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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Falar de fertilidade ainda é tabu no ambiente de trabalho?


 

 

 

Falar de fertilidade ainda é tabu no ambiente de trabalho?

Crédito: Claude

Apesar de impactar decisões pessoais e o plano de carreira, o tema ainda é cercado de silêncio no mundo corporativo; dados da OMS e do IBGE reforçam a urgência de ampliar informação e diálogo sobre fertilidade no ambiente corporativo

 

As conversas sobre planejamento familiar, dificuldades para engravidar ou tratamentos de reprodução assistida ainda podem ser desconfortáveis no ambiente profissional. Um levantamento internacional da Carrot Fertility, o relatório "Global Fertility at Work", mostra que 79% dos profissionais se sentem desconfortáveis para tratar do assunto abertamente no trabalho - um índice maior do que o registrado para temas como política e religião, segundo a mesma pesquisa. 

No Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1 em cada 6 pessoas em idade reprodutiva enfrenta algum grau de infertilidade, o que torna o tema mais comum do que o silêncio ao seu redor sugere. Para especialistas, transformar a fertilidade em um assunto possível de ser discutido no trabalho é um passo importante para ampliar o acesso à informação e ao cuidado. “O ‘tabu’ em torno do tema também pode influenciar o momento em que uma pessoa busca ajuda. Questões como idade, reserva ovariana, qualidade dos espermatozoides, condições de saúde e tratamentos disponíveis nem sempre são conhecidas antes de uma decisão reprodutiva”, alerta a dra. Patricia Florido, médica especialista em reprodução humana e cofundadora da startup Nest Fertilidade, startup brasileira que conecta empresas à uma rede especializada para tratamentos de fertilidade. 

Dados do IBGE mostram que a idade média das brasileiras ao terem o primeiro filho subiu de 25,3 anos, em 2000, para 27,7 anos, em 2020 - e a projeção é que esse número chegue a 31,3 anos até 2070. O adiamento reflete escolhas legítimas, ligadas a carreira, estabilidade financeira e projetos pessoais, mas também expõe uma lacuna: quanto mais tarde a informação sobre saúde reprodutiva chega, menor a margem para planejar com autonomia. 

"Fertilidade não deveria ser um assunto que as pessoas só descobrem quando enfrentam uma dificuldade. Informação permite planejamento e ajuda cada pessoa a tomar decisões mais conscientes sobre o próprio futuro. Quando o ambiente de trabalho cria espaço para essa conversa, sem julgamentos, ele contribui para que o tema deixe de ser tratado como algo exclusivamente privado ou como um problema a ser escondido", afirma Gabriela Varisco, Head de Sales e cofundadora da Nest.
 

De que forma a fertilidade ainda é “tabu”?

Na prática, o silêncio pode aparecer de diferentes formas: profissionais que evitam contar que estão realizando um tratamento, pessoas que não sabem se podem conversar sobre o tema com a liderança ou colegas e até empresas que oferecem benefícios relacionados à fertilidade, mas não comunicam adequadamente que eles existem ou como podem ser utilizados. 

Pesquisas internacionais dão dimensão a esse padrão. Um relatório recente da Carrot Fertility identificou que 33% dos profissionais evitam falar sobre fertilidade com seus gestores, e 28% preferem não comentar o assunto nem mesmo com colegas próximos - apesar de 65% já terem usado tempo de trabalho para pesquisar sobre tratamentos e 55% relatarem que dificuldades de fertilidade prejudicaram seu desempenho profissional em algum momento. Um levantamento de 2023 do CIPD, entidade britânica de referência em gestão de pessoas, reforça o cenário: 47% dos profissionais em tratamento de fertilidade nunca informaram à empresa sobre o que estavam vivendo, e 26% disseram temer consequências para a carreira caso o assunto viesse à tona. 

O custo desse silêncio aparece nos números de retenção. No mesmo levantamento do CIPD, 19% dos entrevistados chegaram a considerar deixar o emprego por causa da dificuldade em conciliar o tratamento com a rotina de trabalho. Já entre os que contaram com algum apoio da empresa, 72% afirmaram que isso aumentou a intenção de permanecer na organização, e 74% relataram impacto positivo na saúde mental. “Os números sugerem que o silêncio não é neutro: ele tem custo para quem vive a situação e, também, para as empresas que perdem talento por um problema de comunicação e cultura, não de orçamento”, alerta Gabriela.
 

Fertilidade não é sobre expor a vida pessoal 

O aumento da procura por tratamentos no Brasil sinaliza que a demanda represada é maior do que a conversa sobre o tema sugere. Segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), cerca de 15% dos casais em idade reprodutiva no país enfrentam algum grau de dificuldade para engravidar. E, de acordo com o mais recente Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Anvisa, o número de ciclos de fertilização in vitro realizados no Brasil chegou a registrar alta de 32,7% em um único ano - um indicativo da trajetória de crescimento da busca por reprodução assistida no país. 

Do lado das empresas, o tema começa a ganhar espaço na política de benefícios, ainda que de forma desigual e concentrada em companhias maiores. Uma pesquisa da Society for Human Resource Management (SHRM) mostra que 78% dos profissionais consideram o pacote de benefícios um fator decisivo na escolha do empregador - o que ajuda a explicar por que comunicar bem o que já existe, e não apenas oferecer o benefício, é parte central da estratégia de reter e atrair talentos. 

Para a Nest Fertilidade, levar o tema para dentro das empresas não significa transformar o ambiente corporativo em espaço para exposição da vida pessoal, mas criar condições para que informação e acolhimento estejam disponíveis quando necessários. Isso inclui discutir planejamento familiar, fertilidade masculina e feminina, reprodução assistida, preservação da fertilidade e diferentes configurações familiares de maneira natural e responsável.

"Quando uma empresa fala sobre fertilidade de forma responsável, ela não está dizendo ao colaborador quando ou se ele deve ter filhos. Está oferecendo informação para que ele tenha mais autonomia sobre uma decisão que pertence à sua vida. O papel da empresa é criar um ambiente em que esse assunto possa existir sem constrangimento", finaliza Gabriela.

 

Nest Fertilidade


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