Opinião
Setembro chega com a primavera, mas também com novos alertas sobre o clima. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno El Niño alcance intensidade muito forte nos próximos meses e 69% de chance de estar entre os episódios mais intensos registrados desde 1950.
O alerta, porém, não está apenas nas previsões.
2026 já reúne uma sucessão de eventos extremos em diferentes partes do planeta,
com ondas de calor, secas, incêndios florestais e chuvas intensas. Para quem
está crescendo agora, compreender esse cenário será cada vez menos uma questão
de acompanhar notícias e mais uma necessidade para a vida cotidiana.
É nesse ponto que a alfabetização climática deixa
de ser um assunto complementar na educação. Saber o que é uma onda de calor,
por que uma floresta seca fica mais vulnerável ao fogo, de onde vem a água que
chega às nossas casas ou como uma chuva intensa pode provocar um desastre ajuda
a compreender relações de causa e consequência, reconhecer riscos e tomar
decisões mais responsáveis.
Isso não significa formar especialistas em
meteorologia desde cedo, mas oferecer instrumentos para interpretar
informações, diferenciar conhecimento de desinformação e perceber que nossas
escolhas fazem parte de um sistema maior.
Há também uma dimensão que considero fundamental:
ensinar a olhar para um problema sem enxergá-lo apenas como ameaça. Diante de
uma garrafa, uma caixa de papelão, um pedaço de tecido ou uma embalagem que
seria descartada, podemos perguntar: o que mais isso pode ser? O reaproveitamento
de materiais é uma atividade simples, mas carrega uma aprendizagem importante:
antes de descartar, podemos imaginar.
Essa mudança de olhar aproxima a educação ambiental
da criatividade. Cuidar do planeta não se resume a decorar regras. Envolve
observar, experimentar, criar, consertar, compartilhar e encontrar
alternativas.
Também envolve convivência. Os desafios ambientais
não serão enfrentados individualmente. Economizar água, proteger uma área
verde, lidar com uma enchente ou se preparar para uma onda de calor exige
cooperação. Aprender a ouvir, dividir responsabilidades e construir respostas
coletivas também é preparação para o futuro.
Não podemos apresentar às novas gerações um amanhã
feito apenas de catástrofes. Precisamos ajudá-las a compreender o que acontece
e a participar da construção de respostas. Consciência também é perceber que,
diante de uma dificuldade, existe a possibilidade de procurar caminhos.
Se setembro marca a chegada de uma nova estação,
pode ser também um convite para pensar em uma nova forma de educar: menos
voltada para respostas prontas e mais capaz de despertar perguntas,
criatividade e responsabilidade. Afinal, o futuro climático não será apenas
aquele que vamos encontrar, mas também aquele que saberemos construir.
Silmara Casadei - doutora
em Educação, psicanalista e autora de O Pequeno Mundo Criativo

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