Especialista em infância, a psicóloga e psicanalista Denise Fleury reflete sobre o impacto das primeiras experiências afetivas e simbólicas no desenvolvimento emocional das crianças
Desde os primeiros anos de vida, a saúde mental das crianças é tecida nas relações que estabelecem com o outro e com o meio. Medos, perdas e lutos fazem parte do cotidiano infantil e são fundamentais para o desenvolvimento de recursos simbólicos e linguageiros. A psicanálise considera o bebê um sujeito de linguagem, cujo amadurecimento emocional depende da relação com o outro — especialmente da voz e do olhar que o invocam para o mundo. É desse vínculo que a subjetividade começa a se formar.
Podemos
pensar na moleira, que termina de se fechar após o nascimento, como uma
metáfora da maleabilidade psíquica do bebê diante do outro. Pela voz,
especialmente, ele recebe o colo onde é embalado e nutrido por palavras. Aos
poucos, vai sendo apresentado ao mundo que o cerca. Por isso, vínculos afetivos
com familiares, professores e cuidadores funcionam como uma ancoragem,
oferecendo segurança para que a criança se arrisque, explore e experimente o
mundo com todos os desafios que isso implica.
Desconstruindo mitos sobre a infância
Um dos equívocos mais comuns sobre a saúde mental infantil é acreditar que o bebê nasce como uma “tábula rasa”, ideia difundida por John Locke. Mesmo no início da vida, há um sujeito de linguagem e de desejo, e reconhecer isso é essencial para compreender sua formação psíquica e emocional. Outro mito persistente é o imperativo de que a criança deve ser feliz o tempo todo. Por trás dele, esconde-se a crença de que é possível poupá-la do sofrimento. Mas a tristeza e a angústia são partes inevitáveis — e necessárias — da experiência humana. É preciso permitir que as crianças sintam, expressem e elaborem esses sentimentos.
A escola, nesse contexto, é um espaço fundamental de convivência e socialização, especialmente em tempos em que as relações presenciais e as brincadeiras livres se tornam cada vez mais escassas. As crianças precisam vivenciar o mundo com o corpo, em contato com outras pessoas e com o ambiente — a rua, o bairro, a natureza. O brincar e o faz-de-conta são formas de experimentação e construção de sentido. A escola, portanto, deve ser uma aliada na promoção da saúde emocional, garantindo o tempo e o espaço necessários para essas experiências.
A
sociedade ainda não compreendeu plenamente que as experiências da primeira
infância são determinantes para o desenvolvimento futuro. Investir nas relações
afetivas e simbólicas dos primeiros anos é investir na saúde emocional e social
de toda uma geração. É também sustentar redes de apoio que garantam
continuidade e cuidado, ampliando o olhar para além do presente imediato.
Entre clínica e literatura
Na minha trajetória clínica e literária, observo com preocupação a naturalização dos diagnósticos e da medicalização na infância. O aumento de diagnósticos anda lado a lado com a redução dos espaços de convivência e do tempo de brincar. Já ouvi de um pai que retiraria o filho da escola porque lá ele “só brincava”. É urgente desconstruir essa noção: brincar é, em si, um modo de aprender, elaborar e crescer.
A
literatura pode ser uma grande aliada nesse processo. Em Benjamin,
meu livro infantil mais recente, utilizo uma narrativa poética e lúdica para
tratar da ansiedade de separação — um tema universal da primeira
infância. A história acompanha a relação entre mãe e filho por meio da metáfora
de dois elefantes, cujas trombas se entrelaçam como símbolo do vínculo afetivo.
A narrativa oferece tanto o aconchego da proximidade quanto a abertura para a
separação. Histórias assim dão voz às crianças e ajudam a tratar temas
delicados, como a ansiedade e o medo, de forma simbólica e acolhedora.

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