Revisão científica analisa
estudos de neuroimagem e questiona a ideia de que episódios depressivos
provoquem, necessariamente, danos estruturais progressivos no cérebro.
Imagem: Fernando @cferdophotography/Unsplash
O que as imagens cerebrais
realmente mostram?
A depressão
está associada a diferenças em determinadas medidas da estrutura cerebral, mas
a magnitude dessas alterações é pequena e não permite identificar, por meio de
uma ressonância magnética estrutural, se uma pessoa tem o transtorno. Essa é a
principal conclusão de um artigo publicado na Open Minds, que analisa
criticamente pesquisas sobre morfometria cerebral e a hipótese da carga
alostática.
O estudo,
intitulado Cerebral Morphometric Changes in Depression and the Allostatic Load
Hypothesis, examina cinco trabalhos científicos, entre eles duas
meta-análises do consórcio internacional ENIGMA, uma análise de pessoas que
utilizavam antidepressivos, um estudo de acompanhamento por três anos e uma
revisão sobre os efeitos biológicos do estresse crônico.
A análise
sustenta que as diferenças observadas devem ser interpretadas com cautela. Em
vez de revelar uma marca anatômica específica da depressão, os exames mostram
variações médias entre grupos de pacientes e pessoas sem o diagnóstico. Há
ampla sobreposição entre esses grupos, o que limita a utilidade dessas medidas
para avaliar indivíduos isoladamente.
Os autores
também distinguem associação de causalidade. Uma diferença identificada em
pacientes não demonstra, por si só, que a depressão tenha provocado uma
alteração cerebral. A variação pode estar relacionada à vulnerabilidade
anterior ao transtorno, à evolução clínica, ao desenvolvimento, ao tratamento
ou à combinação de diferentes fatores.
Hipocampo apresenta diferença média
inferior a 2%
Uma das
evidências analisadas vem de uma meta-análise publicada por Schmaal e
colaboradores em 2016. O estudo reuniu dados de milhares de participantes para
investigar diferenças no volume de estruturas subcorticais.
Na análise
efetiva do hipocampo, foram comparados 1.700 pacientes com depressão e 7.040
participantes do grupo de controle. O volume médio do hipocampo foi 1,245%
menor no grupo com depressão, com um tamanho de efeito pequeno,
de d
= −0,144.
O resultado
não significa que todas as pessoas com depressão apresentem redução do
hipocampo. Trata-se de uma diferença estatística entre médias de grupos, e não
de um marcador capaz de determinar a condição clínica de um indivíduo.
Os
pesquisadores também observaram diferenças entre pacientes com episódios
recorrentes e participantes do grupo de controle. Entretanto, a comparação
direta entre pessoas com episódios recorrentes e aquelas que estavam no
primeiro episódio não alcançou significância estatística.
Essa
distinção é importante. O resultado não permite concluir que cada novo episódio
depressivo cause perda progressiva de tecido cerebral. Outras explicações, como
características anteriores ao início da doença ou diferenças na duração e na
evolução dos sintomas, continuam possíveis.
O início da
depressão antes dos 21 anos também esteve associado a um volume hipocampal
menor em comparação com o grupo de controle. Ainda assim, os dados disponíveis
não permitiram separar os efeitos do desenvolvimento, da duração da doença e de
uma possível vulnerabilidade prévia.
As diferenças no córtex variam com
a idade
Outro estudo
analisado, publicado por Schmaal e colaboradores em 2017, investigou a
espessura e a área cortical em adultos e adolescentes.
Entre os
adultos, foram identificadas diferenças pequenas de espessura em 13 de 68
regiões avaliadas, principalmente em áreas frontais, cinguladas, insulares e
temporais. Os tamanhos de efeito variaram de −0,10 a −0,14. Não foi observada
diferença na área cortical entre os adultos dos grupos comparados.
Nos
adolescentes, o padrão foi diferente. O grupo com depressão apresentou áreas
corticais totais e regionais menores, enquanto a espessura cortical não mostrou
diferenças significativas. Os tamanhos de efeito ficaram aproximadamente entre
−0,31 e −0,42.
Os autores
do estudo original consideraram que esses resultados poderiam estar
relacionados a diferenças no processo de maturação cerebral, e não
necessariamente à perda de tecido já formado. Como a análise foi transversal,
não acompanhou as mesmas pessoas ao longo do tempo e não permite estabelecer
como essas medidas evoluem durante a vida.
A diferença
entre adultos e adolescentes reforça que a interpretação das imagens depende da
idade, da medida analisada e das características das amostras.
Antidepressivos e estrutura
cerebral: associação não significa efeito direto
A relação
entre o uso de antidepressivos e as medidas cerebrais também exige cautela.
Uma análise
publicada por Serrarens e colaboradores em 2025 reuniu 8.696 participantes de
32 coortes. Entre as pessoas com depressão, 2.076 utilizavam antidepressivos no
momento da avaliação, enquanto 1.495 não estavam usando esses medicamentos
naquele período.
Os usuários
apresentaram menor volume hipocampal e menor espessura em algumas regiões frontais
e temporais. No entanto, depois do ajuste estatístico para a gravidade atual
dos sintomas, as diferenças deixaram de atingir o limiar de significância
utilizado no estudo.
Isso não
prova que a gravidade dos sintomas tenha causado as diferenças, nem que os
medicamentos tenham provocado alterações estruturais. O uso de antidepressivos,
a condição clínica e as medidas cerebrais foram avaliados no mesmo período, o
que dificulta determinar a direção da relação.
Além disso,
a análise não compara diretamente os benefícios terapêuticos dos medicamentos
nem permite concluir que um tratamento seja mais prejudicial ou benéfico para a
estrutura cerebral de uma pessoa específica.
Por isso, os
autores defendem que essas associações não devem ser usadas isoladamente para
orientar a escolha de medicamentos.
A hipótese da carga alostática
Para
interpretar as diferenças observadas, o artigo discute a hipótese da carga
alostática, conceito relacionado ao custo acumulado da adaptação do organismo a
situações de estresse.
A alostase
corresponde à mobilização coordenada de sistemas neurais, hormonais,
autonômicos, imunológicos e metabólicos para responder às exigências do
ambiente. Quando esses mecanismos permanecem excessivamente ativados ou
desregulados, podem contribuir para uma carga fisiológica cumulativa.
A revisão de
McEwen, publicada em 2017, reúne evidências de modelos experimentais nos quais
o estresse crônico está associado a mudanças em diferentes regiões cerebrais.
Algumas áreas apresentam retração de estruturas dendríticas, enquanto outras
podem apresentar expansão. Esse padrão não corresponde à ideia de que todo o
cérebro diminui de maneira uniforme.
Esses
resultados, porém, não demonstram que o mesmo processo ocorra da mesma forma em
pessoas com depressão. As alterações observadas em modelos animais não
identificam, por si só, o mecanismo microscópico responsável pelas diferenças
encontradas em exames de ressonância magnética de seres humanos.
Assim, a
carga alostática é apresentada como uma hipótese possível para explicar
trajetórias de mudança cerebral, não como um mecanismo já comprovado para todos
os pacientes.
O acompanhamento ao longo do tempo
é decisivo
Um estudo de
Frodl e colaboradores, publicado em 2008, acompanhou 30 pacientes
hospitalizados com depressão e 30 participantes do grupo de controle durante
três anos.
Nesse
período, não foi identificada redução do volume total do hipocampo ou da
amígdala em nenhum dos grupos. Também não foi observada uma interação
estatisticamente significativa entre o tempo e o diagnóstico.
O estudo era
pequeno e teve perdas de participantes durante o acompanhamento, por isso não
resolve definitivamente a questão. Ainda assim, seus resultados impedem afirmar
que a progressão da depressão esteja necessariamente associada a uma redução
contínua dessas estruturas.
Os autores
observam que um volume hipocampal menor no início também pode estar associado a
uma evolução clínica posterior menos favorável. Essa possibilidade levanta a
hipótese de que determinadas diferenças possam anteceder o transtorno ou
influenciar sua evolução, em vez de serem exclusivamente consequência dos
episódios depressivos.
Para
esclarecer essas possibilidades, seriam necessários estudos longitudinais com
avaliações anteriores, durante e após os episódios, acompanhando também fatores
como duração dos sintomas, sono, estresse, tratamento e indicadores
fisiológicos.
O que isso significa para o
diagnóstico?
A
ressonância magnética estrutural não é, com base nas evidências analisadas, um
exame capaz de confirmar individualmente o diagnóstico de depressão maior por
meio do volume do hipocampo ou da espessura cortical.
Mesmo uma
diferença estatisticamente significativa entre grupos pode ter pouca capacidade
de classificação individual quando as distribuições se sobrepõem amplamente.
Os autores
também alertam contra a utilização dessas associações para afirmar que prevenir
cada episódio depressivo necessariamente preservará tecido cerebral ou que os
antidepressivos causam danos estruturais. Essas conclusões exigiriam evidências
específicas de causalidade que os estudos examinados não oferecem.
A revisão
tem limitações: é narrativa, utiliza um conjunto restrito de fontes e inclui
estudos que podem compartilhar centros ou participantes. Além disso, as
pesquisas diferem quanto aos instrumentos diagnósticos, às características
clínicas e aos métodos de imagem. A evidência mecanística sobre o estresse
também depende, em grande parte, de modelos animais.
A principal conclusão é que existem diferenças
morfométricas médias associadas à depressão, mas sua origem e evolução ainda
não estão completamente esclarecidas. Distinguir vulnerabilidade anterior,
alterações relacionadas à doença e possíveis efeitos acumulados do estresse
exigirá acompanhar as mesmas pessoas ao longo do tempo.
O artigo
propõe, portanto, uma interpretação mais precisa: observar uma diferença
cerebral é um resultado científico relevante, mas não equivale a demonstrar uma
lesão, estabelecer sua causa ou prever a trajetória clínica de um indivíduo.
Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Rafael Marchetti, Adriel Pereira da Silva, Flávia Ceccato Rodrigues da Cunha e Flávio Henrique dos Santos Nascimento
Referência: RODRIGUES, Fabiano de Abreu Agrela et al. Cerebral
Morphometric Changes in Depression and the Allostatic Load Hypothesis. Open
Minds. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.515721726080915.
Licença: Creative Commons Attribution 4.0 International
(CC BY 4.0).
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