Mercado global de bem-estar mental cresce 12,4% ao ano; vivências com arte e som permitem expressão pessoal sem exposição de questões íntimas
O mercado global de bem-estar mental cresceu, em média, 12,4% ao ano entre 2019 e 2024, segundo o Global Wellness Institute. A expansão abrange produtos e serviços voltados à qualidade de vida e compõe o cenário das experiências presenciais com arte, som e atenção plena oferecidas às empresas. Essas atividades propõem uma pausa nos estímulos digitais e um espaço para reconhecer emoções, cansaço e necessidades que passam despercebidos na rotina.
A sobrecarga aparece nos dados sobre o ambiente profissional. Na pesquisa global Work Trend Index de 2025, da Microsoft, 48% dos funcionários e 52% dos líderes disseram que seu trabalho parece caótico e fragmentado. A análise de uso do Microsoft 365 registrou uma média de 117 e-mails recebidos por trabalhador por dia, além das mensagens e reuniões que disputam sua atenção.
“Por que não fiz isso antes?” é uma pergunta que Luciana Ribeiro, terapeuta e CEO do Zetha Group, ouve após experiências imersivas nas empresas. Segundo ela, participantes chegam com a atenção dividida entre compromissos, preocupações e notificações. Ao final, reconhecem quanto precisavam de descanso mental.
“O cansaço pode se tornar tão habitual
que a pessoa deixa de prestar atenção nele. Depois da experiência, ela diz que
precisava daquela pausa e não tinha percebido. Esse reconhecimento permite
olhar para o que precisa mudar no dia a dia”, afirma.
Expressar sem precisar explicar
Um dos diferenciais da arte e do som, segundo Luciana, é permitir uma experiência pessoal sem exigir exposição verbal. “Às vezes existe algo muito íntimo que a pessoa não quer ou não consegue colocar em palavras. Ela sabe o que aquela experiência despertou, mas não precisa contar sua história, explicar o desenho ou falar diante do grupo. É possível participar e preservar a própria intimidade”, explica.
No ambiente corporativo, essa liberdade exige participação voluntária e respeito à privacidade. As atividades não devem servir para avaliar profissionais ou pressioná-los a revelar sentimentos. O uso da arte no cuidado também é objeto de pesquisa. Uma revisão publicada em 2019 pelo escritório europeu da Organização Mundial da Saúde reuniu resultados de mais de 3 mil estudos e identificou contribuições das artes para a promoção da saúde e o cuidado ao longo da vida. As evidências abrangem práticas e públicos diversos, com resultados que variam conforme a intervenção e o contexto.
Quando o cansaço vira rotina
A Organização Mundial da Saúde identifica cargas excessivas, jornadas longas ou inflexíveis e pouco controle sobre o trabalho entre os riscos à saúde mental. A entidade descreve o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Suas características incluem exaustão, distanciamento mental ou negatividade em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Para Luciana, o perigo está em adiar o
cuidado enquanto a sobrecarga se acumula. “A rotina pode ser digital, mas o
corpo tem necessidades e limites reais. Estar disponível no telefone não
significa ter condições de assumir mais uma demanda. Precisamos reconhecer
esses limites antes de chegar ao esgotamento”, avalia.
Medidas para reduzir o risco de burnout
A prevenção envolve cuidado individual e mudanças na organização do trabalho. A Organização Mundial da Saúde recomenda intervenções sobre as condições de trabalho, formação de gestores e apoio aos trabalhadores. Segundo a entidade, depressão e ansiedade provocam a perda estimada de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com custo global de US$ 1 trilhão em produtividade.
- Reconhecer sinais
persistentes. Exaustão, afastamento emocional do trabalho e percepção de queda
na capacidade profissional merecem atenção, sobretudo quando comprometem a
rotina.
- Rever demandas e prioridades. Ajustar prazos, recursos e
distribuição de tarefas quando a carga ultrapassa a capacidade da equipe.
- Definir limites de
disponibilidade. Combinar horários e critérios para contatos fora do expediente,
com respeito aos períodos de descanso.
- Criar pausas durante o dia. Reservar intervalos para se afastar das demandas e das notificações, conforme as condições da atividade.
- Preservar a vida fora do
trabalho.
Manter espaço para sono, convivência, movimento e atividades prazerosas.
- Buscar apoio profissional. Procurar avaliação diante
de sintomas persistentes. Nas empresas, oferecer canais seguros de escuta
e encaminhamento.
Experiências com arte, som e outras práticas complementares podem
integrar iniciativas de bem-estar, mas não substituem acompanhamento psicológico
ou médico quando necessário.

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