Estar conectado o tempo todo não significa,
necessariamente, estar em contato consigo mesmo. Em uma cultura na qual
compartilhar experiências, conquistar seguidores e construir uma imagem pública
fazem parte da rotina, a necessidade de aprovação externa pode influenciar a
maneira como as pessoas percebem o próprio valor. Esse fenômeno, chamado de
“cibernarcisismo”, é um dos temas abordados pela professora, pesquisadora e
pós-graduanda em Neurociência, Neuromarketing e Narrativas de Impacto, Lygia
Flaiano Nyikos no livro Ser é a nova revolução – Da performance à presença:
um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito,
publicado pela Editora Labrador.
A autora discute como as redes sociais transformaram a exposição pessoal em uma
atividade permanente. Nesse ambiente, cada indivíduo assume os papéis de produto,
personagem e promotor de si mesmo, selecionando imagens, experiências e
discursos para construir uma identidade que encontre aceitação pública. A
questão, segundo Lygia, surge quando a percepção de quem somos passa a depender
excessivamente da reação dos outros.
“Quando mostrar-se vira uma necessidade diária, começamos a confundir nossa
existência com a imagem que projetamos. É como se precisássemos de uma plateia
para confirmar que estamos vivendo”, reflete Lygia Nyikos.
O paradoxo está na distância entre o discurso de individualidade e a
dependência da validação externa. Curtidas, comentários e número de seguidores
podem se tornar referências para medir valor pessoal e sucesso, enquanto
experiências que não rendem exposição perdem espaço. A identidade passa a ser
editada como um feed: filtrada, organizada e adaptada às expectativas alheias.
Essa lógica também alcança a maneira como as pessoas apresentam o próprio
bem-estar. Em vez de simplesmente viver momentos de satisfação, cresce a
pressão para parecer feliz, produtivo, saudável e realizado. O autocuidado,
nesse cenário, corre o risco de se transformar em mais uma tarefa de
desempenho, submetida à comparação e à aprovação pública.
“Existe uma diferença entre estar satisfeito com a própria vida e precisar
demonstrar satisfação o tempo inteiro. Quando tudo precisa parecer
extraordinário, até os momentos de descanso podem virar uma obrigação de
performance”, afirma.
Para a autora, a exposição contínua pode reduzir o espaço reservado à
intimidade, ao silêncio e à reflexão sem interferência externa. A busca por
autenticidade, quando subordinada à aprovação digital, corre o risco de
produzir o efeito contrário: uma vida cada vez mais orientada pelo olhar
alheio. O resultado é o que ela descreve como uma espécie de “solidão com
filtro”, na qual a conexão virtual não garante uma relação mais profunda
consigo ou com os outros.
Como alternativa, Lygia propõe recuperar momentos de presença fora das telas.
Tomar um café sem consultar o celular, ler um livro físico ou reservar períodos
para atividades sem exposição são exemplos de pausas que ajudam a interromper o
impulso de buscar estímulos e reconhecimento a todo instante.
“Descer da vitrine é reconhecer que nossa vida não precisa ser exibida para ter
valor. Existir com verdade, mesmo quando ninguém está olhando, é parte do
caminho para recuperar a presença”, diz.
Em Ser
é a nova revolução, Lygia relaciona o tema à atenção, aos hábitos,
às emoções e à autorregulação. Com referências à neurociência e exercícios
práticos, a obra propõe uma reflexão sobre como conciliar trabalho, realização
pessoal e relações sem transformar a existência em uma sequência ininterrupta
de cobranças. A proposta não é abandonar a tecnologia, mas construir uma
relação mais consciente com ela e com a própria identidade.

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