Falar de fertilidade ainda é tabu no ambiente de trabalho?
Crédito: Claude
Apesar de impactar decisões pessoais e o plano de carreira, o tema ainda é cercado de silêncio no mundo corporativo; dados da OMS e do IBGE reforçam a urgência de ampliar informação e diálogo sobre fertilidade no ambiente corporativo
As conversas sobre planejamento familiar, dificuldades para
engravidar ou tratamentos de reprodução assistida ainda podem ser
desconfortáveis no ambiente profissional. Um levantamento internacional da
Carrot Fertility, o relatório "Global Fertility at Work", mostra que
79% dos profissionais se sentem desconfortáveis para tratar do assunto abertamente
no trabalho - um índice maior do que o registrado para temas como política e
religião, segundo a mesma pesquisa.
No Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada
6 pessoas em idade reprodutiva enfrenta algum grau de infertilidade, o que
torna o tema mais comum do que o silêncio ao seu redor sugere. Para
especialistas, transformar a fertilidade em um assunto possível de ser
discutido no trabalho é um passo importante para ampliar o acesso à informação
e ao cuidado. “O ‘tabu’ em torno do tema também pode influenciar o momento em
que uma pessoa busca ajuda. Questões como idade, reserva ovariana, qualidade
dos espermatozoides, condições de saúde e tratamentos disponíveis nem sempre
são conhecidas antes de uma decisão reprodutiva”, alerta a dra. Patricia Florido, médica
especialista em reprodução humana e cofundadora da startup Nest Fertilidade, startup brasileira que conecta empresas à uma rede
especializada para tratamentos de fertilidade.
Dados do IBGE mostram que a idade média das brasileiras ao terem o
primeiro filho subiu de 25,3 anos, em 2000, para 27,7 anos, em 2020 - e a
projeção é que esse número chegue a 31,3 anos até 2070. O adiamento reflete
escolhas legítimas, ligadas a carreira, estabilidade financeira e projetos
pessoais, mas também expõe uma lacuna: quanto mais tarde a informação sobre
saúde reprodutiva chega, menor a margem para planejar com autonomia.
"Fertilidade não deveria ser um assunto que as pessoas só
descobrem quando enfrentam uma dificuldade. Informação permite planejamento e
ajuda cada pessoa a tomar decisões mais conscientes sobre o próprio futuro.
Quando o ambiente de trabalho cria espaço para essa conversa, sem julgamentos,
ele contribui para que o tema deixe de ser tratado como algo exclusivamente
privado ou como um problema a ser escondido", afirma Gabriela
Varisco, Head de Sales e cofundadora da Nest.
De
que forma a fertilidade ainda é “tabu”?
Na prática, o silêncio pode aparecer de diferentes formas:
profissionais que evitam contar que estão realizando um tratamento, pessoas que
não sabem se podem conversar sobre o tema com a liderança ou colegas e até
empresas que oferecem benefícios relacionados à fertilidade, mas não comunicam adequadamente
que eles existem ou como podem ser utilizados.
Pesquisas internacionais dão dimensão a esse padrão. Um relatório
recente da Carrot Fertility identificou que 33% dos profissionais evitam falar
sobre fertilidade com seus gestores, e 28% preferem não comentar o assunto nem
mesmo com colegas próximos - apesar de 65% já terem usado tempo de trabalho
para pesquisar sobre tratamentos e 55% relatarem que dificuldades de
fertilidade prejudicaram seu desempenho profissional em algum momento. Um
levantamento de 2023 do CIPD, entidade britânica de referência em gestão de
pessoas, reforça o cenário: 47% dos profissionais em tratamento de fertilidade
nunca informaram à empresa sobre o que estavam vivendo, e 26% disseram temer
consequências para a carreira caso o assunto viesse à tona.
O custo desse silêncio aparece nos números de retenção. No mesmo
levantamento do CIPD, 19% dos entrevistados chegaram a considerar deixar o
emprego por causa da dificuldade em conciliar o tratamento com a rotina de
trabalho. Já entre os que contaram com algum apoio da empresa, 72% afirmaram
que isso aumentou a intenção de permanecer na organização, e 74% relataram
impacto positivo na saúde mental. “Os números sugerem que o silêncio não é
neutro: ele tem custo para quem vive a situação e, também, para as empresas que
perdem talento por um problema de comunicação e cultura, não de orçamento”,
alerta Gabriela.
Fertilidade
não é sobre expor a vida pessoal
O
aumento da procura por tratamentos no Brasil sinaliza que a demanda represada é
maior do que a conversa sobre o tema sugere. Segundo a Sociedade Brasileira de
Reprodução Assistida (SBRA), cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva no
país enfrentam algum grau de dificuldade para engravidar. E, de acordo com o
mais recente Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio),
da Anvisa, o número de ciclos de fertilização in vitro realizados no Brasil
chegou a registrar alta de 32,7% em um único ano - um indicativo da trajetória
de crescimento da busca por reprodução assistida no país.
Do lado das empresas, o tema começa a ganhar espaço na política de
benefícios, ainda que de forma desigual e concentrada em companhias maiores.
Uma pesquisa da Society for Human Resource Management (SHRM) mostra que 78% dos
profissionais consideram o pacote de benefícios um fator decisivo na escolha do
empregador - o que ajuda a explicar por que comunicar bem o que já existe, e
não apenas oferecer o benefício, é parte central da estratégia de reter e
atrair talentos.
Para a Nest Fertilidade, levar o tema
para dentro das empresas não significa transformar o ambiente corporativo em
espaço para exposição da vida pessoal, mas criar condições para que informação
e acolhimento estejam disponíveis quando necessários. Isso inclui discutir
planejamento familiar, fertilidade masculina e feminina, reprodução assistida,
preservação da fertilidade e diferentes configurações familiares de maneira
natural e responsável.
"Quando uma empresa fala sobre fertilidade de forma
responsável, ela não está dizendo ao colaborador quando ou se ele deve ter
filhos. Está oferecendo informação para que ele tenha mais autonomia sobre uma
decisão que pertence à sua vida. O papel da empresa é criar um ambiente em que
esse assunto possa existir sem constrangimento", finaliza Gabriela.
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