Especialista explica por que muitos homens demoram
a reconhecer que precisam de ajuda e aponta uma diferença de comportamento em
relação às mulheres
"Doutor,
eu não vim porque estou mal. Vim porque não estou conseguindo dormir." Ou
porque o rendimento no trabalho caiu. Porque começou a perder dinheiro. Porque
o relacionamento está em crise. Ou porque surgiu uma dificuldade sexual que
antes não existia.
Esses
são alguns dos sinais que, segundo o psiquiatra Dr. Luís Carlos Murari,
frequentemente levam homens ao consultório. O que chama atenção, porém, é que,
em muitos casos, o sofrimento emocional não é o primeiro motivo que faz esse
homem procurar ajuda. Ele chega quando a saúde mental começa a comprometer
áreas que considera fundamentais para sua identidade e seu funcionamento.
A
observação feita pelo especialista revela uma questão maior: por que tantos
homens conseguem conviver durante meses ou até anos com ansiedade, estresse,
irritabilidade, tristeza e esgotamento, mas decidem buscar ajuda apenas quando
o problema atinge o trabalho, o dinheiro, o sono ou a vida sexual?
Para
Murari, parte da explicação está na maneira como homens são socialmente
ensinados a lidar com a própria vulnerabilidade. A ideia de que é preciso ser
forte, resolver os próprios problemas e não demonstrar fragilidade pode fazer
com que o pedido de ajuda seja interpretado como uma espécie de fracasso.
Na
prática, isso cria um paradoxo: o homem pode admitir que está com insônia muito
antes de admitir que está emocionalmente esgotado. Pode procurar ajuda porque
perdeu produtividade antes de reconhecer que está deprimido. Pode procurar um
médico por uma dificuldade sexual antes de falar sobre ansiedade, depressão ou
problemas no relacionamento.
"Muitos
homens não procuram ajuda quando começam a sofrer. Eles procuram quando o
sofrimento já está afetando alguma coisa que eles não podem mais
ignorar.", explica Murari.
O corpo e o desempenho acabam virando o pedido de socorro
O
comportamento é especialmente interessante porque o sofrimento psíquico nem
sempre aparece de maneira evidente.
Um
homem pode continuar trabalhando, cuidando das responsabilidades e mantendo uma
rotina aparentemente normal enquanto enfrenta um processo de esgotamento. Para
quem está ao redor, ele pode parecer apenas mais irritado, distante ou
sobrecarregado.
Até
que surge um sinal impossível de ignorar.
Ele
não dorme.
Não
consegue mais trabalhar como antes.
Começa
a ter prejuízos financeiros.
Perde
desempenho sexual.
Ou
percebe que o relacionamento está desmoronando.
É
nesse momento que muitos deixam de considerar que precisam apenas
"aguentar" e passam a buscar atendimento.
O
problema, segundo o psiquiatra, é que esperar a situação chegar a esse ponto
pode significar prolongar desnecessariamente o sofrimento.
E as mulheres? O que muda?
O
contraste entre homens e mulheres ajuda a ampliar a discussão.
A
questão não é afirmar que mulheres não demoram para procurar ajuda ou que todas
buscam atendimento precocemente. Mas existe uma diferença cultural importante:
as mulheres costumam ter maior familiaridade social com a ideia de falar sobre
sentimentos, compartilhar dificuldades e buscar cuidado.
Enquanto
uma mulher pode dizer que está ansiosa, sobrecarregada ou emocionalmente
exausta, muitos homens ainda traduzem esse mesmo sofrimento para uma linguagem
mais "aceitável" dentro do universo masculino:
"Estou
estressado."
"Estou
trabalhando demais."
"Não
estou dormindo."
"Estou
sem paciência."
"Estou
com problema de desempenho."
Ou
simplesmente:
"Preciso
resolver isso."
Para
Murari, essa dificuldade de nomear o sofrimento pode atrasar a busca por
cuidado.
A
pergunta que fica: o homem precisa quebrar para pedir ajuda?
Essa
talvez seja a provocação central da pauta.
Se
o homem só percebe que precisa de ajuda quando o sofrimento começa a afetar o
sono, o trabalho, o dinheiro, o desempenho sexual ou o relacionamento, o que
isso revela sobre a maneira como a sociedade ainda enxerga a saúde mental
masculina?
E
mais: quantos homens poderiam ter evitado chegar ao limite se tivessem
procurado ajuda quando os primeiros sinais apareceram?
A
questão ganha ainda mais relevância diante de quadros como ansiedade, depressão
e burnout, que podem se desenvolver de maneira silenciosa e progressiva.
Para
o especialista, o cuidado não deveria começar apenas quando o funcionamento
entra em colapso.
"Saúde
mental não deveria ser procurada apenas quando o homem já não consegue
desempenhar o papel que acredita que precisa desempenhar."
Quando é hora de procurar ajuda?
Segundo
Murari, mudanças persistentes no sono, humor, comportamento, disposição,
concentração, relacionamento e desempenho profissional merecem atenção —
especialmente quando começam a interferir na rotina.
Não
é preciso esperar uma crise para procurar um profissional.
A ideia é justamente inverter essa lógica: pedir ajuda antes de perder o sono, o dinheiro, o relacionamento ou a capacidade de trabalhar.
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