A presença de
escritoras negras nas estantes amplia repertórios, combate estereótipos e
transforma a forma como o Brasil se reconhece
Costumamos dizer que a literatura desenvolve
empatia, mas nenhum livro transforma alguém apenas por ser lido. A mudança
começa quando uma história nos obriga a abandonar, ainda que por algumas
páginas, o lugar confortável de onde observamos o mundo.
Esse movimento ganha uma força particular quando
lemos obras de mulheres negras, pois o racismo depende da redução. Ele
transforma pessoas em categorias, aprisiona existências em estereótipos e
insiste em enxergar corpos antes de reconhecer histórias. A literatura percorre
o caminho contrário: ao criar personagens complexas, narrar memórias, desejos,
medos, alegrias e contradições, escritoras negras devolvem profundidade a vidas
que tantas vezes foram representadas de maneira limitada ou distorcida.
Há uma diferença decisiva entre aparecer em uma
história e conseguir narrá-la. Durante muito tempo, mulheres negras estiveram
presentes na literatura brasileira principalmente pelo olhar de outros: como
figuras secundárias, corpos disponíveis, trabalhadoras sem vida interior ou
personagens definidas apenas pela dor. Quando assumem a autoria e o
protagonismo, não apenas ocupam uma página.
Isso importa para as leitoras negras, que podem se
reconhecer para além da ausência e do sofrimento. Podem encontrar personagens
que amam, criam, erram, lideram, desejam, riem, envelhecem e imaginam futuros.
Representatividade não é somente ver alguém parecido consigo na capa de um
livro. É encontrar a própria humanidade tratada como matéria digna de ficção,
poesia, memória e pensamento.
Também importa para quem não vive o racismo. A
literatura não substitui a educação antirracista, o debate público ou as
mudanças sociais necessárias, mas pode alcançar um território que dados e
discursos nem sempre acessam: a imaginação. Ao acompanhar uma personagem por
dentro, o leitor deixa de observar uma realidade à distância, sendo convidado a
perceber como o racismo atravessa gestos cotidianos, afetos, escolhas e
possibilidades. Não se trata de sentir pena, mas de reconhecer complexidade. A
empatia que transforma não olha de cima. Ela reduz a distância sem apagar as
diferenças.
Por isso, escolher quais livros chegam às escolas,
bibliotecas, livrarias e casas nunca é uma decisão neutra. Toda estante ensina,
silenciosamente, quem pode ser autora, quem merece protagonizar uma história e
quais experiências ajudam a explicar o país. Uma dissertação de mestrado da
Universidade de Brasília, defendida em 2023, analisou 15 editoras tradicionais
do eixo Rio de Janeiro–São Paulo e identificou 154 autores negros publicados
entre 2011 e 2021, diante de um universo estimado de mais de 2.650 autores em
seus catálogos. O número ajuda a demonstrar que a ausência nas estantes não
acontece apenas por falta de produção, mas também de escolhas.
Celebrados na mesma data, 25 de julho, o Dia
Nacional da Escritora e do Escritor e o Dia da Mulher Negra oferecem mais do
que uma oportunidade de celebração. Esse encontro no calendário nos convida a
rever o mapa de nossas leituras. Escritoras negras não estão pedindo licença
para entrar na literatura brasileira. Elas participam da construção da
literatura brasileira há muito tempo. Cabe aos circuitos de publicação,
educação e leitura deixar de tratá-las como exceção.
É curioso, claro, fazer essa reflexão justamente em
um texto motivado pelo calendário. Mais uma vez, precisamos de uma data para
lembrar o que deveria estar presente o ano inteiro. Ainda assim, talvez a
melhor maneira de aproveitar a ocasião seja utilizá-la não como ponto de
chegada, mas como incômodo: quantas escritoras negras permanecerão em nossas
estantes depois que a homenagem passar?
Talvez esse seja um dos maiores poderes da
literatura: ampliar o número de vidas que somos capazes de imaginar por
inteiro. Ler mulheres negras não é sair do centro da literatura brasileira, mas
perceber quem foi injustamente mantido fora dele.
Nayra Gazafi de Moraes - mestra em Comunicação e
jornalista. Atua na comunicação de iniciativas de incentivo à leitura no
Instituto Positivo.
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