
Análise do
Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica, com dados dos Registros
Hospitalares de Câncer (RHC) e do DataSUS, mostra ainda que 86,5% dos registros
da doença se concentram em pacientes a partir dos 60 anos. Levantamento também
aponta aumento no número de exames de PSA e biópsias no SUS e avanço recente da
ressonância magnética multiparamétrica na investigação do câncer de próstata
Cerca de 43% dos casos de câncer de próstata com
estadiamento conhecido registrados entre 2020 e 2023 foram diagnosticados já
com doença avançada. Dos 69.676 pacientes com informação sobre o estágio do
tumor, 29.667 estavam nos estádios III ou IV, o equivalente a 42,6%. No estádio
III, o tumor avançou para além dos limites da próstata ou atingiu estruturas
próximas, enquanto o estádio IV caracteriza a disseminação da doença para
linfonodos distantes ou outros órgãos, como os ossos. O levantamento foi
realizado pelo Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR), a
partir de dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) e do DataSUS, ambos
vinculados ao Ministério da Saúde.
Os dados do RHC mostram que 13.636 pacientes
(19,6%) daqueles com estadiamento conhecido, estavam no estádio III. Outros
16.031, equivalentes a 23%, encontravam-se no estádio IV. O maior contingente,
de 30.454 pacientes (43,7%), estava no estádio II, enquanto 9.529 (13,7%) foram
classificados no estádio I. Apenas 26 registros aparecem no estádio 0.
Somados, os estádios II, III e IV concentraram
60.121 pacientes (86,3%) daqueles com estadiamento conhecido. O
levantamento do RHC contabiliza, no entanto, 115.071 registros de câncer de
próstata entre 2020 e 2023, número superior aos 69.676 incluídos na tabela que
considera os estádios de 0 a IV. Por isso, os percentuais referentes ao estágio
da doença são calculados apenas sobre os casos para os quais essa classificação
está disponível na consulta.
“Identificar o câncer de próstata antes que ele
avance amplia as possibilidades de tratamento e pode ter impacto importante no
prognóstico. Quando encontramos uma proporção relevante de pacientes já nos
estádios III e IV, o dado chama atenção para a necessidade de melhorar a
jornada que vai da avaliação do risco e do diagnóstico até o acesso ao
especialista e ao tratamento. Não se trata apenas de fazer um exame, mas de
garantir que uma alteração seja adequadamente investigada e que o paciente
percorra as etapas seguintes sem atrasos”, afirma Gustavo Cardoso Guimarães,
urologista e cirurgião oncológico, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia
e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos
oncológicos e da Medicina Genômica da BP.
Casos se concentram após os 60
anos - A distribuição por idade reforça a relação do
câncer de próstata com o envelhecimento. Dos 115.071 registros do RHC entre
2020 e 2023, 99.507 ocorreram em pacientes com 60 anos ou mais, o equivalente a
86,5% do total. A partir dos 65 anos, foram 81.490 casos (70,8%). Cerca de
metade dos registros, 56.434, estava concentrada em pessoas com 70 anos ou
mais, correspondendo a 49% do total.
As duas faixas com maior número de registros foram
justamente as de 65 a 69 anos, com 25.056 casos e de 70 a 74, com 24.977.
Juntas, elas responderam por 50.033 diagnósticos (43,5%) de todos os casos
registrados no período. Entre 60 e 64 anos foram 18.017 casos; entre 75 e 79,
18.117; entre 80 e 84, 9.142; e, a partir dos 85 anos, outros 4.198. A
frequência cai acentuadamente nas idades mais jovens. Entre 50 e 59 anos, o RHC
contabilizou 13.935 casos, correspondentes a 12,1% do total. Dos 40 aos 49 anos
foram 1.449 registros (1,3%). Até os 39 anos, houve apenas 177 casos,
aproximadamente 0,15% do total. Considerando todos os pacientes com menos de 50
anos, foram 1.626 registros, o equivalente a 1,4%. Apenas três casos não
apresentavam informação sobre idade.
A distribuição não significa que homens mais jovens
estejam livres da doença, mas evidencia como sua ocorrência aumenta nas faixas
etárias mais elevadas. Entre 55 e 59 anos, por exemplo, foram registrados
10.016 casos. Na faixa imediatamente seguinte, dos 60 aos 64, o número sobe
para 18.017 e chega a mais de 25 mil entre 65 e 69 anos.
Tratamentos recebidos - Os dados do RHC também permitem observar quais modalidades de tratamento
aparecem na assistência aos pacientes. Como cirurgia, radioterapia,
hormonioterapia e quimioterapia podem ser utilizadas isoladamente ou em
diferentes combinações, um mesmo registro pode aparecer associado a mais de uma
modalidade. Por esse motivo, os percentuais de cada tratamento não devem ser
somados entre si. A radioterapia aparece em algum momento do tratamento de
42.393 pacientes, o equivalente a 36,8% dos 115.071 registros. A
hormonioterapia apresenta proporção semelhante: está presente em 42.053 casos
(36,5%). Já a cirurgia aparece em 32.577 registros, correspondentes a 28,3%,
enquanto a quimioterapia integra o tratamento de 12.521 pacientes (10,9%).
O banco registra ainda 17.378 pacientes (15,1% do
total), na categoria “Nenhum”, referente ao tratamento informado no RHC. Outros
1.118 aparecem como “Sem Informação”. Esses registros precisam ser
interpretados dentro das características do banco hospitalar e, isoladamente,
não permitem afirmar que o paciente nunca tenha recebido tratamento em outro
serviço ou momento da assistência.
A escolha terapêutica depende de características
como extensão e agressividade do tumor, idade, condições clínicas e
preferências do paciente. Tumores localizados podem ter indicação de cirurgia
ou radioterapia, enquanto a terapia hormonal assume papel importante em
diferentes situações da doença, sobretudo quando há maior extensão tumoral. Em
determinados contextos de baixo risco, também pode ser adotada a vigilância
ativa, com acompanhamento periódico e sem tratamento imediato.
Diagnóstico em números - A análise do IUCR também reuniu dados do Sistema de Informações
Ambulatoriais do SUS disponíveis no DataSUS. Entre 2020 e dezembro de 2025,
foram registrados 40,58 milhões de procedimentos selecionados relacionados à
investigação da próstata no sistema público. O número se refere à quantidade de
procedimentos aprovados, e não ao número de pessoas examinadas, já que um mesmo
paciente pode realizar mais de um exame ao longo do período.
O PSA responde pela maior parte desse volume. Foram
35.857.129 dosagens do antígeno prostático específico, correspondentes a 88,4% dos
procedimentos selecionados na consulta. O PSA é uma proteína produzida pela
próstata cuja concentração é medida por meio de exame de sangue. Alterações
podem estar relacionadas ao câncer, mas também a condições não malignas, como
aumento benigno da próstata e processos inflamatórios.
O número anual de dosagens cresceu no período
analisado. Foram 3,31 milhões em 2020, 5,24 milhões em 2021, 6,22 milhões em
2022, 6,93 milhões em 2023, 6,97 milhões em 2024 e 7,19 milhões em 2025. Entre
2020 e 2025, o volume registrado mais que dobrou, com crescimento de
aproximadamente 117%. A comparação, porém, deve considerar o impacto da
pandemia de Covid-19 sobre a assistência naquele ano.
“O PSA continua sendo uma ferramenta muito
importante, mas hoje não deve ser entendido como um exame que, quando alterado,
leva automaticamente a uma biópsia. O resultado precisa ser analisado junto com
idade, histórico familiar, avaliação clínica e outros fatores de risco. Quando
necessário, a ressonância magnética multiparamétrica pode acrescentar
informações que ajudam a selecionar melhor quem realmente precisa avançar para
uma investigação invasiva. O objetivo é aumentar a capacidade de encontrar
tumores clinicamente relevantes e, ao mesmo tempo, reduzir procedimentos
desnecessários”, explica Guimarães.
Além do PSA, o SUS registrou 4.073.508
ultrassonografias de próstata por via abdominal entre 2020 e 2025 e 363.544
ultrassonografias por via transretal. As biópsias de próstata somaram 272.063
procedimentos. Nesse caso, o crescimento anual foi contínuo: de 24.877 em 2020
para 35.051 em 2021, 42.033 em 2022, 49.386 em 2023, 55.926 em 2024 e 64.790 em
2025. Entre o primeiro e o último ano, o aumento foi de aproximadamente 160%.
Somente de 2024 para 2025, houve crescimento de 15,8%.
Outro dado que chama atenção é a ressonância
magnética multiparamétrica da próstata. Na consulta ao DataSUS, o procedimento
passa a aparecer em 2024, com 3.496 registros, e chega a 8.380 em 2025,
totalizando 11.876 no período e representando crescimento de aproximadamente
140% entre os dois anos. Como o procedimento só aparece nos dois anos finais da
série consultada, o dado deve ser interpretado também à luz de sua
disponibilidade e de seu registro no SUS.
Ao mesmo tempo, a ultrassonografia transretal
apresentou comportamento diferente: passou de 33.656 procedimentos em 2020 para
49.237 em 2021, 60.861 em 2022, 70.707 em 2023 e 76.099 em 2024, mas recuou
para 72.979 em 2025. A ultrassonografia abdominal, por sua vez, avançou de
393.109 registros em 2020 para 849.167 em 2025.
“O diagnóstico do câncer de próstata está passando
por uma mudança importante. A discussão não deve ficar restrita ao PSA
isoladamente. A tendência é trabalhar com uma avaliação baseada em risco,
incorporando informações clínicas e familiares e, quando indicada, a
ressonância magnética antes da decisão pela biópsia. Essa organização da
investigação é especialmente importante porque precisamos encontrar os tumores
que podem ameaçar a vida do paciente sem transformar toda alteração do PSA em
procedimento invasivo ou tratamento”, afirma o diretor do IUCR.
História familiar - O histórico familiar é um dos fatores considerados na avaliação do risco
para câncer de próstata, mas o levantamento evidencia uma limitação importante
no preenchimento dessa informação. Dos 115.071 registros do RHC, 62.383
(54,2%), aparecem na categoria “Sem Informação” para história familiar de
câncer. Em outras palavras, o dado não está disponível para mais da metade dos
pacientes registrados entre 2020 e 2023.
Entre aqueles para os quais a informação foi
registrada, a distribuição é praticamente equilibrada. Há 26.117 pacientes com
resposta positiva para história familiar de câncer e 26.571 com resposta
negativa. Excluídos os registros sem informação, portanto, 49,6% dos 52.688
pacientes com esse dado disponível apresentavam histórico familiar de câncer. A
variável do RHC, porém, deve ser interpretada com uma ressalva: ela se refere à
história familiar de câncer em geral e não exclusivamente à ocorrência de
câncer de próstata entre familiares. Por isso, o percentual não pode ser
apresentado como proporção de pacientes com antecedentes familiares específicos
da doença ou mesmo para uma determinada síndrome de câncer hereditário.
A história familiar ganha importância na avaliação
individual, sobretudo quando há casos de câncer de próstata em parentes
próximos, particularmente quando diagnosticados em idades mais jovens e pode
fazer parte de uma avaliação mais ampla de predisposição hereditária. A análise
conjunta desse histórico com idade, características clínicas e resultados dos
exames ajuda a definir quando e como aprofundar a investigação.
Os dois bancos utilizados no levantamento retratam
dimensões diferentes da assistência. O RHC reúne informações dos pacientes
atendidos em hospitais com registro de câncer e, por isso, não corresponde à
incidência da doença na população brasileira. Já os dados do DataSUS utilizados
na análise mostram a produção ambulatorial do SUS e contabilizam procedimentos
realizados, não indivíduos. A leitura conjunta permite observar, de um lado,
características dos pacientes e da doença no atendimento hospitalar e, de
outro, a evolução do volume de exames e procedimentos realizados no sistema
público.
Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR
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