Uma reflexão psicanalítica sobre
o fanatismo, a agressividade e a dificuldade de conviver com as diferenças
Em períodos eleitorais, não é raro que amizades de muitos anos sejam abaladas
por divergências políticas. Pessoas que compartilharam experiências, afetos e
histórias de vida passam a se estranhar, evitam encontros e, em situações mais
extremas, rompem relações. O que acontece para que uma escolha eleitoral
adquira tamanha importância a ponto de ameaçar vínculos construídos ao longo de
décadas?
Segundo
Anette Blaya, psiquiatra e psicanalista da FEBRAPSI (Federação
Brasileira de Piscanálise) do ponto de vista psicanalítico, uma
escolha política não representa apenas uma opinião sobre candidatos ou
propostas de governo. Ela pode estar profundamente relacionada à história
pessoal, aos valores, às identificações e à maneira como cada indivíduo
compreende a si mesmo e ao mundo. Quando determinadas convicções passam a
integrar aspectos fundamentais da identidade, a discordância do outro pode ser
vivida não como uma diferença de pensamento, mas como uma ameaça àquilo que
somos ou acreditamos ser.
É
justamente por isso que as divergências políticas costumam provocar reações tão
intensas entre pessoas próximas. Esperamos, muitas vezes sem perceber, que
aqueles que amamos e admiramos compartilhem nossas convicções fundamentais.
Descobrir que um amigo querido, considerado inteligente, sensível e generoso, defende
posições que julgamos inaceitáveis pode produzir uma experiência de profundo
estranhamento. Não se trata apenas de discordar de sua escolha, mas de perceber
que a imagem que construímos daquela pessoa talvez não corresponda inteiramente
à realidade.
“Nossas
relações são atravessadas por expectativas e idealizações. Não nos relacionamos
apenas com o outro tal como ele é, mas também com a representação que
construímos dele. Quando essa imagem é contrariada, podemos experimentar
decepção, raiva e até sentimentos de traição. A eleição, nesse sentido, nem
sempre cria uma diferença entre amigos. Muitas vezes, apenas torna visível uma
diferença que já existia, mas que ainda não havia sido confrontada”, explica.
Necessidade de convencer o outro
Anette
conta que outro aspecto importante é a necessidade, por vezes quase compulsiva,
de convencer o outro. Durante as campanhas eleitorais, multiplicam-se
discussões, mensagens e argumentos destinados a demonstrar que determinada
posição é a correta. Entretanto, nem sempre essa insistência corresponde a um
verdadeiro desejo de diálogo. Em algumas situações, convencer o outro significa
também buscar uma confirmação das próprias certezas. Quando alguém que
estimamos pensa de maneira radicalmente diferente, nossa segurança pode ser
abalada. A divergência passa a ser experimentada como uma ferida narcísica,
especialmente quando existe pouca tolerância à dúvida, à frustração e à
possibilidade de não termos todas as respostas.
“É
nesse ponto que podemos compreender uma das raízes psicológicas do fanatismo. A
adesão incondicional a uma ideia, a um líder ou a uma causa pode funcionar como
uma defesa contra sentimentos de insegurança e desamparo. A certeza absoluta
oferece uma tranquilidade ilusória: dispensa a dúvida, afasta as ambiguidades e
organiza um mundo complexo em categorias aparentemente simples, divididas entre
o certo e o errado, o bem e o mal, os que estão conosco e os que estão contra
nós”, diz a psicanalista.
O fanatismo
O
fanatismo, embora possa aparentar uma convicção inabalável, encobre justamente
o contrário: uma fragilidade emocional que não suporta ser confrontada com a
diferença. O diferente de nós passa a ser visto como nosso inimigo. Quem possui
maior segurança interna tende a não precisar da concordância permanente dos
outros para sustentar suas próprias ideias. Uma convicção pode ser profunda sem
ser fanática. O que caracteriza o fanatismo é a rigidez e a impossibilidade de
admitir a dúvida, a contradição e a legitimidade de outras perspectivas.
“Há
ainda um aspecto importante a considerar: a agressividade que algumas pessoas
manifestam diante das divergências políticas. Muitas vezes, essa hostilidade
não se explica apenas pela intensidade das convicções, mas também por
frustrações, ressentimentos e experiências dolorosas que não encontraram
possibilidades de elaboração ao longo da vida. Sentimentos de impotência,
humilhação, fracasso ou inveja podem permanecer guardados, alimentando uma
agressividade que encontra nas disputas políticas uma oportunidade de
expressão”, fala.
Nessas
circunstâncias, aquele que pensa diferente deixa de ser percebido como alguém
que possui outras ideias e passa a ser considerado um inimigo, uma ameaça que
precisa ser combatida e, simbolicamente e até efetivamente, eliminada. O outro
precisa estar errado, precisa ser mal, para que a agressividade dirigida contra
ele encontre uma justificativa. Assim, a violência com que alguém combate o
pensamento alheio pode revelar menos a força de suas convicções do que a
intensidade dos conflitos que não consegue reconhecer dentro de si.
Freud,
em sua reflexão sobre a psicologia das massas, chamou a atenção para a força
das identificações grupais e para as transformações que podem ocorrer no
comportamento dos indivíduos quando estão emocionalmente envolvidos com um
grupo. O sentimento de pertencimento oferece segurança, mas pode também
favorecer a redução da capacidade crítica e a hostilidade em relação àqueles
que são percebidos como adversários. Em um ambiente de intensa polarização,
torna-se mais fácil dividir o mundo entre os que pensam como nós e os que
pensam de maneira diferente, empobrecendo nossa capacidade de reconhecer a
complexidade humana.
Assim,
um amigo que esteve presente em momentos difíceis, que demonstrou generosidade
e com quem compartilhamos experiências importantes pode passar a ser definido
exclusivamente por sua preferência eleitoral. Tudo o que conhecíamos a seu
respeito parece perder valor diante de uma única divergência.
“Esse
funcionamento revela uma dificuldade fundamental: a de reconhecer que o outro é
um sujeito separado de nós, com uma história própria, desejos, valores e
contradições que não precisam coincidir com os nossos. A capacidade de aceitar
essa separação constitui uma importante conquista do amadurecimento emocional.
Desde a infância, precisamos aprender que as pessoas que amamos não existem
apenas para corresponder às nossas expectativas. Reconhecer essa realidade
implica suportar frustrações e abandonar, gradualmente, a ilusão de que podemos
controlar o outro ou garantir sua concordância”, explica Anette.
Na
vida adulta, essa conquista continua sendo colocada à prova. Quanto mais frágil
for nossa segurança interna, maior poderá ser a necessidade de encontrar no
ambiente a confirmação de nossas certezas. Por outro lado, uma identidade mais
integrada favorece a possibilidade de conviver com divergências sem
experimentá-las necessariamente como ameaças pessoais.
Isso
não significa que todas as diferenças devam ser relativizadas. Existem escolhas
políticas que expressam valores profundamente incompatíveis com os nossos,
assim como situações em que o desrespeito, a agressividade ou a humilhação
tornam legítimo o afastamento. Preservar uma amizade não exige renunciar às
próprias convicções, tampouco aceitar comportamentos ofensivos. Entretanto, é
importante distinguir uma incompatibilidade real de uma reação impulsiva à
frustração de descobrir que alguém de quem gostamos não pensa como nós.
Vivemos
em uma época em que as redes sociais frequentemente estimulam respostas
imediatas, julgamentos categóricos e posicionamentos radicalizados. A
velocidade da comunicação parece reduzir o espaço para a reflexão. Reagimos
antes de pensar, compartilhamos antes de compreender e, muitas vezes,
condenamos antes de escutar.
Talvez
um dos maiores desafios dos períodos eleitorais seja preservar nossa capacidade
de pensar, de escutar e de reconhecer a humanidade daqueles que não
compartilham nossas escolhas. A maturidade emocional não se expressa pela
ausência de conflitos, mas pela possibilidade de enfrentá-los sem destruir
necessariamente os vínculos. Em um mundo tão polarizado isso pode ficar bem
difícil de ser conseguido.
A verdadeira segurança emocional não está na necessidade de ter sempre razão, mas na capacidade de sustentar nossas convicções sem precisar anular o pensamento do outro.
FEBRAPSI
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