Além da idade, hábitos como alimentação, atividade física, tabagismo, consumo de álcool e controle do peso fazem parte do cuidado com a saúde reprodutiva de mulheres e homens
Quando o assunto é fertilidade, a idade é um dos fatores mais importantes, especialmente para as mulheres. Mas ela não é o único aspecto que merece atenção. O estilo de vida também pode estar relacionado à saúde reprodutiva e, por isso, hábitos como alimentação, atividade física, tabagismo, consumo de álcool e controle do peso devem fazer parte da conversa do casal que planeja ter filhos.
“O planejamento reprodutivo deve olhar para a saúde como um todo.
A idade tem um papel importante na fertilidade, especialmente feminina, mas
existem fatores relacionados ao estilo de vida que podem ser modificados.
Cuidar da saúde antes mesmo de começar as tentativas é fundamental para
prevenir intercorrências no ciclo gravídico e é o momento mais oportuno para
investir nas próximas gerações, proporcionando uma gestação mais saudável”,
explica Dra. Carla Dalascio, ginecologista e obstetra da Pro Matre Paulista.
Tabagismo merece atenção especial
Entre os fatores modificáveis, o tabagismo é um dos que apresentam
associação mais consistente com prejuízos à fertilidade. Nas mulheres, fumar
está associado a maior dificuldade para engravidar, além de maior risco de
perda gestacional e intercorrências durante a gestação. Nos homens, o cigarro pode
estar relacionado a alterações em parâmetros do sêmen, embora o impacto direto
sobre a capacidade de gerar uma gestação seja mais difícil de quantificar.
Por isso, para quem pretende engravidar, parar de fumar é uma das
medidas mais importantes, tanto para a saúde reprodutiva quanto para a saúde
geral.
Peso, alimentação e atividade física também entram na
preparação
O excesso de peso também pode interferir na função reprodutiva.
Nas mulheres, a obesidade está associada a alterações da ovulação e a menores
taxas de fecundidade. Nos homens, estudos mostram associação entre obesidade e
piora de alguns parâmetros do sêmen, como concentração, motilidade e morfologia
dos espermatozoides.
Isso não significa, porém, que toda pessoa com sobrepeso ou obesidade
terá dificuldade para engravidar. Os desvios de peso devem ser avaliados dentro
do contexto individual de cada paciente e de suas possíveis repercussões nos
indicadores de saúde.
A alimentação segue a mesma lógica. Não existe uma dieta
específica ou um alimento capaz de garantir uma gravidez. No entanto, uma
alimentação equilibrada, associada à prática regular de atividade física,
contribui para a saúde metabólica, para o controle do peso e para melhores
condições de saúde antes da gestação.
“Não se trata de criar uma lista de proibições para quem quer ter
filhos. A proposta é identificar fatores que podem ser modificados, melhorar a
saúde do casal e preparar o organismo para uma eventual gestação”, afirma a
especialista.
As evidências disponíveis sobre atividade física e fertilidade
espontânea ainda são heterogêneas. Por isso, o benefício mais bem estabelecido
da prática regular de exercícios está relacionado à saúde geral e ao controle
de fatores metabólicos que podem interferir na reprodução, e não à promessa de
aumentar diretamente a fertilidade.
Álcool e outras substâncias também devem entrar na conversa
A relação entre consumo moderado de álcool e fertilidade ainda não
é totalmente definida pela literatura. Já o consumo excessivo está associado a
efeitos negativos sobre a saúde reprodutiva, além de aumentar outros riscos à
saúde.
Por isso, durante o planejamento de uma gravidez, o consumo de
álcool deve ser discutido individualmente. Para as mulheres, uma vez iniciada a
gestação, a recomendação é não consumir álcool, já que não existe nível
considerado seguro durante a gravidez.
Nos homens, outro ponto particularmente importante é o uso de
testosterona e esteroides anabolizantes, cada vez mais frequente. O uso
indiscriminado e sem indicação clara dessas substâncias pode suprimir a
produção de espermatozoides e comprometer a fertilidade durante o uso. Em
alguns casos, a recuperação da produção espermática após a suspensão pode levar
meses e necessita de acompanhamento médico.
Fertilidade é uma questão do casal
A fertilidade não deve ser encarada como uma responsabilidade
exclusivamente feminina. Fatores masculinos estão envolvidos em aproximadamente
metade dos casos de infertilidade, isoladamente ou em combinação com fatores
femininos.
Por isso, homens e mulheres devem participar do planejamento
reprodutivo. Rever hábitos, controlar doenças crônicas, avaliar medicamentos em
uso e procurar orientação médica quando houver fatores de risco são medidas que
podem beneficiar a saúde reprodutiva de ambos e contribuir para uma gestação
mais saudável.
Planejamento começa antes do teste positivo
A consulta pré-concepcional é uma oportunidade importante para
avaliar a saúde do casal antes das tentativas de gravidez. Nesse momento, podem
ser revisados histórico médico, doenças preexistentes, medicamentos em uso,
vacinação, hábitos de vida, peso, tabagismo e consumo de álcool, além de outros
fatores que possam interferir na gestação.
Para as mulheres, a consulta também permite discutir aspectos
relacionados à idade, ao ciclo menstrual, a doenças ginecológicas e, quando
houver indicação, à avaliação da reserva ovariana.
É importante, entretanto, esclarecer que exames de reserva
ovariana, como o hormônio antimülleriano (AMH), não devem ser interpretados isoladamente
como um “teste de fertilidade”. Embora sejam úteis em situações específicas,
especialmente para estimar a resposta ovariana em tratamentos de reprodução
assistida, seus resultados são limitados para prever a chance de uma mulher
saudável engravidar espontaneamente. A idade continua sendo um dos principais
fatores relacionados ao potencial reprodutivo feminino.
“Quanto mais cedo o casal olha para a própria saúde, mais tempo
existe para identificar e modificar fatores de risco. O planejamento reprodutivo
não deve começar apenas quando aparece uma dificuldade para engravidar. Ele
também é uma forma de prevenção e de tomada de decisão consciente”, destaca
Dra. Carla Dalascio.
Quando procurar ajuda?
Há situações em que não é necessário esperar para buscar
avaliação. Mulheres com 35 anos ou mais, por exemplo, podem se beneficiar de
uma investigação após seis meses de tentativas sem gravidez. Para mulheres mais
jovens, a investigação costuma ser indicada após 12 meses de relações sexuais
regulares sem contracepção, ou antes disso quando existem fatores de risco ou
alterações conhecidas.
A investigação também deve considerar o homem. Avaliação clínica
e, quando indicada, análise do sêmen podem ajudar a identificar alterações
relacionadas à produção ou à qualidade dos espermatozoides.
É importante lembrar que hábitos saudáveis não eliminam outros
fatores associados à infertilidade. Idade, alterações da ovulação,
endometriose, alterações das trompas, doenças uterinas, alterações na produção
de espermatozoides e outras condições podem estar envolvidas. Em muitos casos,
mesmo após investigação adequada, não é possível identificar uma única causa.
Por isso, diante de dificuldades para engravidar, a
avaliação individualizada do casal é fundamental.
Cuidar antes da gravidez também é cuidar do futuro
Mais do que buscar uma fórmula para aumentar as chances de
gravidez, o cuidado com o estilo de vida deve fazer parte do planejamento
reprodutivo. Parar de fumar, manter uma alimentação equilibrada, praticar
atividade física regularmente, controlar doenças crônicas, evitar o uso de
substâncias que possam comprometer a fertilidade e realizar acompanhamento médico
quando necessário são atitudes que beneficiam a saúde antes mesmo de o teste
positivo aparecer.
Preparar-se para uma gestação, portanto, não começa no dia em que
a gravidez é confirmada. Começa antes, com informação, planejamento e cuidado
com a saúde de ambos.
Pro Matre Paulista
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