Poucos nos
suportamos em estado de solidão (ou solitude, conceito de Hannah Arendt que foi
sentimentalizado). Nas ocasiões em que estamos sós, nos angustiamos. Fazemos
mais do que seria sensato ou digno, para nos desviar de um encontro com nós
mesmos. Não refiro viver isolado, o que é raro e contra a natureza humana. Falo
de momentos em que não há ninguém ao nosso alcance, ou ninguém quer nos
alcançar.
Quando tal
acontece, nos debatemos por alguém a chamar, por um lugar aonde ir; ansiamos
por uma batida na porta, um toque de telefone, uma mensagem. O ninguém mais é
um vazio; o eu comigo mesmo é um tudo opressor. Desejamos o amparo do afeto
alheio. Alçar-se acima do estado de angústia que acompanha o deparar-se consigo
próprio é uma condição mental elevada, portanto, nada fácil de alcançar.
Explico-me:
bastamo-nos não nos completa (aliás, mal nos amamos; mais desejamos ser
amados). Se ser bastante a si é necessário para a existência, o que nos dá
sentido existencial são os outros; nosso sentido emocional é proporcionado
pelas nossas relações afetivas. Então, é exato: eu não me basto enquanto
ser-com-afeto-no-mundo. Como indivíduo, todavia, eu não devo dissolver minha
personalidade nas circunstâncias.
Tampouco
nas minhas relações afetivas hei de me anular. Devo, e devo sempre, preservar
minha integridade (um mínimo eu), riscando fronteiras pessoais e nelas
permanecendo, quando apropriado nelas permanecer. A demarcação ostensiva de limites
me segregará, porém, posto um singelo e delicado traço e já estará claro que
ali começo eu, ainda que o mundo e eu sempre nos confundiremos num nós social.
Desse
eu-território-de-mim, contudo, há que ter um esforço de guarda, ou dele, em não
sendo prazeroso, hei que me afastar: afastar-me de como estou, recompondo o meu
eu-território-de-mim. Se eu sou um território de mim mesmo, se eu-ser-emocionado
sou o habitante desse território, tenho que cuidar dele, porque eu sou a minha
primeira circunstância, ainda que não seja eu, e sim o mundo, a principal
circunstância de mim.
Há quem não
dê conta de encontrar-se, que precise escafeder-se de si. O bêbado, o drogado,
o entorpecido por remédios, creio que, ao cabo, se estão anulando. Ficam
ninguém: baladeiros por indigência de qualquer companhia, torcidas organizadas
em torno de agressividade, pasteurizadas no barulho e na multidão. Referendam-se
em bando; valem pouco, individualmente. Ficariam perdidos se houvesse silêncio,
se devessem pensar.
Na vida
pública, os que idolatram o “meu” político, formando grupos de tramas,
mentiras, negacionismo e cancelamentos em redes sociais, conspiram contra a
convivência democrática, que necessita de persuasão e consensos mínimos. Os que
esperam um “reino” em outra vida, no máximo, se tiverem boa sorte, encontrarão
um senhor autoritário, ao tempo mesmo em que se alienam de relações concretas
com a sua ocasião na História.
No universo
das mídias televisivas e redes sociais, os voyeurs dos reality shows
onanizam-se bisbilhotando um espetáculo falso, vivendo fábulas substitutivas,
no entusiasmo do que nunca vão ter ou ser. Muitos internautas, em suas viagens
ou namoros pele web, não estão nos fatos nem estão em si; fazem-se avatares do
que se imaginam ser e gozam fantasias com completos desconhecidos, outros
avatares de outros lugares.
Mesmo
intelectuais, supostamente mais advertidos dessas coisas todas, apartam-se da
concretude mundana, insistindo em discursos prontos sobre todas as coisas, como
se os fatos fossem redutíveis ao ditado de algum saber; são idealizações de
dever ser a que nomeiam utopia: os de esquerda, desenham autoritariamente o
futuro; os de direita, reescrevem o passado, saudosos do que só existiu em sua
imaginação rancorosa.
A
prazenteira (se soubermos nos compor com ela) e renunciada (nos matriculamos em
fantasias) realidade: eu comigo, eu com alguém, eu e as pessoas, eu e as
coisas, eu e o meu lugar. Eu e a História: as circunstâncias que me são dadas,
as circunstâncias que me quero dar. Sei bem que a realidade é dialética;
ademais, é invenção. Não é, contudo, um espetáculo de ficção vulgar que outros
produzem para mim.
Almodóvar:
“A ficção é um fato necessário da vida. Sem ficção, as pessoas ficariam loucas.
Se não se produzissem mais histórias para as pessoas escaparem da realidade,
haveria um caos no mundo. A ficção é necessária porque a vida das pessoas não é
suficiente, a realidade é incompleta. Ainda mais em países pobres, como tantos
que ainda existem. A ficção se torna para os desgraçados uma forma de
sobreviver” (Época, 30nov09).
Concedo:
Almodóvar está com a razão. Aliás, esta razão não é exatamente dele. Antes,
Fernando Pessoa: “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida
não basta”. A arte de cada qual vale igual. Não se furte, pois, à imaginação.
Absorva-se em enredos seus para você mesmo, mas não consinta com qualquer
narrativa; preceitue-se condição de artista. Aí, então, permita-se e se iluda.
Mas, cuidado, sem muita ilusão.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC
Psicanalista e Jornalista
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