Falta de apoio familiar e julgamento afastam pessoas dos consultórios e geram prejuízos que podem ser irreversíveis, alerta cirurgião bariátrico
Os pacientes que buscam o cirurgião bariátrico César De Fazzio,
diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília, raramente chegam
cedo. Em geral, eles passam anos ouvindo que não têm força de vontade, que são
preguiçosos ou que basta fechar a boca. E, muitas vezes, quem mais repete esse
julgamento são familiares e pessoas próximas. “Eu costumo dizer que quem chega
ao consultório depois de ouvir tanto absurdo já é um vencedor, só por ter tido
a coragem de entrar pela porta”, afirma o médico.
Esse atraso na procura pelo tratamento tem consequências clínicas
concretas e, em alguns casos, irreversíveis. Cada ano que o paciente adia o
tratamento é um ano a mais de doença ativa no organismo, assim como as
comorbidades associadas a ela. “Um diabético operado nos primeiros anos de
doença tem chance real de remissão. O mesmo paciente operado dez anos depois,
já usando insulina, na maioria das vezes vai conseguir controle e redução de
medicação, mas não a remissão completa, porque a reserva pancreática já se
perdeu”, explica De Fazzio. O mesmo vale para as articulações: o emagrecimento
alivia a dor, mas a lesão instalada não se desfaz.
Por trás do estigma está um equívoco fundamental sobre a natureza
da obesidade. A doença tem base metabólica e hormonal. Trata-se de um problema
crônico e multifatorial que pode ser agravado quando o julgamento vem,
inclusive, de dentro do próprio sistema de saúde. De Fazzio relata que vários
pacientes chegam ao consultório depois de terem sido desestimulados por
profissionais de saúde que não dominam a fisiopatologia da obesidade e, por
isso, subestimam a complexidade dessa condição de saúde.
Acolhimento como parte do protocolo clínico
O ambiente doméstico pode ser tanto o maior aliado quanto o
principal obstáculo no tratamento. De Fazzio relata casos de pacientes na
primeira semana de pós-operatório — com dieta restrita e organismo em adaptação
— que voltaram para casa e encontraram churrascos, festas e pedidos de pizza,
sem nenhuma consideração pelo momento que atravessavam. Há ainda pacientes que
chegam ao consultório escondidos, sem contar a ninguém sobre a consulta ou o
tratamento.
“Quando percebo que o paciente está atravessando essa jornada
sozinho, peço para trazer alguém à consulta, que pode ser um familiar ou amigo
próximo. Sento com essa pessoa e explico como ela pode ser o diferencial
positivo no tratamento. Funciona, porque na maioria das vezes o familiar não
está sabotando por maldade, mas por desinformação”, conta o médico.
Além disso, a forma como o profissional de saúde recebe o paciente
também contribui para o sucesso do tratamento. O paciente com obesidade chega
ao consultório já machucado por anos de julgamento, e se ele encontra mais um
profissional apressado que apenas entrega uma receita sem escutá-lo, dificilmente
dará continuidade ao protocolo, diz De Fazzio. Por isso, a escuta ativa, a
explicação detalhada sobre a doença e a construção de um vínculo de confiança
são, na visão do cirurgião, tão determinantes para o resultado de longo prazo
quanto a técnica cirúrgica ou a medicação escolhida.
“Acolher é escutar de verdade. É perguntar sobre a história
daquela pessoa, entender o que ela já tentou, o que deu errado, o que ela
sente. Obesidade é uma doença crônica, então o acompanhamento dura anos.
Ninguém mantém um vínculo desses com quem o faz se sentir julgado”, conclui o
especialista.
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