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sábado, 17 de outubro de 2026

Por que uma eleição consegue acabar com uma amizade? Psicanalista explica

Uma reflexão psicanalítica sobre o fanatismo, a agressividade e a dificuldade de conviver com as diferenças


Em períodos eleitorais, não é raro que amizades de muitos anos sejam abaladas por divergências políticas. Pessoas que compartilharam experiências, afetos e histórias de vida passam a se estranhar, evitam encontros e, em situações mais extremas, rompem relações. O que acontece para que uma escolha eleitoral adquira tamanha importância a ponto de ameaçar vínculos construídos ao longo de décadas? 

Segundo Anette Blaya, psiquiatra e psicanalista da FEBRAPSI (Federação Brasileira de Piscanálise) do ponto de vista psicanalítico, uma escolha política não representa apenas uma opinião sobre candidatos ou propostas de governo. Ela pode estar profundamente relacionada à história pessoal, aos valores, às identificações e à maneira como cada indivíduo compreende a si mesmo e ao mundo. Quando determinadas convicções passam a integrar aspectos fundamentais da identidade, a discordância do outro pode ser vivida não como uma diferença de pensamento, mas como uma ameaça àquilo que somos ou acreditamos ser.

É justamente por isso que as divergências políticas costumam provocar reações tão intensas entre pessoas próximas. Esperamos, muitas vezes sem perceber, que aqueles que amamos e admiramos compartilhem nossas convicções fundamentais. Descobrir que um amigo querido, considerado inteligente, sensível e generoso, defende posições que julgamos inaceitáveis pode produzir uma experiência de profundo estranhamento. Não se trata apenas de discordar de sua escolha, mas de perceber que a imagem que construímos daquela pessoa talvez não corresponda inteiramente à realidade.

“Nossas relações são atravessadas por expectativas e idealizações. Não nos relacionamos apenas com o outro tal como ele é, mas também com a representação que construímos dele. Quando essa imagem é contrariada, podemos experimentar decepção, raiva e até sentimentos de traição. A eleição, nesse sentido, nem sempre cria uma diferença entre amigos. Muitas vezes, apenas torna visível uma diferença que já existia, mas que ainda não havia sido confrontada”, explica.
 

Necessidade de convencer o outro

Anette conta que outro aspecto importante é a necessidade, por vezes quase compulsiva, de convencer o outro. Durante as campanhas eleitorais, multiplicam-se discussões, mensagens e argumentos destinados a demonstrar que determinada posição é a correta. Entretanto, nem sempre essa insistência corresponde a um verdadeiro desejo de diálogo. Em algumas situações, convencer o outro significa também buscar uma confirmação das próprias certezas. Quando alguém que estimamos pensa de maneira radicalmente diferente, nossa segurança pode ser abalada. A divergência passa a ser experimentada como uma ferida narcísica, especialmente quando existe pouca tolerância à dúvida, à frustração e à possibilidade de não termos todas as respostas.

“É nesse ponto que podemos compreender uma das raízes psicológicas do fanatismo. A adesão incondicional a uma ideia, a um líder ou a uma causa pode funcionar como uma defesa contra sentimentos de insegurança e desamparo. A certeza absoluta oferece uma tranquilidade ilusória: dispensa a dúvida, afasta as ambiguidades e organiza um mundo complexo em categorias aparentemente simples, divididas entre o certo e o errado, o bem e o mal, os que estão conosco e os que estão contra nós”, diz a psicanalista.
 

O fanatismo

O fanatismo, embora possa aparentar uma convicção inabalável, encobre justamente o contrário: uma fragilidade emocional que não suporta ser confrontada com a diferença. O diferente de nós passa a ser visto como nosso inimigo. Quem possui maior segurança interna tende a não precisar da concordância permanente dos outros para sustentar suas próprias ideias. Uma convicção pode ser profunda sem ser fanática. O que caracteriza o fanatismo é a rigidez e a impossibilidade de admitir a dúvida, a contradição e a legitimidade de outras perspectivas.

“Há ainda um aspecto importante a considerar: a agressividade que algumas pessoas manifestam diante das divergências políticas. Muitas vezes, essa hostilidade não se explica apenas pela intensidade das convicções, mas também por frustrações, ressentimentos e experiências dolorosas que não encontraram possibilidades de elaboração ao longo da vida. Sentimentos de impotência, humilhação, fracasso ou inveja podem permanecer guardados, alimentando uma agressividade que encontra nas disputas políticas uma oportunidade de expressão”, fala.

Nessas circunstâncias, aquele que pensa diferente deixa de ser percebido como alguém que possui outras ideias e passa a ser considerado um inimigo, uma ameaça que precisa ser combatida e, simbolicamente e até efetivamente, eliminada. O outro precisa estar errado, precisa ser mal, para que a agressividade dirigida contra ele encontre uma justificativa. Assim, a violência com que alguém combate o pensamento alheio pode revelar menos a força de suas convicções do que a intensidade dos conflitos que não consegue reconhecer dentro de si.

Freud, em sua reflexão sobre a psicologia das massas, chamou a atenção para a força das identificações grupais e para as transformações que podem ocorrer no comportamento dos indivíduos quando estão emocionalmente envolvidos com um grupo. O sentimento de pertencimento oferece segurança, mas pode também favorecer a redução da capacidade crítica e a hostilidade em relação àqueles que são percebidos como adversários. Em um ambiente de intensa polarização, torna-se mais fácil dividir o mundo entre os que pensam como nós e os que pensam de maneira diferente, empobrecendo nossa capacidade de reconhecer a complexidade humana.

Assim, um amigo que esteve presente em momentos difíceis, que demonstrou generosidade e com quem compartilhamos experiências importantes pode passar a ser definido exclusivamente por sua preferência eleitoral. Tudo o que conhecíamos a seu respeito parece perder valor diante de uma única divergência.

“Esse funcionamento revela uma dificuldade fundamental: a de reconhecer que o outro é um sujeito separado de nós, com uma história própria, desejos, valores e contradições que não precisam coincidir com os nossos. A capacidade de aceitar essa separação constitui uma importante conquista do amadurecimento emocional. Desde a infância, precisamos aprender que as pessoas que amamos não existem apenas para corresponder às nossas expectativas. Reconhecer essa realidade implica suportar frustrações e abandonar, gradualmente, a ilusão de que podemos controlar o outro ou garantir sua concordância”, explica Anette.

Na vida adulta, essa conquista continua sendo colocada à prova. Quanto mais frágil for nossa segurança interna, maior poderá ser a necessidade de encontrar no ambiente a confirmação de nossas certezas. Por outro lado, uma identidade mais integrada favorece a possibilidade de conviver com divergências sem experimentá-las necessariamente como ameaças pessoais.

Isso não significa que todas as diferenças devam ser relativizadas. Existem escolhas políticas que expressam valores profundamente incompatíveis com os nossos, assim como situações em que o desrespeito, a agressividade ou a humilhação tornam legítimo o afastamento. Preservar uma amizade não exige renunciar às próprias convicções, tampouco aceitar comportamentos ofensivos. Entretanto, é importante distinguir uma incompatibilidade real de uma reação impulsiva à frustração de descobrir que alguém de quem gostamos não pensa como nós.

Vivemos em uma época em que as redes sociais frequentemente estimulam respostas imediatas, julgamentos categóricos e posicionamentos radicalizados. A velocidade da comunicação parece reduzir o espaço para a reflexão. Reagimos antes de pensar, compartilhamos antes de compreender e, muitas vezes, condenamos antes de escutar.

Talvez um dos maiores desafios dos períodos eleitorais seja preservar nossa capacidade de pensar, de escutar e de reconhecer a humanidade daqueles que não compartilham nossas escolhas. A maturidade emocional não se expressa pela ausência de conflitos, mas pela possibilidade de enfrentá-los sem destruir necessariamente os vínculos. Em um mundo tão polarizado isso pode ficar bem difícil de ser conseguido.

A verdadeira segurança emocional não está na necessidade de ter sempre razão, mas na capacidade de sustentar nossas convicções sem precisar anular o pensamento do outro.


FEBRAPSI
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