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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Tive câncer de mama. Posso amamentar?

 

Pediatra explica, de forma simples, o que muda na amamentação depois do tratamento contra o câncer de mama

 

Depois de enfrentar um câncer de mama, pensar na chegada de um filho traz sonhos, esperança e também muitas dúvidas. Uma delas costuma tocar fundo: será que vou conseguir amamentar? Para a pediatra Marli Rio, essa é uma pergunta que merece uma resposta honesta, sem promessas fáceis: depende. Depende do tratamento que cada mulher fez, e cada história precisa ser olhada de perto.

"Para algumas mulheres, amamentar vai ser possível. Para outras, os tratamentos ou os remédios que ainda precisam tomar podem impedir. Mas há uma coisa que precisa ficar clara desde o início: não conseguir amamentar não torna ninguém menos mãe", afirma Marli.

No Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama, a pediatra reforça a importância de também falar sobre a vida depois do tratamento, os planos que mudam e o cuidado que cada mulher merece para seguir seu caminho.


O que muda depende da cirurgia e do tratamento

A possibilidade de amamentar depende, entre outras coisas, do tipo de cirurgia feita, se houve radioterapia (tratamento com raios que ajuda a combater o câncer) e dos remédios usados.

Quando a mama inteira é retirada em uma cirurgia chamada mastectomia, aquele lado não produz mais leite, mesmo que a mulher tenha feito uma reconstrução. Se só uma mama foi retirada, a outra pode produzir leite normalmente, e em muitas mulheres isso é suficiente para alimentar o bebê. Já quando as duas mamas são retiradas, não será possível amamentar no peito.

"Ter tido câncer de mama não quer dizer, sozinho, que toda chance de amamentar acabou. Outros tipos de cirurgia e a radioterapia também podem interferir, por isso é a equipe médica quem vai dizer o que é possível para cada mulher", explica a pediatra.


A conversa deve começar antes do bebê nascer

O ideal é que essa conversa comece ainda antes da gravidez ou durante o pré-natal, reunindo o médico que acompanha o tratamento e o pediatra.

Existem remédios contra o câncer que não podem ser usados junto com a amamentação, e terminar a quimioterapia nem sempre significa que o tratamento acabou de vez. "Nenhum remédio deve ser parado por conta própria na tentativa de amamentar. Isso precisa ser decidido junto com o médico", alerta Marli.

Com essa orientação, a mulher chega ao nascimento do bebê conhecendo melhor suas possibilidades, e precisa ter espaço para dizer o que deseja, perguntar o que teme e ser ouvida sem julgamento.


O que importa é o vínculo, não só o peito

Como pediatra, Marli defende olhar para a mãe e para o bebê juntos. Acompanhar como a criança está se alimentando e crescendo ajuda a perceber quando é preciso ajustar algo. Se o leite materno não estiver disponível, ou não for suficiente, o pediatra pode indicar a alternativa mais adequada para a idade e as necessidades do bebê.

"Para quem sonhou em amamentar, descobrir que não vai ser possível pode doer, e essa tristeza merece respeito. Acolher também é deixar a mulher falar sobre essa frustração, sem pressa para que ela 'aceite logo' e sem colocar culpa nenhuma nisso", pontua.

O vínculo com o filho se constrói no dia a dia: no colo, no olhar, na voz que acalma, na presença e na resposta às suas necessidades. Alimentar o bebê com carinho continua sendo um momento de proximidade, mesmo quando não é no peito.


Além da pergunta sobre amamentar

"Amamentar não precisa virar mais uma prova de força depois do câncer. Cada mulher merece apoio para viver a maternidade dentro das suas possibilidades, com segurança e respeito à própria história", conclui Marli.

Ao lado da pergunta "será que vou conseguir amamentar?", a pediatra defende abrir espaço para outra, igualmente importante: "como você está se sentindo com tudo isso?". Porque as mães também precisam de colo.

 

Marli Rio - pediatra há 30 anos. Seu trabalho é dedicado a cuidar do bebê sem deixar de enxergar a mulher que acabou de se tornar mãe, dando visibilidade às dificuldades maternas que tantas vezes permanecem invisíveis. Instagram:@dramarlirio


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