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Gastroenterologista do Hospital IGESP explica como os medicamentos podem retardar o esvaziamento gástrico e provocar sintomas como estufamento, refluxo e náusea
O uso de medicamentos análogos de GLP-1, popularmente
conhecidos como canetas emagrecedoras, cresce no Brasil, como aponta a pesquisa
do Instituto Locomotiva, em que 33% dos domicílios brasileiros tinham, em
fevereiro de 2026, pelo menos um morador que usava ou já havia usado esses
medicamentos.
Com a expansão do uso, também ganha relevância a compreensão dos
efeitos dessas terapias no organismo, especialmente no sistema
gastrointestinal. Estudos clínicos apontam que manifestações gastrointestinais
estão entre os eventos adversos mais frequentes associados a essa classe de
medicamentos.
De acordo com Ricardo Viebig, gastroenterologista e diretor
técnico do Núcleo de Motilidade Digestiva e Neurogastroenterologia (MoDiNe) do
Hospital IGESP, os efeitos gastrointestinais estão relacionados, entre outros
fatores, à ação dos medicamentos sobre a motilidade digestiva. “Os análogos de
GLP-1 contribuem para aumentar a sensação de saciedade e podem retardar o
esvaziamento do estômago, fazendo com que os alimentos permaneçam por mais
tempo no órgão. Essa alteração ajuda a explicar por que algumas pessoas podem
sentir o estômago cheio por períodos prolongados, mesmo após refeições
menores”, explica.
O efeito, porém, não se resume à sensação de estômago cheio. A redução
da velocidade do esvaziamento gástrico modifica a dinâmica do processo
digestivo e pode estar associada a sintomas como estufamento, náusea, arrotos e
desconforto após as refeições. Em algumas pessoas, os arrotos podem apresentar
odor mais forte, inclusive semelhante ao de enxofre, em razão da presença de
gases produzidos durante o processo digestivo.
“O refluxo também pode aparecer durante o tratamento. A
permanência do conteúdo no estômago por mais tempo pode favorecer o retorno do
conteúdo gástrico ao esôfago, principalmente quando associada a refeições
volumosas ou à distensão abdominal. A intensidade dos sintomas, no entanto,
varia conforme o medicamento, a dose, o tempo de tratamento e as
características individuais de cada paciente”, acrescenta o médico.
Além desses sintomas, constipação, diarreia e vômitos também estão
entre as manifestações gastrointestinais relatadas durante o uso dos análogos
de GLP-1. “Na maioria dos casos, os sintomas gastrointestinais tendem a ser
mais frequentes no início do tratamento ou durante o aumento da dose e podem
diminuir à medida que o organismo se adapta. Ainda assim, manifestações persistentes
ou intensas devem ser comunicadas ao profissional responsável pelo
acompanhamento”, ressalta.
Outro ponto de atenção envolve o uso de medicamentos por via oral durante o tratamento com análogos de GLP-1. Como esses medicamentos podem retardar o esvaziamento do estômago, existe preocupação sobre possíveis alterações na absorção e, consequentemente, na ação de determinados medicamentos administrados por via oral. “O impacto pode variar de acordo com o tipo de medicamento e as características de cada paciente, o que reforça a necessidade de avaliação médica individualizada antes e durante o tratamento. “Por esta e outras razões, o uso dessas canetas deve ocorrer sob supervisão médica, com avaliação de cada paciente e dos medicamentos utilizados de forma concomitante”, comenta.
Para o
especialista, compreender a relação entre os medicamentos e a motilidade
digestiva é importante tanto para o acompanhamento clínico quanto para a adesão
ao tratamento. “O paciente precisa saber que algumas mudanças na digestão podem
ocorrer durante o tratamento e que a intensidade dos sintomas deve ser
acompanhada. Isso permite ajustar a conduta quando necessário e evitar que um
sintoma persistente seja interpretado apenas como um efeito esperado da
medicação”, finaliza o gastroenterologista Ricardo Viebig.
Rede IGESP

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