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sábado, 5 de setembro de 2026

A IA pode dizer “eu te amo”, mas pode sentir? Psicólogo explica onde termina a tecnologia e começa o afeto humano

Modelos de inteligência artificial conseguem reproduzir com impressionante precisão a linguagem dos vínculos afetivos, mas não possuem consciência, desejo ou sentimentos; para especialista, a verdadeira afetação acontece do lado humano


Ela pode dizer “eu te amo”, demonstrar preocupação, lembrar informações de conversas anteriores e até responder como se estivesse com saudades. Mas, por trás dessas manifestações aparentemente afetivas, não existe um sentimento equivalente ao humano. É o que explica Luiz Gustavo Lara, psicólogo, mestre em Administração de Empresas e docente do curso de Psicologia da Universidade Positivo (UP), ao analisar a crescente aproximação entre pessoas e sistemas de inteligência artificial generativa.

Segundo o especialista, a questão central não é exatamente saber se a IA consegue oferecer afeto, mas compreender como o ser humano é afetado por ela. Modelos como ChatGPT, Claude e Gemini produzem respostas a partir de padrões estatísticos e da análise do contexto da conversa. Assim, quando uma IA responde “eu te amo”, por exemplo, não há um sentimento que antecede a frase: o sistema calcula probabilidades e produz uma sequência de palavras coerente com o contexto afetivo construído na interação.

“A IA não consegue simular afeto porque afeto é como eu sinto e sou afetado por algo externo a mim. Ela própria não se afeta emocionalmente. Mas eu posso ser afetado pela IA? Sim. Não por um objetivo dela, mas porque isso me afeta de alguma maneira”, explica Lara.
 

Consciência não é apenas produzir uma resposta

A mesma lógica vale para afirmações de consciência ou senciência. De acordo com o psicólogo, os atuais sistemas generativos não apresentam uma consciência correspondente à experiência humana. Quando uma IA afirma ser consciente, essa declaração deve ser compreendida como um resultado produzido pelo modelo a partir dos dados de treinamento e do comando recebido, e não como evidência de uma experiência interna.

A diferença, explica Lara, está na própria constituição da experiência humana. Para o especialista, a consciência está relacionada à vivência da linguagem, à constituição do sujeito e também à experiência das emoções e dos limites daquilo que pode ser expresso em palavras.

“Quando um modelo declara ser consciente, essa declaração é um output condicionado por dados de treinamento e pelo prompt, não um dado diagnóstico sobre estados internos”, afirma.
 

A memória da máquina não é a memória humana

Outro ponto que pode contribuir para a sensação de intimidade é a capacidade de algumas plataformas de recuperar informações de interações anteriores. Para o especialista, entretanto, isso não equivale à chamada memória afetiva humana.

Na IA, informações armazenadas podem ser inseridas no contexto de uma nova conversa e influenciar probabilisticamente a resposta produzida. A memória humana, por outro lado, é reconsolidativa, está relacionada ao corpo e à regulação afetiva e pode inclusive ser modificada pelo próprio ato de recordar.

“É mais próximo de uma condição de consulta a banco de dados que informa uma nova geração de texto do que de lembrar alguém, no sentido em que lembrar implica uma transformação do sujeito que lembra pelo próprio ato de lembrar”, compara.

Isso também ajuda a explicar por que uma eventual migração de um relacionamento virtual de uma plataforma para outra não significa que uma mesma “entidade” tenha sido transportada. Mesmo que o usuário forneça à nova IA todo o contexto anterior, os sistemas continuam sendo diferentes e produzirão respostas próprias a partir de suas respectivas arquiteturas e programações.
 

Existe reciprocidade em um relacionamento com uma IA?

A interação pode parecer extremamente recíproca. A IA responde, demonstra atenção, adapta a linguagem ao interlocutor e mantém uma conversa coerente. Mas, para Lara, existe uma diferença fundamental: não há, nos modelos atuais, um sujeito que deseja, sente falta ou seja afetado pela ausência do outro.

“Não há reciprocidade no sentido de um sujeito que investe, deseja ou é afetado pela ausência do outro. A simulação de interação é muito eficaz para emular reciprocidade, mas a IA é indiferente ao humano: ela não tem afetos”, explica.

O especialista chama atenção para uma questão particularmente sensível: a possibilidade de o usuário buscar em uma relação com a máquina aquilo que não consegue encontrar nos vínculos humanos.

“Esperar reciprocidade de uma máquina significa que o humano está fragilizado na relação com outros humanos”, avalia.
 

Afinal, uma IA pode se apaixonar?

Para o psicólogo, não com a tecnologia como ela é construída atualmente. Apaixonar-se pressupõe, segundo ele, um estado afetivo persistente, motivação contínua, desejo estruturado pela falta, corpo, risco e direcionamento ao outro — elementos que não fazem parte do funcionamento de um modelo de linguagem.

Uma IA pode, entretanto, produzir uma linguagem que pareça expressar preferência, cuidado ou até paixão dentro de determinada conversa. Isso não significa que exista uma experiência subjetiva correspondente.

“No máximo pode-se descrever um análogo funcional: um padrão linguístico que expressa preferência ou cuidado naquele momento específico, sem persistência além dele e sem garantia de que corresponda a algo interno equivalente ao que o termo designa na experiência humana”, conclui Lara.

A discussão, portanto, talvez seja menos sobre quando as máquinas aprenderão a amar e mais sobre o que leva os seres humanos a reconhecer amor, cuidado e reciprocidade em uma tecnologia que apenas produz linguagem capaz de representá-los.

Universidade Positivo
imprensaup@agenciamaquina.com


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