Do peso da culpa à liberdade da responsabilidade.
A origem da culpa
Assim como a maioria das
questões de fundo emocional, a culpa origina-se na primeira infância,
principalmente nas situações de expressão de limites na relação com os pais e a
família.
A medida em que a criança vai crescendo e começa a se expressar e agir com
autonomia, a necessidade dos limites torna-se fundamental. Anteriormente, para
a crianças os pais eram os “deuses” que faziam tudo por elas: agora tornam-se
vilões e são os culpados pela “infelicidade” delas.
Assim, como a criança deduz que
eles estão falhando, logo sente-se rejeitada, não acolhida e frustrada,
e começa a ter posturas agressivas e raivosas. A presença da culpa começa a
emergir. A criança inicia o ato de culpar os pais pelo que está
acontecendo, ou o oposto: a criança começa a se culpar, caso os
pais faltem à atenção, briguem entre eles, se separem...
Segue uma sequência muito
especial que exemplifica claramente isso:
Sequência emocional do Sigmund
Freud:
Falta-
desejo- frustração- raiva- destruição- culpa- autopunição-
reparação.
*Viemos do desamparo,
da vivência inexorável da falta e partimos para o infindável desejo
para preencher o que nunca será preenchido, gerando a frustração
e, por consequência, a raiva, culminando em
destruição e gerando, finalmente, a culpa. Da culpa
à autopunição
(autossabotagem) - e depois buscamos reparar o que
aconteceu.
É muito comum, consciente ou
inconscientemente, carregarmos padrões de culpa em nossa história de vida. O
ato de viver é um aprendizado contínuo e, muitas vezes, escolhemos e agimos de
forma mais impulsiva ou reativa, sem refletir conscientemente sobre o ato em
si, como também, de que forma esse ato reverbera no outro e suas consequências
decorrentes da ação.
Estas escolhas indevidas podem
refletir a falta da presença, maturidade, consciência, transtornos mentais e
responsabilidade. É muito natural, neste processo de
desenvolvimento através das escolhas, passarmos por caminhos tortuosos e
sofridos, até despertarmos para propósitos mais essenciais e plenos.
Nós vamos aprendendo e
amadurecendo com nossos “erros”. Eles são sempre ensinamentos e lições
recebidas e, à medida que os aceitamos e integramos em nossas vidas, vamos
evoluindo.
Como seres humanos que somos, também vamos aprendendo a transformar a culpa em
autorresponsabilidade, trazendo autoria para nossas escolhas.
Sua
felicidade depende da qualidade de suas escolhas.
Culpa como desculpa
Usar a culpa do
passado como justificativa para não mudar a vida no presente é muito
comum para as pessoas que não se conhecem e não querem mudar.
Culpar os pais, a escola, a
infância, o professor, o chefe, o(a) parceiro(a) ou a si próprio e não se
encarar e transformar o que precisa na vida diária, é muito comum e frequente
em nossa sociedade.
Este padrão recorrente, já é em si mesmo, a autossabotagem. Nos isenta de responsabilidades, viramos uma vítima eterna do ocorrido e, por consequência, limitamos a expressão de nossos potenciais e evolução da consciência nesta existência.
A culpa vira uma desculpa quando nos acomodamos, nos tornamos vítimas, nos resignamos e deixamos de expressar e viver nossas potências. Desta forma, nós desistimos de evoluir e nos transformar e ficamos no conforto da acomodação, em uma “zona de conforto”, apesar de tanto desconforto.
O sofrimento do padrão da culpa
Primeiramente, num nível mais
básico, podemos nos lembrar que a culpa não traz nenhum tipo de benefício e
evolução: ela só aumenta nosso apego destrutivo e neurótico para
não enfrentarmos os desafios e realmente nos transformar e evoluir.
Nos sentimos culpados
recorrentes quando não aceitamos totalmente as circunstâncias do ocorrido e
não queremos enfrentar as mudanças que são necessárias a partir da compreensão
do que ocorreu. Ao invés disso, tentamos o tempo todo proteger, resistir e
consolar nosso ego machucado (os mecanismos de defesa).
Quando permanecemos eternamente
culpados, na verdade, estamos dando ainda mais força a esse “personagem” da vítima,
em vez de olharmos honestamente para a situação que está diante de nós.
A culpa torna-se um sofrimento
quando se estagna, se conforma no desconforto e continua
persistindo na vida, sem acabar.
A culpa pode não ter um fim.
Você pode achar que está enfrentando a situação porque está mergulhado nela,
mas a realidade é que você não está aceitando a situação, o que
gera uma enorme possibilidade de repetição no decorrer da vida, em outras
situações e relacionamentos.
Aquilo que você resiste, persiste…
Carl Gustav Jung
Culpa e arrependimento
A diferença entre a culpa e o
arrependimento é que a culpa vem da vitimização. Nos
acomodamos e não enfrentamos as desafiadoras circunstâncias da vida. Existe
apenas um sentimento intenso de: “gostaria que não tivesse acontecido, não queria
ter feito isso”, e assim por diante.
No arrependimento, nós reconhecemos o erro humildemente, expomos para nós mesmos que agimos mal e que isso se originou da nossa ignorância, mas não nos deixamos levar pelas emoções e pelas nossas histórias. A noção de remorso está longe de ser tão pesada quanto a ideia do “lado mau” que a culpa produz.
Quando alguém sente que há espaço para se abrir e consegue entender que sua ação ou a do outro (a) foi movida pela ignorância/imaturidade/ neurose/ transtornos, e não por uma essência intrinsecamente má, a consciência se amplia, desenvolve-se a responsabilidade e a possibilidade de um perdão real.
Da culpa à responsabilidade
Existe uma diferença sutil -
mas devastadora - entre sentir-se culpado e assumir a responsabilidade pelas próprias
escolhas.
Enquanto a culpa é uma âncora que nos prende ao passado,
a
responsabilidade é o remo que nos permite navegar no presente.
No meu trabalho ao longo dos anos acolhendo dores, transições e dilemas humanos, percebo que uma das maiores prisões psíquicas e emocionais que construímos é a confusão entre esses dois conceitos.
O Arquétipo da Culpa: A Punição Estática
A culpa tem uma energia pesada,
estagnada e voltada para dentro. Ela nasce quase sempre de um julgamento moral
rígido: “Eu fiz algo errado, logo, eu sou errado e não mereço receber da
vida.”
Quando ficamos presos na culpa,
entramos em um ciclo contínuo de autopunição e vitimização.
A
culpa não resolve o problema: ela apenas satisfaz a necessidade do nosso ego
inconsciente de sentir que estamos “pagando” pela falha.
É
uma tentativa ilusória de reescrever o que já passou por meio do sofrimento.
A sustentação da culpa gera baixa de
vitalidade, energia e motivação para poder viver a vida em sua plenitude e
abundância.
A culpa torna-se preocupante
quando os pensamentos, comportamentos e posturas são direcionados de uma
maneira recorrente e destrutiva e transformam-se em uma forma de masoquismo
e autodestruição.
Ao cometer um erro, ao invés de
pensarmos “sinto muito, eu cometi um erro”, a culpa tóxica nos leva a
dizer “me desculpe, eu sou um erro”; logo, mereço a punição. É aí
que o alerta vermelho aparece: o apego ao sofrimento.
Falta de mérito
Se somos culpados (conscientes
ou não) fica o registro interno de uma “não permissão” para poder desfrutar a
vida. Não nos permitirmos relaxar, curtir, receber.
Daí, torna-se fundamental a prática de autoconhecimento e terapia para poder
investigar a “linha de tempo” e situações passadas que podem estar reverberando
ainda hoje, pois nosso inconsciente é atemporal.
Ensinamentos
Por outro lado, a culpa é
considerada saudável quando nos move em direção à pensamentos, atitudes e
comportamentos criativos no presente. Com ela, podemos desenvolver novas
possibilidades e caminhos saudáveis para sair daquela situação desconfortável
que já aconteceu e que não temos como mudar.
Este tipo de reflexão criativa nos prepara para novas posturas na vida e evita
a possibilidade de tomarmos as mesmas atitudes nocivas que, posteriormente,
geram novamente culpas.
“Aprendi a lição, isto não vai mais se repetir e a vida que segue aqui e agora…”
Percepções para a transformação
Foco: O
passado (o que não pode ser mudado).
Sensação: Paralisia,
inadequação, peso no peito.
Mecanismo:
Julgamento e autopunição.
O Caminho da
Responsabilidade: A Ação Consciente
A responsabilidade
(response-ability ou a “habilidade de responder”), por outro lado, é um ato de
presença e maturidade emocional. Ela não nos pergunta “de quem
é a culpa?”, mas sim: “diante desta situação, qual é a minha resposta
consciente agora?”
Assumir a responsabilidade significa encarar os fatos
sem anestesia e sem dramatização. Não se trata de carregar o
mundo nas costas, mas de reconhecer a nossa parcela de participação na dinâmica
da vida - seja em um relacionamento, no trabalho ou na relação conosco.
Foco: O
presente e o futuro (o que pode ser transformado).
Sensação:
Leveza, clareza, espaço interno.
Mecanismo: Acolhimento, aprendizado e ação.
“O passado só será libertado e perdoado quando realmente
desenvolvemos a aceitação e compreensão profunda do que aconteceu…”
Pecado
A culpa e o pecado também são instrumentos de controle usados
pelas religiões para ter o poder e ditar as normas e regras da sociedade.
Os pecadores merecem queimar no
fogo do inferno.
Outras culpas muito comuns
também são as de sermos felizes, termos abundância e prazeres devido a uma
sensação errônea de deslealdade com nossos antepassados, família, sociedade,
etc. (abordagem sistêmica).
Compreender
e aceitar que algo nocivo aconteceu no passado e que ainda é preciso ser
enfrentado no presente é o primeiro passo para o autoperdão ou o perdão do
outro…
Exercício para o dia a dia
Observe os seus pensamentos e veja como você reage a eles.
Antes de iniciar, é preciso entender o que acontece. Quando a
culpa vier à tona, pare e observe: como você reage a esse sentimento? Quais
pensamentos chegam à sua mente? Quais situações que despertam esse sentimento
de culpa?
Se preferir, faça uma lista com duas colunas. Na primeira,
coloque os pensamentos e, na segunda, os seus comportamentos e as suas reações.
Antes de começar a pensar em alternativas, desenvolva a capacidade de observar de
forma atenta como esse sentimento desagradável aparece e quais suas reações a
eles.
Com o tempo, esse exercício vai te ajudar a conhecer e estudar
os seus conflitos emocionais, ajudando a investigar o porquê de você se sentir
dessa maneira.
Outra prática
Mudar a chave da culpa para a responsabilidade exige
um gesto de coragem e autocompaixão. Aqui estão três movimentos essenciais
nessa jornada:
1. Reconheça o fato sem o drama:
Diga a si mesmo apenas o que aconteceu de forma objetiva, retirando os
adjetivos punitivos (”Eu esqueci o compromisso”, em vez de “Eu sou um
irresponsável que estraga tudo”).
2. Abandone a autopunição: Entenda
que sofrer não repara o dano. O arrependimento genuíno busca a reparação; a
culpa busca a dor.
3. Pergunte-se: Qual é o próximo
passo? Diante das consequências do que aconteceu, o que pode ser feito agora
para reparar, comunicar ou aprender?
Dissolvendo a culpa através das virtudes.
A dissolução da culpa começa na
virtude da aceitação do processo em si, através da autoinvestigação e
do autoconhecimento. Se traduz na prática da compreensão do processo e no
desenvolvimento das virtudes da brandura, responsabilidade e perdão.
A
verdadeira maturidade espiritual e emocional não está em nunca errar, mas na
capacidade de acolher a “humanidade em nós” quando “erramos” - trocando a
chibata da culpa pelo compromisso da liberdade com responsabilidade.
Que tal nos libertarmos dessa “prisão”?
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MAURICIO BASTOS - Escrevo sobre consciência, autoconhecimento e o caminho de volta ao Ser. Sou psicanalista, terapeuta, facilitador em desenvolvimento humano, professor de meditação, músico e fundador do Espaço Integração, na Granja Viana. Há mais de 26 anos atuo como terapeuta com pós-graduação em Psicologia Positiva e várias formações em desenvolvimento humano e inteligência emocional, acompanhando pessoas, casais e famílias em processos de transformação e despertar parta uma consciência mais evoluída. Atualmente, estou terminando uma pós-graduação em Neurociência e Neuroplasticidade em Virtologia, ampliando minhas possibilidades de abordagem com embasamentos ainda mais modernos e transformadores. Semanalmente compartilho aqui ensaios, insights terapêuticos e reflexões sobre a jornada do viver através de percepções, sentimentos, hábitos, relacionamentos, autoconhecimento, psicanálise, filosofia e afins. A “Despertar” é um convite para você desacelerar, questionar e se reconectar com aquilo que realmente importa em sua vida! Será uma enorme alegria que você possa desfrutar desses materiais através desta iniciativa. Se este conteúdo fez sentido para você e quiser aprofundar essa conversa, estou também disponível aos atendimentos individuais de uma forma presencial ou on-line.
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