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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

9 em cada 10 brasileiras conhecem pouco o tratamento mais eficaz e o lugar onde a mulher vive muda até a idade em que ela chega a menopausa

 

Pesquisas revelam desigualdades no acesso ao tratamento e reforçam a importância do EMBRACE, primeiro registro nacional sobre a saúde da mulher nessa fase

 

Aos 43 anos, em média, a mulher brasileira recebe o primeiro diagnóstico de depressão, em plena transição para a menopausa. Ela vive em um país onde a idade da menopausa muda conforme a cidade, onde 9 em cada 10 mulheres conhecem pouco sobre o tratamento mais eficaz para os sintomas e onde o acesso a esse tratamento depende, em boa parte, de ela ser atendida no sistema público ou no privado. 

Os números vêm de estudos brasileiros e latino-americanos recentes, incluindo a pesquisa da ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta sobre a depressão da mulher na menopausa.A pesquisa com todos os dados foi presentada no 20º Congresso Mundial de Menopausa da International Menopause Society, no Rio de Janeiro, em outubro de 2026.

"Quando a ciência fala da mulher na menopausa, ela costuma falar de uma só. O Brasil é feito de muitas: pretas, pardas, brancas, indígenas, urbanas e rurais. Não existe uma menopausa. Existem mulheridades", afirma Fabiane Berta.


Os números

  • 48,6 anos é a idade mediana da menopausa na América Latina, em um estudo com 17.150 mulheres de 47 cidades em 15 países
  • A idade varia de 43,8 anos em Assunção a 53 anos em Cartagena. Morar a mais de 2.000 metros de altitude, ter menor escolaridade ou viver em países de menor renda dobra a chance de uma menopausa mais precoce
  • 92,97% das brasileiras de 40 a 65 anos têm pouco ou nenhum conhecimento sobre terapia hormonal, e só 30,3% se dizem plenamente satisfeitas com a informação que recebem
  • Cerca de 55% das brasileiras com sintomas na pós-menopausa nunca usaram terapia hormonal
  • O não uso chega a 62,59% no sistema público, contra 49,78% no privado
  • Entre os ginecologistas que atendem nos dois sistemas, 76,5% prescrevem mais terapia hormonal no privado. No SUS, as principais barreiras são o custo (68,2%) e a falta de medicação gratuita (61,4%)
  • 68,46% das brasileiras na pós-menopausa relatam secura vaginal, e 51,35% perda de urina durante a atividade física
  • Em 15.734 brasileiras da Pesquisa Nacional de Saúde, o primeiro diagnóstico de depressão na pós-menopausa chega, em média, aos 43 anos, e cerca de metade dos casos surge entre os 40 e os 54 anos, com a maior carga no Centro-Oeste
  • Na pós-menopausa, 74% das mulheres com depressão são tratadas com medicação, e só 16,7% fazem psicoterapia


Para a pesquisadora, os dados mostram que o território participa da biologia. "A altitude, a escola e a renda mudam a idade em que a menopausa chega. A região muda o peso da depressão. O sistema de saúde muda o acesso ao tratamento. A menopausa brasileira tem sotaque, tem CEP e tem território hormonal", diz.

A terapia hormonal é reconhecida pelas principais sociedades médicas como o tratamento mais eficaz para os sintomas da menopausa. "O tratamento existe, e é seguro quando bem indicado. O que precisamos é que a informação e o acesso cheguem a todas as mulheres, em todas as regiões. Nove em cada dez brasileiras ainda conhecem pouco sobre ele. Isso mostra o tamanho do caminho, e também o tamanho do cuidado que ainda pode chegar até elas", afirma Fabiane.

A depressão tem prevalência semelhante antes e depois da menopausa, cerca de 15%, mas que o primeiro diagnóstico surge justamente na transição. Isso muda a forma de cuidar, ja que a transição menopausal é uma janela para olhar a saúde mental da mulher, e não um detalhe da consulta.

As respostas também começam a vir da própria região. No Peru, um instrumento de seis perguntas, aplicado em cerca de dois minutos na atenção primária, ajuda a identificar mulheres que precisam de cuidado especializado. No Brasil, o estudo EMBRACE, primeiro registro nacional de menopausa do país, está presente nos 27 estados e mede sintomas, uso de terapia hormonal, trabalho, conhecimento médico e desigualdades de acesso.

"A ciência internacional é sólida, mas foi construída sem DNA brasileiro. Pela primeira vez, a América Latina começa a contar a própria história com os próprios dados. Cinco regiões, 27 estados, um país continente e um único DNA, o brasileiro. O futuro da menopausa brasileira não vai ser importado. Vai ser construído aqui", conclui. 

 

Fabiane Berta - CRM-SP 151.126 -ginecologista e pesquisadora em menopausa, mestre pela UNIFESP/EPM e doutoranda na mesma instituição, pesquisadora do Science Valley Research Institute e arquiteta do estudo EMBRACE, o primeiro registro nacional de menopausa do Brasil, presente nos 27 estados. É fundadora do MYPAUSA, movimento que já formou mais de 1.000 médicos em todo o país, e do Instituto Fabiane Berta.
Instagram: @dra.fabianeberta


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