Especialista alerta para o perigo de cochichar e do uso de pastilhas anestésicas, que podem mascarar lesões e piorar a inflamação nas cordas vocais
Com a chegada do Rock in Rio e a temporada de grandes festivais de música pelo país, a maratona de shows promete exigir muito do corpo, e a voz é frequentemente a primeira a dar sinais de exaustão. Acordar rouco, com a voz fraca ou completamente sem som no dia seguinte a um grande evento é uma queixa comum entre os frequentadores. No entanto, o que muitos consideram apenas um "cansaço passageiro" é, na verdade, resultado de uma sobrecarga mecânica nas cordas (pregas) vocais.
De acordo com a Profa. Joice Carneiro, fonoaudióloga e coordenadora do curso de Fonoaudiologia do Centro Universitário Módulo, durante um show as pessoas tendem a competir inconscientemente com o barulho do ambiente, aumentando drasticamente o esforço vocal.
“Para se fazer ouvir na multidão,
a pessoa aumenta a pressão do ar e a força com que as pregas vocais se chocam.
Como elas vibram milhares de vezes por segundo durante horas seguidas, ocorre
um trauma mecânico no tecido, gerando uma resposta inflamatória e inchaço
(edema). Com as pregas vocais inchadas, a vibração fica irregular e
ineficiente. É por isso que, no dia seguinte, a pessoa acorda rouca ou afônica”,
explica a especialista.
O perigo de cochichar e o uso de pastilhas
Diante da rouquidão, é comum recorrer a soluções caseiras ou paliativas que, na verdade, podem agravar o quadro. A fonoaudióloga destaca dois erros bastante frequentes:
- Tentativa
de sussurrar ou cochichar: muita gente acredita que falar baixinho poupa a voz,
mas o sussurro exige ainda mais tensão e esforço da musculatura da
laringe. O ideal é praticar o repouso vocal relativo, evitando falar
desnecessariamente e dando preferência a mensagens de texto em vez de
áudios, e, quando precisar se comunicar, falar em tom normal e confortável.
- Uso
de pastilhas e sprays anestésicos: produtos refrescantes ou anestésicos aliviam a dor
temporariamente, criando uma falsa sensação de melhora. Ao não sentir o
desconforto, a pessoa volta a forçar a voz sobre um tecido que continua
inflamado, piorando a lesão.
Guia de primeiros socorros para a voz
Para acelerar a recuperação vocal após abuso em shows, a docente lista os principais cuidados:
- Hidratação
intensa:
ingerir entre 2 e 3 litros de água por dia. A água não passa diretamente
pelas pregas vocais, mas hidrata o organismo sistemicamente, fluidificando
o muco que recobre a laringe e permitindo uma vibração mais suave e
eficiente.
- Inalação
e ambiente protegido: fazer inalações com soro fisiológico ajuda a umedecer
as vias aéreas. Além disso, evite ambientes com fumaça, cigarro/vape,
poeira e ar-condicionado excessivo, que ressecam a mucosa.
- Repouso
e sono de qualidade: o álcool e a privação de sono combinados ao esforço
vocal desidratam o corpo e retardam a regeneração tecidual. Dormir bem é
parte fundamental do tratamento.
Quando buscar ajuda médica?
A rouquidão aguda após um show costuma atingir seu pico entre 24 e 48 horas. Com repouso vocal e hidratação, a tendência é que a voz recupere gradualmente o timbre normal ao longo dos dias.
No entanto, a especialista
alerta para os sinais de gravidade: “Se a pessoa continuar completamente sem
voz ou se a melhora for mínima após 7 dias, é fundamental buscar uma avaliação
especializada com um otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo. A persistência
dos sintomas pode indicar lesões mais estruturadas, como nódulos ou pólipos,
que exigem tratamento específico”, conclui a fonoaudióloga.
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