Olhar
antes de dar descarga pode salvar vidas já que as características como formato
e consistência das fezes fornecem informações importantes sobre o funcionamento
do intestino de quem usa medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e
terapias relacionadas, usados no tratamento da obesidade e do diabetes. Isso
porque, os medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam também no sistema
gastrointestinal, podem provocar sintomas como náusea, vômitos, constipação,
diarreia, desconforto abdominal e sensação prolongada de estômago cheio.
Segundo
o cirurgião do aparelho digestivo Dr.
Rodrigo Barbosa, mudanças no funcionamento intestinal durante o tratamento
não devem provocar pânico, mas também não precisam ser simplesmente ignoradas.
“Quando
iniciamos um medicamento que interfere no trato gastrointestinal, é possível
perceber mudanças que antes não faziam parte da rotina. O mais importante é
observar a intensidade, a duração e a evolução dos sintomas. Uma alteração
ocasional é diferente de uma mudança persistente do hábito intestinal”,
explica.
Você sabe identificar seu tipo de fezes?
Uma
das ferramentas utilizadas para descrever a consistência das fezes é a Escala de
Bristol, que as divide em tipos:
- Fezes mais endurecidas, fragmentadas ou em formato de salsicha, mas
com aspecto irregular, geralmente associadas à constipação.
- Fezes com consistência mais macia, e costumam representar um padrão
intestinal considerado adequado.
- Fezes de menor consistência, chegando às fezes completamente
líquidas, e podem estar relacionados à aceleração do trânsito intestinal e
à diarreia.
“A
Escala de Bristol é interessante porque transforma algo bastante subjetivo em
uma informação que o próprio paciente consegue observar e relatar. Em vez de
dizer apenas que o intestino ‘mudou’, ele consegue explicar melhor o que está
acontecendo”, afirma Barbosa.
Por que as canetas emagrecedoras podem mexer com o intestino?
Parte
da ação desses medicamentos envolve alterações na motilidade gastrointestinal e
no esvaziamento do estômago, além dos mecanismos relacionados à saciedade. Isso
ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam ficar satisfeitas com
quantidades menores de comida ou sentir que o alimento permanece no estômago
por mais tempo.
O
efeito, entretanto, pode vir acompanhado de desconfortos gastrointestinais,
principalmente em determinadas fases do tratamento ou após ajustes de dose.
No
intestino, as manifestações variam. Algumas pessoas apresentam constipação e
passam a evacuar com menor frequência ou ter fezes mais endurecidas. Outras
podem apresentar episódios de diarreia.
Isso
significa que observar apenas quantas vezes se vai ao banheiro pode não contar
toda a história.
“Uma
pessoa pode evacuar regularmente, mas fazer muito esforço e eliminar fezes
extremamente endurecidas. Outra pode perceber uma mudança importante na
consistência mesmo sem grande alteração na frequência. Por isso, precisamos
avaliar o conjunto”, explica o cirurgião.
Nem toda mudança é culpa do medicamento
Quem
começa um tratamento para perda de peso frequentemente modifica também sua
alimentação. Pode passar a comer porções menores, reduzir determinados grupos
alimentares, consumir mais proteínas ou alterar significativamente a ingestão
de fibras e líquidos. Todas essas mudanças também podem interferir no
funcionamento intestinal.
Por
isso, atribuir automaticamente qualquer sintoma gastrointestinal ao medicamento
pode mascarar outros fatores — e até problemas que não têm relação com o
tratamento.
“Se
o hábito intestinal mudou, precisamos olhar o contexto. Houve mudança na
alimentação? A ingestão de água diminuiu? O paciente está comendo menos fibras?
Começou outro medicamento? Existem sintomas associados? A avaliação não pode se
limitar à caneta”, ressalta Barbosa.
Quando a mudança merece atenção?
Dor
abdominal importante ou progressiva, vômitos persistentes, incapacidade de
manter hidratação, distensão abdominal acentuada, sangue nas fezes, fezes muito
escuras ou mudanças persistentes e inexplicadas do hábito intestinal merecem
avaliação médica.
“Olhar
para o vaso sanitário é essencial para conhecer o próprio padrão intestinal e
ajuda a perceber quando existe uma mudança relevante além de fornecer informações
melhores para a consulta. Se o intestino mudou e não voltou ao seu padrão
habitual, vale entender o motivo”, conclui Dr. Rodrigo Barbosa.
Dr
Rodrigo Barbosa - cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia
bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e
Nove de Julho. CEO do Instituto Medicina em
Foco
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