Especialista em neurociência da dor
aponta que exercícios orientados combatem a fadiga oncológica, previnem a
rigidez no ombro e devolvem a funcionalidade e o bem-estar às pacientes
Ficar inativa prolonga o sofrimento, reduz a massa muscular
Envato
Durante muito tempo, receber o diagnóstico de câncer de mama vinha
acompanhado de uma ordem quase inquestionável: fazer repouso absoluto.
Acredita-se que o corpo devia poupar o máximo de energia possível para
enfrentar as etapas do tratamento. No entanto, a evolução da oncologia e da
fisioterapia provou o exato oposto. Ficar inativa prolonga o sofrimento, reduz
a massa muscular e intensifica complicações físicas e emocionais.
Hoje, a ciência confirma que o movimento e os exercícios terapêuticos não apenas são seguros, mas funcionam como uma terapia adjuvante indispensável. Eles atuam diretamente no controle dos efeitos colaterais provocados pela quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e intervenções cirúrgicas, como a mastectomia ou a quadrantectomia.
Quando uma mulher passa por cirurgias para a remoção do tumor ou
das mamas, é comum surgir o medo de se mover e acabar "magoando" a
região operada. Esse medo conduz à imobilidade, o que desencadeia um ciclo
prejudicial. A falta de estímulo muscular gera perda progressiva de força,
encurtamento dos tecidos ao redor da cicatriz e limitações graves na
articulação do ombro, impedindo tarefas simples, como pentear o cabelo ou pegar
um objeto no alto da prateleira.
Além das limitações mecânicas, a inatividade física é uma das
maiores vilãs da chamada fadiga oncológica. Diferente do cansaço comum, esse é
um esgotamento profundo que não passa apenas descansando na cama. O exercício
físico adaptado reverter esse cenário estimula o metabolismo, melhora a circulação
e libera hormônios que restauram a energia e o humor.
"A ideia de que a mulher em tratamento de câncer de mama precisa ficar parada é um mito ultrapassado e perigoso. O corpo humano foi feito para se movimentar, e a inatividade física intensifica a dor, acelera a perda de massa muscular e piora a qualidade de vida. Quando prescrevemos o movimento na dose certa, adotamos mecanismos naturais de alívio da dor e devolvemos a autonomia a essa paciente", explica Pablo Dutra, Fisioterapeuta, Educador Físico e especialista em Saúde Musculoesquelética e Neurociência da Dor.
A dor associada ao câncer e ao pós-operatório não é apenas um problema no local da cirurgia, ela envolve como o cérebro interpreta o estresse e as emoções do momento. Pesquisas conduzidas no Laboratório de Avaliação em Biomecânica e Neurociências (LABiN) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), integradas pelo fisioterapeuta Pablo Dutra, mostram uma clara relação entre o estado emocional e a capacidade de superação da dor.
Estudos sobre o comportamento neurofisiológico revelam que
fatores como a catastrofização e a sensibilização central reduzem drasticamente
a autoeficácia da paciente, ou seja, a confiança na própria capacidade de lidar
com o tratamento e a rotina. O movimento orientado atua diretamente nessa engrenagem: à medida
que a mulher percebe que consegue movimentar o braço sem perigo, o cérebro
reduz os sinais de alerta de dor. A prática regular de exercícios reeduca o
sistema nervoso, alivia o medo do movimento e combate estados de ansiedade e
depressão associados ao diagnóstico.
Como
o movimento transforma o tratamento em cada etapa
- Prevenção do Linfedema: A remoção ou radiação dos linfonodos axilares pode
dificultar a drenagem do líquido linfático, gerando inchaço no braço.
Exercícios específicos funcionam como uma "bomba muscular",
auxiliando o sistema linfático a drenar os fluidos adequadamente;
- Recuperação do Ombro e do Tórax: A fisioterapia recupera a amplitude de movimento do membro
afetado, evitando a rigidez e suavizando a retração do tecido cicatricial
pós-mastectomia;
- Combate à Sarcopenia e Perda Óssea: A quimioterapia e o bloqueio hormonal (hormonioterapia)
podem causar perda acelerada de massa magra e densidade óssea. Fortalecer
os músculos protege as articulações e ossos contra fraturas e fraqueza;
- Redução da Fadiga e Melhora do Sono: Atividades físicas aeróbicas e de força regulam os níveis de
energia, diminuem a sensação constante de exaustão e proporcionam um sono
mais reparador.
Para que o exercício traga todos os
seus benefícios sem colocar a paciente em risco, o especialista Pablo Dutra
traz alguns cuidados que são essenciais:
- Avaliação personalizada prévia: Antes de iniciar qualquer rotina, é indispensável passar por
uma avaliação com fisioterapeuta oncologicamente informado ou médico
responsável.
- Respeite os limites do corpo: Haverá dias de maior indisposição após as sessões de quimioterapia.
A intensidade deve adaptar-se ao nível de energia diário da paciente.
- Início gradual e progressivo: Comece com movimentos de mobilidade leve e caminhadas
curtas, evoluindo a carga e a duração conforme o ganho de força e
condicionamento.
- Cuidado com a higiene da pele e cicatriz: Em caso de pontos recentes ou drenos, siga estritamente as
orientações do fisioterapeuta para evitar trações excessivas na pele em
fase de cicatrização.
- Acompanhamento profissional: O auxílio de um especialista garante que os ângulos de
movimento e as cargas utilizadas protejam a região operada e maximizem os
resultados funcionais.
"O tratamento do câncer de mama vai muito além do combate ao tumor. Precisamos cuidar do ser humano por inteiro, garantindo que a mulher termine seu tratamento com o braço funcional, sem dores crônicas e com plena capacidade de viver com independência", conclui Pablo Dutra.
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