Uso de ácidos, séruns e outros cosméticos voltados para adultos pode causar irritações, alergias e até impactos no desenvolvimento infantil
Vídeos de crianças reproduzindo rotinas
de skincare com diversas etapas têm se tornado cada vez mais comuns nas
redes sociais. Séruns, máscaras faciais, esfoliantes e produtos anti-idade
aparecem frequentemente em conteúdos que acumulam milhões de visualizações,
despertando o interesse de crianças e pré-adolescentes. Mas até que ponto esses
cuidados são realmente necessários?
De acordo com a Dra.
Andressa Meline, médica e professora da pós-graduação em Dermatologia da Afya
Goiânia, a preocupação começa quando os cuidados básicos com a pele são
substituídos por rotinas complexas inspiradas no universo adulto. "Muitas
dessas práticas incluem ácidos, esfoliantes, séruns e ativos anti-idade que não
trazem benefícios para a pele infantil e podem provocar irritação, vermelhidão,
ressecamento e sensibilização. Além disso, o uso precoce e desnecessário de
diversos cosméticos aumenta a exposição da criança a substâncias que podem
desencadear alergias e reações adversas", explica.
Segundo a
especialista, a pele infantil possui características muito diferentes da pele
adulta. Mais fina e com a barreira cutânea ainda em desenvolvimento, ela é
naturalmente mais sensível aos agentes químicos presentes em cosméticos.
"Isso faz com que determinadas substâncias penetrem mais facilmente na
pele e aumentem o risco de irritações. Além disso, a criança não possui as
mesmas necessidades dermatológicas de um adulto, como prevenção do
envelhecimento ou tratamento de manchas", enfatiza.
A dermatologista
afirma que a literatura médica não sustenta a necessidade de rotinas elaboradas
de skincare para crianças saudáveis. Pelo contrário, o excesso de produtos pode
comprometer a função de proteção natural da pele. "A barreira cutânea
funciona como um escudo. Quando ela é agredida por produtos inadequados, a pele
perde água, torna-se mais sensível e fica mais vulnerável a irritações,
alergias, inflamações e até infecções", destaca Andressa.
Além das
preocupações dermatológicas, o fenômeno chama a atenção dos pediatras por seus
possíveis impactos emocionais e comportamentais. Para a Dra. Isabela Pires,
médica e professora da pós-graduação em Pediatria da Afya Brasília, a busca
precoce por procedimentos e padrões estéticos pode contribuir para um processo
conhecido como adultização infantil.
"Quando a
criança passa a reproduzir comportamentos e preocupações típicas da vida
adulta, existe um impacto que vai além da pele. Ela pode começar a desenvolver
uma preocupação excessiva com a aparência, influenciada por conteúdos que não
são direcionados à sua faixa etária. A infância deve ser uma fase voltada ao
desenvolvimento saudável, às brincadeiras e à construção da autoestima, e não à
busca por padrões estéticos", ressalta.
A pediatra reforça ainda
a importância de os pais acompanharem o conteúdo consumido pelas crianças nas
redes sociais. Segundo ela, muitos vídeos são produzidos para públicos adultos
e não deixam explícito que determinados produtos não são indicados para
crianças. "A criança pode acreditar que precisa utilizar os mesmos
cosméticos que vê em influenciadores para ser bonita ou aceita socialmente.
Esse tipo de mensagem pode gerar inseguranças e expectativas incompatíveis com
a infância", alerta.
Outro ponto de
atenção é a composição dos cosméticos. Embora existam produtos desenvolvidos especificamente
para o público infantil, especialistas recomendam cautela com formulações que
contenham fragrâncias excessivas, corantes e determinadas substâncias químicas
que possam aumentar o risco de sensibilização da pele. Também é importante
evitar a exposição desnecessária a compostos conhecidos como disruptores
endócrinos, que podem estar presentes em alguns cosméticos e interferir no
equilíbrio hormonal durante uma fase importante do desenvolvimento.
O que realmente é
necessário?
Para a maioria das crianças,
os cuidados com a pele devem ser simples, o que inclui higiene adequada,
hidratação quando necessário e proteção solar diária. Banhos rápidos com água
morna e sabonetes suaves ajudam a preservar a barreira natural da pele. Em
casos de ressecamento ou de condições específicas, como dermatite atópica,
hidratantes apropriados para a faixa etária podem ser utilizados sob orientação
profissional.
Já a proteção solar
é considerada indispensável. O uso de protetor solar adequado para crianças
acima de seis meses ajuda a prevenir queimaduras e danos causados pela radiação
ultravioleta, além de contribuir para a saúde da pele ao longo da vida.
"Na maioria das vezes, menos é mais quando falamos de cuidados com a pele
infantil. Crianças não precisam de rotinas complexas nem de produtos voltados
para adultos. Cuidados simples, seguros e compatíveis com a fase de
desenvolvimento são suficientes para manter a pele saudável", conclui a
Dra. Andressa Meline.
Para a Dra. Isabela
Pires, a principal mensagem para pais e responsáveis é lembrar que a infância
não precisa ser acelerada. "Crianças precisam de amor, atenção,
brincadeiras e cuidados adequados à sua idade. A melhor rotina de skincare
infantil continua sendo aquela baseada em proteção, simplicidade e orientação
profissional quando necessário." conclui a especialista.
10
boas práticas indicadas pelas especialistas
Mantenha uma rotina simples de cuidados, baseada em higiene, hidratação quando necessário e proteção solar, utilizando produtos desenvolvidos especificamente para crianças e adequados à faixa etária.
- Prefira sabonetes suaves, evite banhos muito quentes ou prolongados e leia os rótulos dos cosméticos, dando preferência a produtos com menos fragrâncias, corantes e aditivos desnecessários.
-Não utilize ácidos, esfoliantes, peelings, séruns antienvelhecimento ou outros produtos destinados ao público adulto sem orientação médica.
- Evite o uso excessivo de cosméticos e a aplicação simultânea de vários produtos na pele da criança
- Não compartilhe maquiagens, cremes ou
outros cosméticos entre adultos e crianças.
- Evite aplicar produtos que viralizam
nas redes sociais sem indicação específica para o público infantil.
- Ao introduzir um novo produto, faça um
teste em uma pequena área da pele e fique atento a sinais como vermelhidão,
coceira, ardência ou descamação.
- Converse com as crianças sobre os
conteúdos consumidos nas redes sociais, explicando que nem todas as tendências
são adequadas para sua idade
- Valorize hábitos relacionados à saúde e
ao bem-estar, evitando incentivar preocupações estéticas precoces.
- Em caso de dúvidas ou de alterações
persistentes na pele, procure orientação de um pediatra ou dermatologista.

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