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sábado, 17 de outubro de 2026

Cibernarcisismo: como as redes sociais influenciam a percepção sobre quem somos

  

Em "Ser é a nova revolução", Lygia Nyikos analisa como a exposição constante, a busca por curtidas e a pressão para demonstrar felicidade podem afastar as pessoas da própria identidade

 

Estar conectado o tempo todo não significa, necessariamente, estar em contato consigo mesmo. Em uma cultura na qual compartilhar experiências, conquistar seguidores e construir uma imagem pública fazem parte da rotina, a necessidade de aprovação externa pode influenciar a maneira como as pessoas percebem o próprio valor. Esse fenômeno, chamado de “cibernarcisismo”, é um dos temas abordados pela professora, pesquisadora e pós-graduanda em Neurociência, Neuromarketing e Narrativas de Impacto, Lygia Flaiano Nyikos no livro Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito, publicado pela Editora Labrador.

A autora discute como as redes sociais transformaram a exposição pessoal em uma atividade permanente. Nesse ambiente, cada indivíduo assume os papéis de produto, personagem e promotor de si mesmo, selecionando imagens, experiências e discursos para construir uma identidade que encontre aceitação pública. A questão, segundo Lygia, surge quando a percepção de quem somos passa a depender excessivamente da reação dos outros.

“Quando mostrar-se vira uma necessidade diária, começamos a confundir nossa existência com a imagem que projetamos. É como se precisássemos de uma plateia para confirmar que estamos vivendo”, reflete Lygia Nyikos.

O paradoxo está na distância entre o discurso de individualidade e a dependência da validação externa. Curtidas, comentários e número de seguidores podem se tornar referências para medir valor pessoal e sucesso, enquanto experiências que não rendem exposição perdem espaço. A identidade passa a ser editada como um feed: filtrada, organizada e adaptada às expectativas alheias.

Essa lógica também alcança a maneira como as pessoas apresentam o próprio bem-estar. Em vez de simplesmente viver momentos de satisfação, cresce a pressão para parecer feliz, produtivo, saudável e realizado. O autocuidado, nesse cenário, corre o risco de se transformar em mais uma tarefa de desempenho, submetida à comparação e à aprovação pública.

“Existe uma diferença entre estar satisfeito com a própria vida e precisar demonstrar satisfação o tempo inteiro. Quando tudo precisa parecer extraordinário, até os momentos de descanso podem virar uma obrigação de performance”, afirma.

Para a autora, a exposição contínua pode reduzir o espaço reservado à intimidade, ao silêncio e à reflexão sem interferência externa. A busca por autenticidade, quando subordinada à aprovação digital, corre o risco de produzir o efeito contrário: uma vida cada vez mais orientada pelo olhar alheio. O resultado é o que ela descreve como uma espécie de “solidão com filtro”, na qual a conexão virtual não garante uma relação mais profunda consigo ou com os outros.

Como alternativa, Lygia propõe recuperar momentos de presença fora das telas. Tomar um café sem consultar o celular, ler um livro físico ou reservar períodos para atividades sem exposição são exemplos de pausas que ajudam a interromper o impulso de buscar estímulos e reconhecimento a todo instante.
“Descer da vitrine é reconhecer que nossa vida não precisa ser exibida para ter valor. Existir com verdade, mesmo quando ninguém está olhando, é parte do caminho para recuperar a presença”, diz.

Em Ser é a nova revolução, Lygia relaciona o tema à atenção, aos hábitos, às emoções e à autorregulação. Com referências à neurociência e exercícios práticos, a obra propõe uma reflexão sobre como conciliar trabalho, realização pessoal e relações sem transformar a existência em uma sequência ininterrupta de cobranças. A proposta não é abandonar a tecnologia, mas construir uma relação mais consciente com ela e com a própria identidade.


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