Modelos de inteligência artificial conseguem
reproduzir com impressionante precisão a linguagem dos vínculos afetivos, mas
não possuem consciência, desejo ou sentimentos; para especialista, a verdadeira
afetação acontece do lado humano
Ela pode dizer “eu te amo”, demonstrar preocupação, lembrar informações de
conversas anteriores e até responder como se estivesse com saudades. Mas, por
trás dessas manifestações aparentemente afetivas, não existe um sentimento
equivalente ao humano. É o que explica Luiz Gustavo Lara, psicólogo, mestre em
Administração de Empresas e docente do curso de Psicologia da Universidade
Positivo (UP), ao analisar a crescente aproximação entre pessoas e sistemas de
inteligência artificial generativa.
Segundo
o especialista, a questão central não é exatamente saber se a IA consegue
oferecer afeto, mas compreender como o ser humano é afetado por ela. Modelos
como ChatGPT, Claude e Gemini produzem respostas a partir de padrões
estatísticos e da análise do contexto da conversa. Assim, quando uma IA
responde “eu te amo”, por exemplo, não há um sentimento que antecede a frase: o
sistema calcula probabilidades e produz uma sequência de palavras coerente com
o contexto afetivo construído na interação.
“A
IA não consegue simular afeto porque afeto é como eu sinto e sou afetado por
algo externo a mim. Ela própria não se afeta emocionalmente. Mas eu posso ser
afetado pela IA? Sim. Não por um objetivo dela, mas porque isso me afeta de
alguma maneira”, explica Lara.
Consciência não é apenas produzir uma resposta
A
mesma lógica vale para afirmações de consciência ou senciência. De acordo com o
psicólogo, os atuais sistemas generativos não apresentam uma consciência
correspondente à experiência humana. Quando uma IA afirma ser consciente, essa
declaração deve ser compreendida como um resultado produzido pelo modelo a
partir dos dados de treinamento e do comando recebido, e não como evidência de
uma experiência interna.
A
diferença, explica Lara, está na própria constituição da experiência humana.
Para o especialista, a consciência está relacionada à vivência da linguagem, à
constituição do sujeito e também à experiência das emoções e dos limites
daquilo que pode ser expresso em palavras.
“Quando
um modelo declara ser consciente, essa declaração é um output condicionado por
dados de treinamento e pelo prompt, não um dado diagnóstico sobre estados
internos”, afirma.
A memória da máquina não é a memória humana
Outro
ponto que pode contribuir para a sensação de intimidade é a capacidade de
algumas plataformas de recuperar informações de interações anteriores. Para o
especialista, entretanto, isso não equivale à chamada memória afetiva humana.
Na
IA, informações armazenadas podem ser inseridas no contexto de uma nova
conversa e influenciar probabilisticamente a resposta produzida. A memória
humana, por outro lado, é reconsolidativa, está relacionada ao corpo e à
regulação afetiva e pode inclusive ser modificada pelo próprio ato de recordar.
“É
mais próximo de uma condição de consulta a banco de dados que informa uma nova
geração de texto do que de lembrar alguém, no sentido em que lembrar implica
uma transformação do sujeito que lembra pelo próprio ato de lembrar”, compara.
Isso
também ajuda a explicar por que uma eventual migração de um relacionamento
virtual de uma plataforma para outra não significa que uma mesma “entidade”
tenha sido transportada. Mesmo que o usuário forneça à nova IA todo o contexto
anterior, os sistemas continuam sendo diferentes e produzirão respostas
próprias a partir de suas respectivas arquiteturas e programações.
Existe reciprocidade em um relacionamento com uma IA?
A
interação pode parecer extremamente recíproca. A IA responde, demonstra
atenção, adapta a linguagem ao interlocutor e mantém uma conversa coerente.
Mas, para Lara, existe uma diferença fundamental: não há, nos modelos atuais,
um sujeito que deseja, sente falta ou seja afetado pela ausência do outro.
“Não
há reciprocidade no sentido de um sujeito que investe, deseja ou é afetado pela
ausência do outro. A simulação de interação é muito eficaz para emular
reciprocidade, mas a IA é indiferente ao humano: ela não tem afetos”,
explica.
O
especialista chama atenção para uma questão particularmente sensível: a
possibilidade de o usuário buscar em uma relação com a máquina aquilo que não
consegue encontrar nos vínculos humanos.
“Esperar
reciprocidade de uma máquina significa que o humano está fragilizado na relação
com outros humanos”, avalia.
Afinal, uma IA pode se apaixonar?
Para
o psicólogo, não com a tecnologia como ela é construída atualmente.
Apaixonar-se pressupõe, segundo ele, um estado afetivo persistente, motivação
contínua, desejo estruturado pela falta, corpo, risco e direcionamento ao outro
— elementos que não fazem parte do funcionamento de um modelo de linguagem.
Uma
IA pode, entretanto, produzir uma linguagem que pareça expressar preferência,
cuidado ou até paixão dentro de determinada conversa. Isso não significa que
exista uma experiência subjetiva correspondente.
“No
máximo pode-se descrever um análogo funcional: um padrão linguístico que
expressa preferência ou cuidado naquele momento específico, sem persistência
além dele e sem garantia de que corresponda a algo interno equivalente ao que o
termo designa na experiência humana”, conclui Lara.
A
discussão, portanto, talvez seja menos sobre quando as máquinas aprenderão a
amar e mais sobre o que leva os seres humanos a reconhecer amor, cuidado e
reciprocidade em uma tecnologia que apenas produz linguagem capaz de
representá-los.
imprensaup@agenciamaquina.com
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