Qual é o seu nome?
Qual é a sua comida favorita? O que você gosta de fazer no tempo livre? São
perguntas simples. No Instituto C, elas fazem parte da conversa com as famílias
que chegam até nós. Entre muitas mães, porém, as respostas revelam algo que deveria
chamar nossa atenção.
“Sou a mãe do
João.” “Minha comida preferida é a que faço para os meus filhos.” Hobby? Muitas
não sabem responder. A maternidade passou a ocupar um espaço tão grande em suas
vidas que, em algum momento, a mulher que existia antes dela parece ter
desaparecido.
E essa realidade é
muito comum quando discutimos o cuidado com a primeira infância no Brasil. Já
avançamos ao reconhecer a importância dos primeiros seis anos para o
desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. Criamos leis, programas
e políticas voltados às crianças. Falamos sobre creches, alimentação,
vacinação, estímulos, educação e proteção.
No entanto, ainda
olhamos pouco para quem torna tudo isso possível no cotidiano. Uma criança
pequena depende profundamente das relações construídas ao seu redor. Precisa de
alimentação adequada, brincadeiras, proteção e vínculos. Precisa de adultos
disponíveis para perceber seus sinais, conversar, acolher seus sentimentos e
ajudá-la a descobrir o mundo.
É uma enorme responsabilidade.
E, no Brasil, ela continua concentrada nas mulheres. Elas dedicam, em média,
9,8 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho doméstico e de cuidado
não remunerado. Metade das mães deixa o mercado de trabalho até dois anos
depois do nascimento do primeiro filho, segundo estudo da Organização
Internacional do Trabalho.
A ausência de uma
rede de cuidado adequada torna essa equação ainda mais difícil. Em 2025, apenas
41,7% das crianças brasileiras de zero a três anos frequentavam creche, segundo
o IBGE.
Um levantamento
que fizemos com 499 famílias acompanhadas pelo Instituto C encontrou 172 com
crianças de até seis anos. Nesse grupo, 47,1% das famílias são monoparentais.
E, entre elas, 68,8% das mães atuam de maneira informal.
São dados da nossa
base e não pretendem representar o conjunto da população brasileira. Eles
ajudam, porém, a enxergar uma realidade que encontramos todos os dias: cuidar
de uma criança sem uma rede de apoio pode significar trabalhar menos, aceitar
empregos mais precários, interromper os estudos e adiar projetos pessoais. É
por isso que projetos de renda, trabalho e saúde mental também devem entrar em
políticas de primeira infância.
Primeira infância
exige, portanto, intersetorialidade. Saúde, educação, assistência social,
trabalho e renda precisam conversar entre si a partir da vida real das
famílias. Uma criança não chega à escola separada da casa em que vive. Uma mãe
não chega ao posto de saúde deixando para trás suas dificuldades de renda,
moradia ou violência. As políticas podem estar organizadas em secretarias
diferentes. A vida das pessoas não está. Há uma mudança cultural necessária na
própria maneira como enxergamos as mães.
Cuidar delas
significa reconhecer que aquela mulher continua tendo identidade, desejos,
capacidades e projetos próprios. Significa criar condições para que possa
construir perspectivas de renda e de futuro. Por isso, no Instituto C, parte do
cuidado passa por ajudá-las a reconhecer seus potenciais e planejar caminhos
possíveis para gerar renda. Ao longo dos anos trabalhando com famílias em
situação de vulnerabilidade, vi como essa autonomia repercute na dinâmica
familiar. Quando uma mulher consegue planejar o próprio futuro, amplia sua
capacidade de fazer escolhas e de construir maior estabilidade para si e para
os filhos.
O Brasil
estabeleceu no ECA que assegurar uma infância digna, saudável e protegida é
responsabilidade da família, da comunidade, da sociedade e do poder público. Ou
seja, a responsabilidade é compartilhada.
Agosto, Mês da
Primeira Infância, oferece uma oportunidade para olharmos novamente para esse
compromisso. Se queremos que os primeiros seis anos sejam realmente uma
prioridade nacional, precisamos construir uma rede que permita às famílias
oferecer às crianças aquilo que sabemos ser essencial para seu desenvolvimento.
Nenhuma política
de primeira infância será plenamente efetiva enquanto quem cuida continuar
cuidando sozinho.
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