Pesquisar no Blog

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Estigma social atrasa tratamento e piora o prognóstico de quem vive com obesidade

 Falta de apoio familiar e julgamento afastam pessoas dos consultórios e geram prejuízos que podem ser irreversíveis, alerta cirurgião bariátrico


Os pacientes que buscam o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília, raramente chegam cedo. Em geral, eles passam anos ouvindo que não têm força de vontade, que são preguiçosos ou que basta fechar a boca. E, muitas vezes, quem mais repete esse julgamento são familiares e pessoas próximas. “Eu costumo dizer que quem chega ao consultório depois de ouvir tanto absurdo já é um vencedor, só por ter tido a coragem de entrar pela porta”, afirma o médico. 

Esse atraso na procura pelo tratamento tem consequências clínicas concretas e, em alguns casos, irreversíveis. Cada ano que o paciente adia o tratamento é um ano a mais de doença ativa no organismo, assim como as comorbidades associadas a ela. “Um diabético operado nos primeiros anos de doença tem chance real de remissão. O mesmo paciente operado dez anos depois, já usando insulina, na maioria das vezes vai conseguir controle e redução de medicação, mas não a remissão completa, porque a reserva pancreática já se perdeu”, explica De Fazzio. O mesmo vale para as articulações: o emagrecimento alivia a dor, mas a lesão instalada não se desfaz. 

Por trás do estigma está um equívoco fundamental sobre a natureza da obesidade. A doença tem base metabólica e hormonal. Trata-se de um problema crônico e multifatorial que pode ser agravado quando o julgamento vem, inclusive, de dentro do próprio sistema de saúde. De Fazzio relata que vários pacientes chegam ao consultório depois de terem sido desestimulados por profissionais de saúde que não dominam a fisiopatologia da obesidade e, por isso, subestimam a complexidade dessa condição de saúde.
 

Acolhimento como parte do protocolo clínico 

O ambiente doméstico pode ser tanto o maior aliado quanto o principal obstáculo no tratamento. De Fazzio relata casos de pacientes na primeira semana de pós-operatório — com dieta restrita e organismo em adaptação — que voltaram para casa e encontraram churrascos, festas e pedidos de pizza, sem nenhuma consideração pelo momento que atravessavam. Há ainda pacientes que chegam ao consultório escondidos, sem contar a ninguém sobre a consulta ou o tratamento. 

“Quando percebo que o paciente está atravessando essa jornada sozinho, peço para trazer alguém à consulta, que pode ser um familiar ou amigo próximo. Sento com essa pessoa e explico como ela pode ser o diferencial positivo no tratamento. Funciona, porque na maioria das vezes o familiar não está sabotando por maldade, mas por desinformação”, conta o médico. 

Além disso, a forma como o profissional de saúde recebe o paciente também contribui para o sucesso do tratamento. O paciente com obesidade chega ao consultório já machucado por anos de julgamento, e se ele encontra mais um profissional apressado que apenas entrega uma receita sem escutá-lo, dificilmente dará continuidade ao protocolo, diz De Fazzio. Por isso, a escuta ativa, a explicação detalhada sobre a doença e a construção de um vínculo de confiança são, na visão do cirurgião, tão determinantes para o resultado de longo prazo quanto a técnica cirúrgica ou a medicação escolhida. 

“Acolher é escutar de verdade. É perguntar sobre a história daquela pessoa, entender o que ela já tentou, o que deu errado, o que ela sente. Obesidade é uma doença crônica, então o acompanhamento dura anos. Ninguém mantém um vínculo desses com quem o faz se sentir julgado”, conclui o especialista.
 

César De Fazzio - O cirurgião bariátrico César De Fazzio dedica-se à área do aparelho digestivo há mais de 15 anos. Fundador do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília-DF, é referência no tratamento cirúrgico e clínico da obesidade. Com um olhar sistêmico do paciente, o especialista coordena todas as etapas do emagrecimento, integrando medicina, nutrição e psicologia em um acompanhamento multidisciplinar. Sua prática é pautada em evidências científicas, pela ética e pelo uso de tecnologia de ponta com materiais de alta qualidade em intervenções minimamente invasivas, visando resultados de longo prazo. Prioriza a segurança e um atendimento transparente e individualizado.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados