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sábado, 5 de setembro de 2026

Redes sociais, jogos e excesso de estímulos: como despertar o interesse dos alunos pela aprendizagem?

 

Professora de Ciências conta como transformou uma olimpíada de conhecimento em estratégia para aproximar estudantes dos conteúdos e estimular o protagonismo

 

Manter a atenção dos estudantes em sala de aula se tornou um dos desafios cotidianos dos professores. Entre redes sociais, vídeos curtos, jogos, tendências e um fluxo constante de informações, disputar o interesse dos jovens pode parecer uma tarefa cada vez mais difícil. Para a professora Cláudia Nazaré dos Santos, no entanto, o caminho não está em competir diretamente com essas ferramentas, mas em compreender como elas fazem parte da realidade dos alunos e podem ser incorporadas ao processo de aprendizagem.

Licenciada em Física e Biologia, mestre e doutora em Ciências pelo Instituto Militar de Engenharia (IME/RJ), Cláudia tem cerca de 15 anos de experiência no magistério. Atualmente, é professora concursada da Escola Municipal Sobral Pinto, da rede municipal do Rio de Janeiro. Ao longo da carreira, também lecionou no Colégio Militar do Rio de Janeiro e em uma universidade particular de Minas Gerais, onde atuou na graduação e na pós-graduação.

Foi justamente a experiência com olimpíadas de conhecimento que ajudou a professora a encontrar uma estratégia para estimular seus alunos. Em 2022, após um convite da direção e da coordenação pedagógica da escola, Cláudia preparou um grupo de dez estudantes para participar da Olimpíada Nacional de Eficiência Energética (ONEE).

O que começou como uma atividade extracurricular ganhou espaço na rotina escolar e passou a fazer parte do calendário da disciplina de Ciências. Desde então, a professora utiliza a competição como uma oportunidade para trabalhar conteúdos, estimular a dedicação e mostrar aos estudantes que eles também podem ocupar espaços de destaque.


Quando o desafio vira motivação

Para Cláudia, um dos principais desafios enfrentados atualmente pelos professores é justamente despertar o interesse dos estudantes e transformar esse interesse em participação efetiva.

Segundo ela, a dificuldade de concentração não é exclusiva de um determinado tipo de escola ou rede de ensino. "Os adolescentes vêm tendo muita dificuldade de se concentrar e de serem disciplinados quando se trata dos estudos", observa.

A experiência com a ONEE, porém, mostrou que a tecnologia pode ser parte da solução. A olimpíada utiliza desafios gamificados para abordar temas como eficiência energética, sustentabilidade e segurança no uso da eletricidade, aproximando o conteúdo escolar de uma linguagem familiar aos estudantes.

"A ONEE ganhou os alunos com a gamificação. Essa ferramenta chama a atenção deles porque exige a presença da tecnologia para a execução e desafia os alunos a conhecer a partir de jogos. É um desafio que chama a atenção e gera uma competição saudável entre os grupos", relata Cláudia.

A estratégia também ajuda a transformar a competição em uma experiência coletiva. Na escola, a professora criou um grupo de estudantes que já participaram da olimpíada para atuar como multiplicadores. Eles compartilham experiências com os colegas, explicam as dificuldades encontradas e ajudam os alunos que estão participando pela primeira vez.

A ideia é simples: fazer com que o estudante perceba que existe um grupo ao qual ele pertence.


O aluno precisa se sentir parte

Mais do que apresentar conteúdos de uma forma diferente, Cláudia acredita que o professor precisa compreender o que mobiliza os estudantes fora da escola.

Para ela, acompanhar o que circula nas redes sociais e entender os assuntos que despertam a curiosidade dos jovens pode ser uma ferramenta pedagógica. Isso não significa abandonar métodos tradicionais, mas encontrar pontos de conexão entre o conhecimento escolar e aquilo que já faz parte do repertório dos alunos.

"Uma aula expositiva pode ser interessante como um conteúdo que viraliza nas redes. O aluno quer pertencer. Muitas vezes, vai além de um conteúdo: ele precisa ser ouvido, ter espaço até para errar e falar de coisas que chegam até ele sem nenhuma base", afirma.

Na prática, até uma informação incorreta encontrada na internet pode se transformar em ponto de partida para uma aula. Em vez de simplesmente corrigir o estudante, o professor pode utilizar aquela dúvida para investigar a origem da informação, discutir fontes e construir o conhecimento correto.

A estratégia também contribui para desenvolver uma habilidade cada vez mais importante no ambiente digital: o pensamento crítico.


Da competição ao protagonismo

A trajetória da escola na ONEE ajudou a fortalecer esse processo. Na primeira participação, os dez estudantes selecionados precisaram realizar a prova em papel porque a escola não tinha acesso à internet para a atividade. Mesmo com as dificuldades, o grupo conquistou medalhas.

Nos anos seguintes, os resultados aumentaram. Em 2024, Cláudia foi reconhecida como professora destaque no estado do Rio de Janeiro. Em 2025, veio um dos momentos mais marcantes de sua trajetória na competição: a estudante Izadora Parente conquistou o segundo lugar nacional na ONEE.

Para a professora, o resultado ultrapassou a conquista individual da estudante.

"Quando recebi a notícia de que minha aluna tinha ficado em segundo lugar nacional, foi incrível. Ver esses alunos sendo valorizados, colocar visibilidade sobre a escola e poder carregar o nome da escola para outros lugares é algo que envolve os estudantes", conta.

A experiência também fez com que os próprios alunos passassem a incentivar os colegas. Os medalhistas compartilham suas histórias e mostram, na prática, que o desempenho é resultado de dedicação e persistência.


Tecnologia pode ser aliada da escola

Em vez de tentar afastar os estudantes das ferramentas digitais, a professora defende que a escola aprenda a utilizá-las de forma crítica e pedagógica.

"Eu acho que cabe a nós saber o que está sendo divulgado nas redes para que possamos, de forma crítica e coerente, usar tudo para a aprendizagem dessa nova geração", afirma.

Na ONEE, essa aproximação acontece por meio dos desafios gamificados, que colocam os estudantes diante de problemas relacionados à energia, à sustentabilidade e ao consumo consciente. A tecnologia deixa de ser apenas uma fonte de distração e passa a ser parte do processo de investigação e aprendizagem.

Para Cláudia, entretanto, nenhuma ferramenta substitui o papel do professor.

"O professor precisa ser o facilitador, saber mediar, ensinar o conteúdo de forma coerente sem desconsiderar o que eles têm acesso na rede, usar a tecnologia a favor da aprendizagem e deixar o aluno contribuir com os conhecimentos prévios, não sendo o detentor do conhecimento."


Ensinar também é despertar o interesse

A experiência da professora mostra que engajamento não depende apenas de tornar uma aula mais divertida. Para ela, existe uma diferença importante entre transmitir um conteúdo e despertar no estudante a vontade de aprender.

"Muitas vezes, o conteúdo em si deixa de ser importante na rotina dos alunos. Dar atenção para o aluno é o passo principal para ele sentir interesse e vontade de dar retorno no processo de ensino-aprendizagem", explica.

Nesse processo, escutar também é ensinar. O desinteresse pode estar relacionado a questões que ultrapassam os muros da escola, e perceber essas dificuldades pode ser fundamental para estabelecer uma relação de confiança.

Na experiência de Cláudia, a ONEE acabou funcionando como uma porta de entrada para esse protagonismo. A medalha é parte da motivação, mas o principal resultado está em fazer o estudante perceber que é capaz de enfrentar um desafio, aprender com ele e compartilhar o conhecimento adquirido.

"Eu carrego todos os alunos das minhas turmas para tentar, para se desafiarem. Tenho resistências e desistências, mas os resultados e o protagonismo dos colegas falam por si."

 

ONEE 2026

A Olimpíada Nacional de Eficiência Energética (ONEE) 2026 está com inscrições abertas até 15 de setembro. A competição é voltada para estudantes do 8º e 9º anos do ensino fundamental e, pela primeira vez, para alunos do 1º e 2º anos do ensino médio, das redes pública e privada.

A iniciativa promove desafios gamificados, provas e atividades educativas relacionadas à eficiência energética, sustentabilidade, consumo consciente e segurança no uso da eletricidade. A expectativa da organização é reunir mais de 660 mil estudantes em todo o país.

Mais informações e inscrições estão disponíveis em onee.org.br.

 

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