Professor da Univali analisa impacto dos juros sobre investimentos e cadeias produtivas
O aumento das recuperações judiciais no Brasil começa a revelar um
problema que ultrapassa as empresas diretamente envolvidas nos processos. O
avanço das dificuldades financeiras chega a fornecedores, clientes,
instituições financeiras e investidores e pode comprometer decisões que
sustentam a atividade econômica, como novos investimentos, inovação e expansão.
Nesse contexto, o custo de capital ganha peso na análise do cenário empresarial
brasileiro.
Dados citados em levantamento publicado pela Forbes mostram 6.341 empresas
na base restrita de recuperações judiciais. O número chama atenção quando
colocado diante do universo de empresas ativas no país, mas ganha outra
dimensão quando se considera a rede de relações que sustenta cada negócio. Para
o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da
Universidade do Vale do Itajaí (Univali), professor Jeferson Lana, esse é um
dos pontos centrais para compreender o impacto econômico do movimento.
“Cada empresa possui, em geral, um grande número de fornecedores e
clientes. Se pensarmos nessa rede de relações, não é difícil imaginar que as
médias e grandes empresas possuem pelo menos um caso de um fornecedor ou
cliente que está passando pelas dificuldades que uma recuperação judicial
impõe.”, afirma.
A leitura desloca o foco da recuperação judicial como um problema
restrito à empresa que busca reorganizar suas dívidas. Uma companhia em
dificuldade pode reduzir compras, comprometer pagamentos, adiar projetos e
afetar negócios que dependem de sua operação. Quando esse movimento se repete
em diferentes setores, o efeito deixa de ser pontual e passa a interferir na
circulação de capital e nas perspectivas de crescimento.
Custo do capital
Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário está a
elevação do custo de capital. Com taxas de juros em patamares elevados, uma
parcela maior do caixa das empresas é consumida pelo serviço da dívida,
reduzindo o espaço financeiro para investimentos. A consequência alcança
justamente áreas que determinam a capacidade de uma organização avançar no
mercado: inovação, expansão e novos projetos.
“Com as taxas de juros brasileiras em patamares elevados, a
consequência é que as empresas utilizem muito caixa para que se mantenham
operantes. Esses gastos com juros competem com novos investimentos. Ou seja, as
empresas perdem sua capacidade de inovação e de crescimento e passam a bucar
simplesmente sobreviver”, explica.
O mesmo ambiente também eleva o prêmio de risco e pode dificultar
a geração de retorno sobre investimentos realizados anteriormente. Na avaliação
de Lana, empresas passam a enfrentar maior dificuldade para monetizar
adequadamente recursos já empregados em seus negócios, enquanto o custo para
financiar novas iniciativas permanece elevado.
“Essa realidade de altas taxas de juros também aumenta o prêmio de
risco. Ou seja, muitas empresas perdem sua capacidade de monetizar
adequadamente os investimentos que foram feitos nelas. Isso freia novos
projetos e eleva os cuidados com os projetos que já estão em andamento.”,
observa.
A discussão sobre o nível dos juros, porém, exige uma análise que
considere as condições internas e externas que influenciam a economia
brasileira. Para o professor, compreender essas forças é parte da própria
discussão sobre o ambiente empresarial e sobre os limites que o custo do
dinheiro impõe à atividade produtiva.
“O debate é longo, mas precisamos também tentar entender quais
condições internas e externas têm empurrado o Brasil para esses juros tão
elevados nos últimos anos”, afirma.
O efeito sobre o ecossistema
A dimensão do problema aparece com mais clareza quando as empresas
deixam de ser analisadas individualmente. Na avaliação do professor, as
organizações em recuperação judicial não representam unidades isoladas: cada
uma mantém relações com uma rede de fornecedores, clientes, trabalhadores,
credores e outros agentes econômicos.
Em um universo de 2,3 milhões de empresas ativas no Brasil, as companhias
na base restrita correspondem a 2,2 empresas em recuperação para cada mil.
“Esse índice, por si só, já preocupa. No entanto, não podemos pensar nessas
empresas como se fossem organizações isoladas. Nenhuma empresa existe em si e
para si”, destaca.
Essa interdependência ajuda a explicar por que o crescimento das
recuperações judiciais pode produzir efeitos que se espalham pela economia. O
aumento do risco tende a reduzir a disposição das empresas para investir e
assumir novos compromissos, enquanto a percepção de maior insegurança pode
restringir o acesso ao capital. Menos investimento significa também menor
capacidade de expansão e inovação.
“O aumento do risco leva as empresas a pararem de investir e se
afastarem do risco. Com o aumento do risco de crédito, o ambiente corporativo
passa a cortar prazos de pagamentos, elevar margens de lucro e restringir sua
produção. E a consequência acaba sendo a inflação e baixo crescimento, duas
doenças crônicas e aparentemente incuráveis do nosso país”, conclui.
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