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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Outubro Rosa: Ciência mostra que movimento e fisioterapia auxiliam na reabilitação do câncer de mama

Ficar inativa prolonga o sofrimento, reduz a massa muscular
 Envato
Especialista em neurociência da dor aponta que exercícios orientados combatem a fadiga oncológica, previnem a rigidez no ombro e devolvem a funcionalidade e o bem-estar às pacientes

 

Durante muito tempo, receber o diagnóstico de câncer de mama vinha acompanhado de uma ordem quase inquestionável: fazer repouso absoluto. Acredita-se que o corpo devia poupar o máximo de energia possível para enfrentar as etapas do tratamento. No entanto, a evolução da oncologia e da fisioterapia provou o exato oposto. Ficar inativa prolonga o sofrimento, reduz a massa muscular e intensifica complicações físicas e emocionais. 

Hoje, a ciência confirma que o movimento e os exercícios terapêuticos não apenas são seguros, mas funcionam como uma terapia adjuvante indispensável. Eles atuam diretamente no controle dos efeitos colaterais provocados pela quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e intervenções cirúrgicas, como a mastectomia ou a quadrantectomia. 

Quando uma mulher passa por cirurgias para a remoção do tumor ou das mamas, é comum surgir o medo de se mover e acabar "magoando" a região operada. Esse medo conduz à imobilidade, o que desencadeia um ciclo prejudicial. A falta de estímulo muscular gera perda progressiva de força, encurtamento dos tecidos ao redor da cicatriz e limitações graves na articulação do ombro, impedindo tarefas simples, como pentear o cabelo ou pegar um objeto no alto da prateleira. 

Além das limitações mecânicas, a inatividade física é uma das maiores vilãs da chamada fadiga oncológica. Diferente do cansaço comum, esse é um esgotamento profundo que não passa apenas descansando na cama. O exercício físico adaptado reverter esse cenário estimula o metabolismo, melhora a circulação e libera hormônios que restauram a energia e o humor. 

"A ideia de que a mulher em tratamento de câncer de mama precisa ficar parada é um mito ultrapassado e perigoso. O corpo humano foi feito para se movimentar, e a inatividade física intensifica a dor, acelera a perda de massa muscular e piora a qualidade de vida. Quando prescrevemos o movimento na dose certa, adotamos mecanismos naturais de alívio da dor e devolvemos a autonomia a essa paciente", explica Pablo Dutra, Fisioterapeuta, Educador Físico e especialista em Saúde Musculoesquelética e Neurociência da Dor. 

A dor associada ao câncer e ao pós-operatório não é apenas um problema no local da cirurgia, ela envolve como o cérebro interpreta o estresse e as emoções do momento. Pesquisas conduzidas no Laboratório de Avaliação em Biomecânica e Neurociências (LABiN) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), integradas pelo fisioterapeuta Pablo Dutra, mostram uma clara relação entre o estado emocional e a capacidade de superação da dor. 

Estudos sobre o comportamento neurofisiológico revelam que fatores como a catastrofização e a sensibilização central reduzem drasticamente a autoeficácia da paciente, ou seja, a confiança na própria capacidade de lidar com o tratamento e a rotina. O movimento orientado atua diretamente nessa engrenagem: à medida que a mulher percebe que consegue movimentar o braço sem perigo, o cérebro reduz os sinais de alerta de dor. A prática regular de exercícios reeduca o sistema nervoso, alivia o medo do movimento e combate estados de ansiedade e depressão associados ao diagnóstico.
 

Como o movimento transforma o tratamento em cada etapa

  • Prevenção do Linfedema: A remoção ou radiação dos linfonodos axilares pode dificultar a drenagem do líquido linfático, gerando inchaço no braço. Exercícios específicos funcionam como uma "bomba muscular", auxiliando o sistema linfático a drenar os fluidos adequadamente;
     
  • Recuperação do Ombro e do Tórax: A fisioterapia recupera a amplitude de movimento do membro afetado, evitando a rigidez e suavizando a retração do tecido cicatricial pós-mastectomia;
     
  • Combate à Sarcopenia e Perda Óssea: A quimioterapia e o bloqueio hormonal (hormonioterapia) podem causar perda acelerada de massa magra e densidade óssea. Fortalecer os músculos protege as articulações e ossos contra fraturas e fraqueza;
     
  • Redução da Fadiga e Melhora do Sono: Atividades físicas aeróbicas e de força regulam os níveis de energia, diminuem a sensação constante de exaustão e proporcionam um sono mais reparador.


Para que o exercício traga todos os seus benefícios sem colocar a paciente em risco, o especialista Pablo Dutra traz alguns cuidados que são essenciais:

  • Avaliação personalizada prévia: Antes de iniciar qualquer rotina, é indispensável passar por uma avaliação com fisioterapeuta oncologicamente informado ou médico responsável.
     
  • Respeite os limites do corpo: Haverá dias de maior indisposição após as sessões de quimioterapia. A intensidade deve adaptar-se ao nível de energia diário da paciente.
     
  • Início gradual e progressivo: Comece com movimentos de mobilidade leve e caminhadas curtas, evoluindo a carga e a duração conforme o ganho de força e condicionamento.
     
  • Cuidado com a higiene da pele e cicatriz: Em caso de pontos recentes ou drenos, siga estritamente as orientações do fisioterapeuta para evitar trações excessivas na pele em fase de cicatrização.
     
  • Acompanhamento profissional: O auxílio de um especialista garante que os ângulos de movimento e as cargas utilizadas protejam a região operada e maximizem os resultados funcionais.

"O tratamento do câncer de mama vai muito além do combate ao tumor. Precisamos cuidar do ser humano por inteiro, garantindo que a mulher termine seu tratamento com o braço funcional, sem dores crônicas e com plena capacidade de viver com independência", conclui Pablo Dutra. 

 

Pablo Henrique Batista Dutra - Fisioterapeuta e Educador Físico, mestre em Fisioterapia pela UFU/UFTM (LABiN) e pós-graduado em Fisiologia do Exercício (UFPR) e Fisioterapia Ortopédica, Traumatológica e Esportiva (Inspirar). Com atuação integrada entre reabilitação clínica, biomecânica e neurociência da dor, pesquisa os impactos da dor, da autoeficácia e de fatores psicossociais no desempenho funcional e na qualidade de vida das pacientes. Defende uma reabilitação humanizada, precisa e estritamente pautada na Prática Baseada em Evidências (PBE).



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