Com mais de 22% dos idosos diagnosticados com obesidade, especialistas orientam sobre a importância de reduzir a gordura corporal sem comprometer a massa muscular e a autonomia motora
O envelhecimento populacional no Brasil é acompanhado por transformações no perfil metabólico e nutricional dos cidadãos acima de 60 anos. Dados do relatório Vigitel Brasil 2006-2024, publicado pelo Ministério da Saúde em 2025, revelam que 22,8% das pessoas com 65 anos ou mais entrevistadas nas capitais brasileiras e no Distrito Federal apresentavam diagnóstico de obesidade em 2024. Em 2006, o índice registrado nessa faixa etária era de 16,1%: o aumento demanda atenção médica especializada para os impactos do excesso de peso na fase sênior.
Longe de ser uma preocupação meramente estética, a obesidade em
idosos atua como um fator associado ao aumento do risco de comorbidades.
De acordo com a Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo
da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas
à Obesidade, o acúmulo de tecido adiposo na maturidade exige uma
abordagem diagnóstica integrada com o controle da pressão arterial, da
glicemia e dos riscos de eventos vasculares agudos, incluindo o acidente
vascular cerebral (AVC) e a insuficiência cardíaca. Especialistas alertam
que o tratamento nessa faixa etária inclui algumas particularidades: a perda de
peso deve ser rigorosamente acompanhada para não induzir perda acelerada de
massa magra, desnutrição ou fragilidade física.
Perigo da obesidade sarcopênica
Na terceira idade, o manejo do peso corporal deve seguir diretrizes diferentes das adotadas para pacientes jovens. O avanço da idade acarreta naturalmente uma perda gradativa da musculatura esquelética, processo conhecido como sarcopenia. Quando o excesso de gordura corporal coexiste com essa redução muscular, instala-se o quadro denominado obesidade sarcopênica.
O médico geriatra Dr. Thiago Nogueira, do programa Cuidar+, do Hospital Santa Lúcia, explica que o grande desafio clínico reside em emagrecer preservando a estrutura motora. “Com o avanço da idade, já existe uma tendência natural à perda de músculo. Por isso, o tratamento deve ser acompanhado de perto, evitando uma redução de peso muito rápida ou dietas excessivamente restritivas, que podem trazer prejuízos. O uso de terapia medicamentosa também deve ser individualizado, de acordo com a necessidade e a condição clínica de cada pessoa”, explica.
A perda de massa magra compromete a biomecânica e eleva
substancialmente os riscos do cotidiano, como quedas, conforme
complementa o geriatra. "A perda de massa muscular favorece a piora da
mobilidade, aumenta o risco de quedas, reduz a funcionalidade e,
consequentemente, pode comprometer a autonomia do idoso”, acrescenta.
Rastreamento preventivo
Além dos prejuízos articulares e motores, o excesso de peso sobrecarrega diretamente a fisiologia cardiovascular, como alerta o médico cardiologista Dr. Ricardo Cals, do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN). "A obesidade contribui com diversos fatores de risco cardiovascular, tais como a hipertensão, favorecendo a retenção de líquidos e sódio, causando inflamação crônica, aumentando a resistência vascular e interferindo na modulação neuro-hormonal. Ela também aumenta a prevalência de insuficiência cardíaca e arritmias, através de infiltração lipídica, hipertrofia muscular e alterações estruturais no sistema de condução elétrico do miocárdio”, detalha.
Para garantir segurança antes de iniciar dietas ou programas de atividade física, o paciente idoso precisa passar por uma triagem clínica detalhada, definidos a partir da consulta médica. "Os exames principais de rastreios são, além de exames laboratoriais completos da parte metabólica, o ecocardiograma (avaliação de alterações estruturais), eletrocardiograma de 12 derivações (avaliação da parte elétrica do coração) e o teste ergométrico, que verifica como o miocárdio irá responder durante o esforço físico”, lista o especialista.
Além disso, o controle do peso oferece retornos terapêuticos
expressivos: ajuda a contribuir para o controle de fatores de risco
cardiovasculares e, em alguns casos, reduzir a necessidade de medicamentos,
conforme avaliação médica.
Abordagem multidisciplinar
Para garantir desfechos positivos sem fragilizar o paciente, o acompanhamento deve articular diferentes áreas da saúde. No Hospital Santa Lúcia, por exemplo, o programa Cuidar+ oferece uma linha de cuidado focada nas necessidades da terceira idade, associando a geriatria e diferentes áreas multiprofissionais.
“O acompanhamento multidisciplinar é fundamental para reduzir os riscos nesse tipo de tratamento. A estratégia é buscar uma redução da gordura corporal, preservando, ao máximo, a massa muscular e a funcionalidade”, enfatiza o Dr. Thiago. “Para isso, o acompanhamento nutricional deve ser associado à prática de exercícios, especialmente o treinamento de força, além da avaliação médica das comorbidades e dos tratamentos que possam ser necessários. A atuação conjunta permite um cuidado mais individualizado e seguro.”
Durante as consultas, os especialistas monitoram continuamente indicadores
objetivos de capacidade funcional. Entre eles, a velocidade da marcha, a
força de preensão palmar, a capacidade de levantar-se da cadeira, o equilíbrio
corporal, o histórico de quedas e a desenvoltura na execução das atividades
básicas e instrumentais da rotina diária.

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