Entre a exigência de ensinar divertindo e o cerco da vigilância digital, a educação esvazia a figura do mestre. Qual caminho para o professor nessa encruzilhada?
Mestra Silvina
Vesti a memória
com meu mandrião balão.
Centrei
nas mãos meu vintém de cobre.
Oferta
de uma infância pobre, inconsciente, ingênua,
revivida
nestas páginas.
Minha escola
primária, fostes meu ponto de partida,
dei
voltas ao mundo.
Criei
meus mundos...
Minha
escola primária. Minha memória reverencia minha velha Mestra.
Nas
minhas festivas noites de autógrafos, minhas colunas de jornais
e
livros está sempre presente minha escola primária.
Eu
era menina do banco das mais atrasadas.
(CORALINA,
2008, p. 124)
Neste poema,
de Cora Coralina, vemos o eu lírico fazer desfilar diante de nossos olhos o
longo percurso de Aninha, sentada outrora tão pequena no banco das mais
atrasadas, no espaço de uma escola velha e pobre, tão pobre, regida pela figura
da Mestra Silvina. A despeito da dureza do infortúnio, a menina cresce,
torna-se escritora, dá voltas ao mundo, cria mundos e, no deslumbramento
festivo de suas noites de autógrafo, quem se impõe em sua lembrança acima de
tudo e de todos é a velha mestra, que surge iluminada. Movida por
essa memória, a discípula de ontem reverencia a educadora, reconhecendo-se como
fruto direto daquele trabalho pedagógico, paciente e iluminador.
Certa vez,
questionado sobre a eficácia de seus métodos analíticos, o psicanalista francês
Jacques Lacan ponderou que o valor de um analista se mede pelos resultados que
produz — sendo, portanto, seus próprios analisandos os seus resultados, muitos
dos quais se tornaram colegas de escola do próprio Lacan. Para o
professor, a lógica deveria ser exatamente a mesma: sua validade e seus méritos
deveriam ser julgados em conformidade com os seus resultados, ou seja, pela
aprendizagem de seus próprios alunos. Contudo, a
realidade que se impõe hoje está longe de refletir essa premissa,
convertendo-se em um dos fatores cruciais que acentuam o profundo mal-estar
docente na contemporaneidade.
A felicidade, ao invés da aprendizagem, ou uma aprendizagem feliz
Em um mundo
em que a educação é uma mercadoria, o aluno um cliente e o professor é um
prestador de serviço, vale a máxima: o cliente
sempre tem razão. Além do mais, um
cliente satisfeito permanece, fala bem da instituição e a indica para outros
clientes em potencial. Essa lógica também se aplica às instituições públicas de
ensino, que se debatem contra a evasão. O que, porém, garante a satisfação do
cliente? Do ponto de vista do trabalho do professor, não basta que ele seja
perito no conteúdo que ensina e que o saiba transmitir bem. Como discute Gilles
Lipovetsky, em seu livro A sociedade da sedução, os pais ao enviarem
seus filhos para escola buscam, como bem supremo, não é a aprendizagem deles,
mas sobretudo que sejam felizes. Assim, o que é posto para os professores é que ensinem as crianças, mas que o
façam de um modo que seja divertido, prazeroso, de modo a evitar o tédio, tendo
como resultado que aprendam de modo feliz.
Nada mais
controverso, tendo em mente a natureza do processo educativo. Sigmund Freud, em
seu texto Formulações sobre os dois princípios de
funcionamento psíquico, de 1911, já dizia
claramente que, quando a educação visa o prazer imediato do estudante, o prazer
do processo, e não o prazer resultante de aprender, ela fracassa. Aprender não é fácil — exige trabalho, disciplina,
concentração, foco. Exige abrir mão da satisfação imediata do lazer, da
diversão, para se conquistar um outro prazer, o do aprendizado do conteúdo
ensinado, aquele selecionado pelas instituições de ensino como sendo um legado
digno de ser repassado de uma geração para outra.
Era a isso que Freud estava se referindo ao dizer que a educação visa à
superação do princípio de prazer, substituindo-o pelo princípio de realidade.
Como se pode ver, nada mais contraditório quando se pede ao professor que, ao
mesmo tempo que ensine e busque a aprendizagem do aluno, também garanta sua
satisfação imediata e sua felicidade.
Sorria, professor, você está sendo filmado
Além da
exigência paradoxal de ensinar divertindo, o professor contemporâneo vive
imerso em um processo constante de autovigilância e controle, nos moldes
daquilo que Michel Foucault diagnosticou em sua obra Vigiar e
Punir (1975). Hoje, em uma realidade onde a
maioria dos alunos possui um smartphone à mão dentro ou fora
da sala de aula, uma foto ou um vídeo capturado de forma isolado e fora de
contexto pode rapidamente transformar-se em instrumento de reclamação, gerando
pequenos ou grandes desgastes à imagem e à integridade do docente. Esse cenário
de vigilância panóptica intensifica-se ainda mais em instituições voltadas a
bebês e crianças pequenas, cujas salas de aula – muitas delas, é claro - vêm
equipadas com câmeras de vídeo que permitem aos responsáveis o acompanhamento
integral e em tempo real de cada ato pedagógico.
Em uma
sociedade tão plural e diversificada, o professor depara-se, simultaneamente,
com a injunção de entreter para ensinar e com o cerco de uma fiscalização
instantânea e permanente. Se, por um lado, seria legítimo e necessário que o
docente fosse avaliado pelos resultados substantivos de seu trabalho — tendo
como parâmetro incontornável a efetiva aprendizagem dos alunos —, por outro, o
que se observa é um esvaziamento progressivo da função docente, fator que
aprofunda de maneira dramática o mal-estar na profissão. Que essa angústia
estrutural, contudo, não sirva para paralisar a prática educativa, mas antes se
converta em combustível para a reinvenção criativa daquilo que significa
ensinar nos dias de hoje.
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