentos realizados, não indivíduos. A leitura conjunta permite observar, de um lado, características dos pacientes e da doença no atendimento hospitalar e, de outro, a evolução do volume de exames e procedimentos realizados no sistema público.

 

Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR


Muito além do tratamento oncológico: acolhimento, medicina de precisão e a preservação de sonhos no Outubro Rosa

  Com a projeção de 78,6 mil novos diagnósticos anuais de câncer de mama no país pelo Inca, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz destaca como os avanços científicos ajudam a transformar o enfrentamento da doença em uma jornada mais humana e esperançosa

 

O diagnóstico do câncer de mama traz consigo um turbilhão de incertezas e transformações na rotina da mulher. De acordo com dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer), a estimativa é de 78.610 novos casos anuais do tumor no Brasil para o triênio 2026-2028. Há mais de três décadas, o mês de outubro é marcado mundialmente pela campanha Outubro Rosa, que visa ampliar a conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama. 

Diante dessa realidade, o enfrentamento da doença exige um olhar que ultrapassa os limites da intervenção médica tradicional, colocando o bem-estar, os planos de vida e o acolhimento à mulher no centro de cada decisão. Para contribuir e orientar com informações corretas sobre a doença, além de oferecer tratamentos cada vez mais customizados às necessidades biológicas e pessoais de cada paciente, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz reuniu os principais avanços no tratamento do câncer de mama. 

Nos últimos anos, o avanço da oncologia permitiu o desenvolvimento de tratamentos direcionados que atacam as células tumorais com maior assertividade, preservando as células saudáveis e reduzindo significativamente os efeitos colaterais. 

“A oncologia vive um momento de inovação e já temos diagnósticos e tratamentos que permitem à paciente seguir sua vida e manter os planos mesmo diante de um diagnóstico tão desafiador”, ressalta Dr. Pedro Exman, coordenador do Grupo de Tumores de Mama e Ginecológicos do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. 

Entre os avanços em diagnóstico, está a Biópsia líquida, um importante recurso da medicina de precisão que permite, por meio de um exame de sangue minimamente invasivo, identificar fragmentos de DNA tumoral circulante (ctDNA). Essa análise avalia mutações moleculares específicas (como alterações nos genes PIK3CA, ESR1 ou HER2). No câncer de mama metastático, a técnica atua como uma grande aliada ao orientar escolhas terapêuticas mais assertivas e monitorar a resposta aos medicamentos, detectando precocemente eventuais sinais de resistência com menor desconforto para a paciente.

 

Tratamentos

Em tratamento, as principais inovações estão no avanço dos medicamentos: os inibidores de CDK4/6 (como palbociclibe, ribociclibe e abemaciclibe), quando combinados à hormonioterapia, oferecem controle eficaz da doença e mais qualidade de vida para pacientes com câncer de mama avançado hormônio-positivo - uma estratégia amplamente avaliada em estudos clínicos realizados no próprio hospital. Além disso, novas tecnologias direcionadas a tumores HER2-positivos, como o trastuzumabe deruxtecana e combinações de aplicação subcutânea, garantem maior eficácia e mais conveniência no dia a dia do tratamento. 

Já a Radioterapia Intraoperatória é a indicação em casos selecionados de câncer de mama em estágio inicial. Há quase uma década o Hospital Alemão Oswaldo Cruz foi pioneiro no Brasil ao oferecer aos seus pacientes a tecnologia do Intrabeam, equipamento responsável por uma única sessão para o tratamento em mulheres acima de 50 anos, com lesões até 2,5 cm e que estejam localizadas somente nas mamas, ou seja, que não tenham atingido os linfáticos da axila. A aplicação de dose única, feita durante a cirurgia de remoção do tumor, poupa a paciente do desgaste de frequentar semanas de sessões de radioterapia no pós-operatório.

 

Fertilidade

Para mulheres em idade reprodutiva, o impacto das terapias sobre o sistema reprodutivo pode gerar angústia quanto aos planos de maternidade. Pensando nisso, o programa de oncofertilidade do hospital integra o diagnóstico oncológico ao planejamento reprodutivo desde os primeiros momentos. As pacientes são direcionadas a serviços parceiros especializados em reprodução assistida para a realização de procedimentos como a coleta e o congelamento de óvulos ou embriões antes da introdução da quimioterapia ou radioterapia. 

“A oncofertilidade une a oncologia e a reprodução humana para preservar o sonho de ser mãe ou pai. É fundamental que essa conversa aconteça de forma aberta logo no início do diagnóstico, permitindo que a mulher vislumbre o seu futuro com esperança e a segurança de que existem caminhos para manter seus projetos de vida após o tratamento”, explica Dr. Exman.

 

Prevenção faz a diferença

Mesmo diante de tantos avanços, a prevenção ainda é o que faz a diferença . A detecção precoce é um dos principais fatores associados aos melhores desfechos no câncer de mama. Dados do National Cancer Institute2 mostram que a sobrevida relativa em cinco anos chega a 100% quando a doença é diagnosticada em estágio localizado, enquanto cai para 33,8% nos casos com metástase à distância. No Brasil, o Inca destaca que o rastreamento mamográfico, associado ao diagnóstico e tratamento oportunos, contribui para a redução da mortalidade pela doença.

 

Hospital Alemão Oswaldo Cruz

 

Romeiros que percorrem quilômetros a pé até Aparecida: como evitar lesões durante a peregrinação?

 

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Às vésperas do dia 12 de outubro, quando o Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida, sua padroeira, milhares de romeiros iniciam caminhada até o Santuário Nacional de Aparecida, percorrendo longas distâncias a pé, em uma demonstração de fé e devoção, que reúne pessoas de diferentes idades e níveis de condicionamento físico. Para muitos, a caminhada também representa o cumprimento de promessas. 

Do ponto de vista da saúde ortopédica, o percurso também pode significar uma carga importante para músculos, tendões, articulações e ossos.  

A preparação, ou a falta dela, pode fazer diferença. Pessoas que não estão habituadas a caminhar por longos períodos podem estar mais suscetíveis a dores e lesões por sobrecarga, especialmente nos pés, tornozelos, joelhos, quadris e coluna.  

O desafio é ainda maior quando a peregrinação envolve pessoas de diferentes faixas etárias e condições físicas. O organismo de alguém acostumado à atividade física responde de maneira diferente daquele que passou meses ou anos sem praticar exercícios. Da mesma forma, idosos, pessoas com excesso de peso ou com histórico de lesões ortopédicas podem precisar de cuidados específicos antes de enfrentar muitos quilômetros a pé.

 

O que fazer antes, durante e depois da caminhada? 

Os especialistas da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE) podem explicar quais cuidados ajudam a reduzir o risco de lesões, como reconhecer sinais de alerta e em quais situações a dor deixa de ser um desconforto esperado e passa a indicar a necessidade de interromper a caminhada e procurar atendimento médico. 

Entre os temas que podem ser abordados pelos especialistas estão: 

- Como se preparar fisicamente para uma caminhada de longa distância;

- Quais erros aumentam o risco de lesões;

- Escolha e adaptação do calçado antes da peregrinação;

- Importância de respeitar os limites individuais;

- Hidratação, pausas e recuperação ao longo do percurso;

- Diferenças nos cuidados para crianças, adultos e idosos;

- Como identificar sinais de lesões por sobrecarga;

- Quando uma dor pode ser considerada um sinal de alerta;

- O que fazer diante de dores musculares, tendinites ou torções;

-Cuidados após a chegada ao Santuário. 

A SBRATE coloca seus especialistas à disposição para entrevistas e orientações sobre os cuidados ortopédicos necessários durante as romarias que antecedem o Dia de Nossa Senhora Aparecida.

 

Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte - SBRATE

 

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