Pediatra explica, de forma simples, o que muda na amamentação depois do tratamento contra o câncer de mama
Depois de enfrentar um câncer de mama, pensar na chegada de um
filho traz sonhos, esperança e também muitas dúvidas. Uma delas costuma tocar
fundo: será que vou conseguir amamentar? Para a pediatra Marli Rio, essa é uma
pergunta que merece uma resposta honesta, sem promessas fáceis: depende.
Depende do tratamento que cada mulher fez, e cada história precisa ser olhada
de perto.
"Para algumas mulheres, amamentar vai ser possível. Para
outras, os tratamentos ou os remédios que ainda precisam tomar podem impedir.
Mas há uma coisa que precisa ficar clara desde o início: não conseguir amamentar
não torna ninguém menos mãe", afirma Marli.
No Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama, a
pediatra reforça a importância de também falar sobre a vida depois do
tratamento, os planos que mudam e o cuidado que cada mulher merece para seguir
seu caminho.
O que muda depende da cirurgia e do tratamento
A possibilidade de amamentar depende, entre outras coisas, do tipo
de cirurgia feita, se houve radioterapia (tratamento com raios que ajuda a
combater o câncer) e dos remédios usados.
Quando a mama inteira é retirada em uma cirurgia chamada
mastectomia, aquele lado não produz mais leite, mesmo que a mulher tenha feito
uma reconstrução. Se só uma mama foi retirada, a outra pode produzir leite
normalmente, e em muitas mulheres isso é suficiente para alimentar o bebê. Já
quando as duas mamas são retiradas, não será possível amamentar no peito.
"Ter tido câncer de mama não quer dizer, sozinho, que toda
chance de amamentar acabou. Outros tipos de cirurgia e a radioterapia também
podem interferir, por isso é a equipe médica quem vai dizer o que é possível
para cada mulher", explica a pediatra.
A conversa deve começar antes do bebê nascer
O ideal é que essa conversa comece ainda antes da gravidez ou
durante o pré-natal, reunindo o médico que acompanha o tratamento e o pediatra.
Existem remédios contra o câncer que não podem ser usados junto
com a amamentação, e terminar a quimioterapia nem sempre significa que o
tratamento acabou de vez. "Nenhum remédio deve ser parado por conta
própria na tentativa de amamentar. Isso precisa ser decidido junto com o
médico", alerta Marli.
Com essa orientação, a mulher chega ao nascimento do bebê
conhecendo melhor suas possibilidades, e precisa ter espaço para dizer o que
deseja, perguntar o que teme e ser ouvida sem julgamento.
O que importa é o vínculo, não só o peito
Como pediatra, Marli defende olhar para a mãe e para o bebê
juntos. Acompanhar como a criança está se alimentando e crescendo ajuda a
perceber quando é preciso ajustar algo. Se o leite materno não estiver
disponível, ou não for suficiente, o pediatra pode indicar a alternativa mais
adequada para a idade e as necessidades do bebê.
"Para quem sonhou em amamentar, descobrir que não vai ser
possível pode doer, e essa tristeza merece respeito. Acolher também é deixar a
mulher falar sobre essa frustração, sem pressa para que ela 'aceite logo' e sem
colocar culpa nenhuma nisso", pontua.
O vínculo com o filho se constrói no dia a dia: no colo, no olhar,
na voz que acalma, na presença e na resposta às suas necessidades. Alimentar o
bebê com carinho continua sendo um momento de proximidade, mesmo quando não é
no peito.
Além da pergunta sobre amamentar
"Amamentar não precisa virar mais uma prova de força depois
do câncer. Cada mulher merece apoio para viver a maternidade dentro das suas
possibilidades, com segurança e respeito à própria história", conclui
Marli.
Ao lado da pergunta "será que vou conseguir amamentar?",
a pediatra defende abrir espaço para outra, igualmente importante: "como
você está se sentindo com tudo isso?". Porque as mães também precisam de
colo.

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