Nariz que escorre ao
correr, chorar ou comer pimenta, voz diferente no áudio, gripe pode fazer a
comida parecer sem gosto e ouvido que “desentope” ao bocejar: médico explica o
que está por trás de situações comuns do dia a dia
O corpo humano está cheio de fenômenos curiosos que acontecem
diariamente e que, muitas vezes, envolvem estruturas estudadas pela
otorrinolaringologia. Segundo o Dr. Bruno Borges de Carvalho Barros,
otorrinolaringologista pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia, a
anatomia e o funcionamento dessas estruturas ajudam a explicar várias curiosidades
que experimentamos no cotidiano.
Por que o nariz começa a escorrer durante uma corrida?
O exercício físico pode desencadear alterações na mucosa nasal e
aumentar a secreção em algumas pessoas. “É possível apresentar coriza durante o
exercício sem estar doente. Se isso acontece eventualmente e apenas durante
determinada atividade, pode estar relacionado à própria resposta nasal ao
exercício e ao ambiente. Quando é muito frequente ou prejudica a atividade
física, vale investigar outras condições associadas”, orienta o especialista.
Por que nossa própria voz parece tão estranha em um áudio?
A explicação começa pela forma como escutamos a nós mesmos
enquanto falamos. Nesse momento, percebemos nossa voz por dois caminhos: pelo
som que viaja pelo ar e chega aos ouvidos e também pelas vibrações transmitidas
pelos ossos do crânio, a chamada condução óssea. “Quando ouvimos uma gravação,
perdemos parte dessa experiência da condução óssea. Escutamos a voz
predominantemente como as outras pessoas a recebem pelo ar. Por isso, ela pode
parecer mais aguda, diferente ou até como se não fosse nossa”, explica o
otorrino.
Ou seja: não é necessariamente o celular que está “mudando”
completamente sua voz. A grande diferença é que você está acostumado a ouvi-la
de uma maneira que ninguém mais ouve.
Por que choramos e o nariz começa a escorrer?
Nariz e olhos possuem uma comunicação anatômica e parte das
lágrimas produzidas nos olhos é drenada pelo sistema lacrimal em direção à
cavidade nasal. Quando choramos bastante, há um volume maior de lágrimas, e
parte desse líquido chega ao nariz.
“É por isso que, depois de alguns minutos chorando, a pessoa
começa a fungar e sente necessidade de assoar o nariz. Não significa
necessariamente que ela ficou gripada ou que desenvolveu rinite naquele
momento. Existe uma ligação anatômica entre essas regiões”, explica o médico.
Por que comida apimentada faz o nariz escorrer?
Uma das explicações está na chamada rinite gustativa, uma forma de
rinite não alérgica na qual determinados alimentos, especialmente os muito
quentes ou picantes, podem estimular mecanismos nervosos responsáveis pelo
aumento das secreções nasais. “A pessoa pode comer algo apimentado e
imediatamente perceber o nariz escorrendo. É uma resposta desencadeada pelo
alimento e não deve ser automaticamente interpretada como alergia alimentar”,
destaca Dr. Bruno.
Por que bocejar pode “desentupir” o ouvido?
O médico conta que isso acontece por causa da tuba auditiva,
estrutura que conecta o ouvido médio à região posterior do nariz e participa da
equalização da pressão. “Movimentos como engolir e bocejar podem favorecer a
abertura da tuba auditiva e ajudar a equilibrar a pressão entre o ouvido médio
e o ambiente. É daí que pode surgir aquela sensação de estalo seguida de
alívio”, explica.
Por que a gripe pode fazer a comida parecer sem gosto?
Quando estamos gripados ou resfriados e o nariz fica
congestionado, as moléculas responsáveis pelos aromas encontram mais
dificuldade para alcançar a região olfatória. “É por isso que a comida pode
parecer sem graça quando estamos com o nariz muito entupido. Muitas vezes, a
pessoa diz que perdeu o paladar, mas uma parte importante da alteração
percebida está relacionada à redução temporária do olfato”, explica Dr. Bruno.
O médico ressalta, porém, que perda súbita, intensa ou persistente
do olfato ou do paladar merece avaliação, principalmente quando não existe uma
obstrução nasal evidente ou quando o sintoma permanece depois que o quadro
respiratório já melhorou.
“Essas curiosidades mostram como ouvido, nariz, garganta, voz,
olfato e paladar não funcionam de maneira isolada. Muitas situações que parecem
estranhas têm uma explicação anatômica ou fisiológica relativamente simples. O
mais importante é diferenciar fenômenos passageiros do dia a dia de sintomas
persistentes ou acompanhados de outros sinais que precisam ser investigados”,
finaliza o otorrinolaringologista.
FONTE:
Dr. Bruno Borges de Carvalho Barros - Médico especialista em otorrinolaringologia pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e cirurgia cervico-facial. Mestre e fellow pela Universidade Federal de São Paulo.
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