As
vacinas integram o Programa Nacional de Imunizações, afirma a oncologista
especializada em câncer ginecológico Letícia Leis, da Oncologia D’Or de São
Paulo.
A vacina contra o HPV está disponível da rede pública
para meninos e meninas de 9 a 14 anos.
Infecções prolongadas por
certos vírus e bactérias respondem por cerca de 10% dos casos de câncer1.
Esses agentes podem favorecer o desenvolvimento tumoral por diferentes
mecanismos, incluindo inflamação crônica, enfraquecimento da resposta
imunológica e interferência nos controles do crescimento celular. Os principais
agentes associados ao câncer incluem o HPV (papilomavírus humano), o vírus
Epstein-Barr, os vírus das hepatites B e C e a bactéria Helicobacter pylori1.
A boa notícia é que existem
vacinas que previnem os cânceres provocados pelo HPV e pelo vírus da hepatite
B. “Esses imunizantes são seguros, altamente eficazes e fazem parte do
Calendário Nacional de Vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS)”, explica a
oncologista especializada em câncer ginecológico Letícia Leis, da Oncologia
D’Or de São Paulo.
O câncer de colo do útero — ou
câncer cervical — é a principal doença oncológica causada pelo HPV, que também
está relacionado a tumores no canal anal, na vulva, na vagina, no pênis e na
orofaringe, região que inclui principalmente a base da língua, as amígdalas e
também a parte posterior da garganta2. Já o vírus da hepatite B está
associado ao carcinoma hepatocelular, o tipo mais comum de câncer primário do
fígado, isto é, aquele que se origina no próprio órgão.
HPV
Existem mais de 200 tipos de HPV, que podem ser classificados
em grupos de baixo e alto risco. Embora raramente causem câncer, os tipos de
baixo risco podem provocar verrugas nos órgãos genitais, no ânus, na boca e na
garganta. Entre os 12 tipos classificados como de alto risco, o HPV 16 e o HPV
18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero. ²
Praticamente todos os casos
deste tipo de câncer estão relacionados ao HPV. Só em 2026, deverão ser
diagnosticados 19.310 casos3, a maioria em pessoas dos 30 aos 50
anos. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, este é o terceiro câncer
mais incidente entre as mulheres e o segundo mais frequente nas regiões Norte e
Nordeste, cenário que reflete, entre outros fatores, desigualdades no acesso à
vacinação, ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento de lesões
pré-malignas.
A Organização Mundial da Saúde
adotou uma estratégia para eliminar o câncer cervical como problema de saúde
pública4. Até 2030, as metas são vacinar 90% das meninas de até 15
anos, rastrear 70% das mulheres dos 35 aos 45 anos com teste de alto desempenho
e tratar 90% das pessoas com lesões precursoras ou câncer. A eliminação exige
uma incidência inferior a quatro casos por 100 mil mulheres. A Austrália está
entre os países mais avançados5; em 2024, 81,1% das meninas do País
estavam vacinadas aos 15 anos. Em 2021, a incidência foi de 6,3 casos por 100
mil mulheres.
O Brasil introduziu a
vacinação contra o HPV no Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014. Um
estudo populacional brasileiro6, publicado em 2025 na revista
britânica The Lancet Global Health, avaliou diagnósticos de câncer de colo de
útero realizados entre 2019 e 2023 em mulheres de 20 a 24 anos, nascidas entre
1994 e 2003, num total de 60,6 milhões de mulheres-ano. A pesquisa mostrou que
a vacinação contra o HPV foi responsável pela redução em 58% da incidência de
câncer cervical. A imunização também diminuiu em 67% a incidência na neoplasia
intraepitelial cervical grau 3 (NIC 3), alteração nas células do colo do útero
que pode evoluir para câncer se não for tratada.
Hoje, o PNI oferece vacinação
contra o HPV em dose única para meninas e meninos entre 9 e 14 anos7.
Adolescentes de 15 a 19 anos sem histórico vacinal podem receber sua dose em
estratégias de resgates. O SUS também disponibiliza três doses, até os 45 anos,
para pessoas imunodeprimidas, incluindo aquelas que vivem com HIV, receberam
transplante ou estão em tratamento oncológico, além de outros grupos
prioritários. Na rede privada, a vacina nonavalente é licenciada dos 9 aos 45
anos8.
Durante anos, o rastreamento
do câncer cervical baseou-se no exame citopatológico — conhecido como
Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de
DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes passaram a recomendá-lo como método
primário, com implementação progressiva9. A coleta é semelhante à do
Papanicolau, mas o teste procura diretamente o material genético do vírus do
HPV. Durante a transição, a citologia também continua sendo utilizada.
“É importante destacar que a
coleta não substitui o exame ginecológico, que é realizado para verificar a
existência de lesões no colo do útero, na vagina e na vulva. Em caso positivo,
uma biópsia poderá ser realizada para ajudar a identificar a origem do
problema”, afirma a médica Letícia Leis.
O HPV também está relacionado
a cânceres de pênis, vagina, vulva, canal anal e orofaringe. Em geral, esses
tumores são mais frequentes após os 60 anos. O câncer de orofaringe associado
ao HPV ocorre principalmente em homens, enquanto o câncer anal pode pessoas de
ambos os sexos, especialmente as imunodeprimidas.10 Como não há
rastreamento de rotina para esses tumores na população geral, sintomas
persistentes devem ser investigados.
Hepatite B
A hepatite B é uma infecção
causada pelo vírus da hepatite B (HBV), transmitido principalmente pelo contato
com sangue e outros fluidos corporais contaminados. A transmissão pode ocorrer
por meio de relações sexuais sem preservativo; compartilhamento de seringas,
agulhas, lâminas de barbear, escovas de dente ou alicates de unha; e da
realização de tatuagens ou piercings quando as normas de segurança não são
respeitadas. O vírus também pode ser transmitido da mãe para o bebê durante a
gestação ou o parto.11
A infecção crônica pelo vírus da hepatite B pode provocar cirrose e aumentar o risco de carcinoma hepatocelular, inclusive em algumas pessoas que não desenvolveram cirrose. ¹¹,12 Trata-se do tipo mais comum de câncer primário do fígado e responde por entre 75 e 90% dos casos. ¹² A doença é mais frequente entre os homens e ocorre principalmente em pessoas mais velhas. Em registros populacionais, a maior proporção dos cânceres hepáticos é diagnosticada entre os 65 e os 74 anos, com idade mediana ao diagnóstico de 68 anos. ¹³

As crianças recebem uma dose da vacina contra hepatite B
ao nascer, seguida de doses aos 2, 4 e 6 meses
Para cada ano do triênio
2026–2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 12.350 novos casos de
câncer de fígado no Brasil, sendo 7.340 em homens e 5.010 em mulheres. ³
A vacinação contra a hepatite
B está disponível no SUS para pessoas de todas as idades. ⁷ As crianças recebem
uma dose ao nascer, preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida, seguida
de doses aos 2, 4 e 6 meses com a vacina pentavalente. A partir dos 7 anos,
quem não tiver completado pelo menos três doses deve iniciar ou completar o
esquema com a vacina contra a hepatite B, geralmente nos meses zero, um e seis,
sem necessidade de reiniciar doses já recebidas. ⁷
O tratamento do carcinoma
hepatocelular depende principalmente da extensão e das características do
tumor, do funcionamento do fígado e do estado clínico da pessoa.¹² Entre as
opções estão cirurgia, transplante hepático, ablação — que destrói o tumor por
meio de calor ou outras técnicas —, tratamentos realizados diretamente nos
vasos que irrigam o tumor, radioterapia e tratamentos sistêmicos.
Nos casos mais avançados,
combinações de imunoterápicos entre si ou de imunoterapia com medicamentos que
bloqueiam a formação de vasos sanguíneos, além de terapias-alvo em situações
selecionadas, fazem parte das opções atualmente disponíveis. ¹²
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