Professora de Ciências conta como transformou uma
olimpíada de conhecimento em estratégia para aproximar estudantes dos conteúdos
e estimular o protagonismo
Manter a atenção
dos estudantes em sala de aula se tornou um dos desafios cotidianos dos
professores. Entre redes sociais, vídeos curtos, jogos, tendências e um fluxo
constante de informações, disputar o interesse dos jovens pode parecer uma
tarefa cada vez mais difícil. Para a professora Cláudia Nazaré dos Santos, no
entanto, o caminho não está em competir diretamente com essas ferramentas, mas
em compreender como elas fazem parte da realidade dos alunos e podem ser
incorporadas ao processo de aprendizagem.
Licenciada em
Física e Biologia, mestre e doutora em Ciências pelo Instituto Militar de
Engenharia (IME/RJ), Cláudia tem cerca de 15 anos de experiência no magistério.
Atualmente, é professora concursada da Escola Municipal Sobral Pinto, da rede
municipal do Rio de Janeiro. Ao longo da carreira, também lecionou no Colégio
Militar do Rio de Janeiro e em uma universidade particular de Minas Gerais,
onde atuou na graduação e na pós-graduação.
Foi justamente a
experiência com olimpíadas de conhecimento que ajudou a professora a encontrar
uma estratégia para estimular seus alunos. Em 2022, após um convite da direção
e da coordenação pedagógica da escola, Cláudia preparou um grupo de dez
estudantes para participar da Olimpíada Nacional de Eficiência Energética
(ONEE).
O que começou como
uma atividade extracurricular ganhou espaço na rotina escolar e passou a fazer
parte do calendário da disciplina de Ciências. Desde então, a professora
utiliza a competição como uma oportunidade para trabalhar conteúdos, estimular
a dedicação e mostrar aos estudantes que eles também podem ocupar espaços de destaque.
Quando o
desafio vira motivação
Para Cláudia, um
dos principais desafios enfrentados atualmente pelos professores é justamente
despertar o interesse dos estudantes e transformar esse interesse em
participação efetiva.
Segundo ela, a
dificuldade de concentração não é exclusiva de um determinado tipo de escola ou
rede de ensino. "Os adolescentes vêm tendo muita dificuldade de se
concentrar e de serem disciplinados quando se trata dos estudos", observa.
A experiência com
a ONEE, porém, mostrou que a tecnologia pode ser parte da solução. A olimpíada
utiliza desafios gamificados para abordar temas como eficiência energética,
sustentabilidade e segurança no uso da eletricidade, aproximando o conteúdo
escolar de uma linguagem familiar aos estudantes.
"A ONEE
ganhou os alunos com a gamificação. Essa ferramenta chama a atenção deles
porque exige a presença da tecnologia para a execução e desafia os alunos a
conhecer a partir de jogos. É um desafio que chama a atenção e gera uma
competição saudável entre os grupos", relata Cláudia.
A estratégia
também ajuda a transformar a competição em uma experiência coletiva. Na escola,
a professora criou um grupo de estudantes que já participaram da olimpíada para
atuar como multiplicadores. Eles compartilham experiências com os colegas,
explicam as dificuldades encontradas e ajudam os alunos que estão participando
pela primeira vez.
A ideia é simples:
fazer com que o estudante perceba que existe um grupo ao qual ele pertence.
O aluno
precisa se sentir parte
Mais do que apresentar
conteúdos de uma forma diferente, Cláudia acredita que o professor precisa
compreender o que mobiliza os estudantes fora da escola.
Para ela,
acompanhar o que circula nas redes sociais e entender os assuntos que despertam
a curiosidade dos jovens pode ser uma ferramenta pedagógica. Isso não significa
abandonar métodos tradicionais, mas encontrar pontos de conexão entre o
conhecimento escolar e aquilo que já faz parte do repertório dos alunos.
"Uma aula
expositiva pode ser interessante como um conteúdo que viraliza nas redes. O
aluno quer pertencer. Muitas vezes, vai além de um conteúdo: ele precisa ser
ouvido, ter espaço até para errar e falar de coisas que chegam até ele sem
nenhuma base", afirma.
Na prática, até
uma informação incorreta encontrada na internet pode se transformar em ponto de
partida para uma aula. Em vez de simplesmente corrigir o estudante, o professor
pode utilizar aquela dúvida para investigar a origem da informação, discutir
fontes e construir o conhecimento correto.
A estratégia
também contribui para desenvolver uma habilidade cada vez mais importante no
ambiente digital: o pensamento crítico.
Da competição
ao protagonismo
A trajetória da
escola na ONEE ajudou a fortalecer esse processo. Na primeira participação, os
dez estudantes selecionados precisaram realizar a prova em papel porque a
escola não tinha acesso à internet para a atividade. Mesmo com as dificuldades,
o grupo conquistou medalhas.
Nos anos
seguintes, os resultados aumentaram. Em 2024, Cláudia foi reconhecida como
professora destaque no estado do Rio de Janeiro. Em 2025, veio um dos momentos
mais marcantes de sua trajetória na competição: a estudante Izadora Parente
conquistou o segundo lugar nacional na ONEE.
Para a professora,
o resultado ultrapassou a conquista individual da estudante.
"Quando
recebi a notícia de que minha aluna tinha ficado em segundo lugar nacional, foi
incrível. Ver esses alunos sendo valorizados, colocar visibilidade sobre a
escola e poder carregar o nome da escola para outros lugares é algo que envolve
os estudantes", conta.
A experiência
também fez com que os próprios alunos passassem a incentivar os colegas. Os
medalhistas compartilham suas histórias e mostram, na prática, que o desempenho
é resultado de dedicação e persistência.
Tecnologia
pode ser aliada da escola
Em vez de tentar
afastar os estudantes das ferramentas digitais, a professora defende que a
escola aprenda a utilizá-las de forma crítica e pedagógica.
"Eu acho que
cabe a nós saber o que está sendo divulgado nas redes para que possamos, de
forma crítica e coerente, usar tudo para a aprendizagem dessa nova
geração", afirma.
Na ONEE, essa
aproximação acontece por meio dos desafios gamificados, que colocam os
estudantes diante de problemas relacionados à energia, à sustentabilidade e ao
consumo consciente. A tecnologia deixa de ser apenas uma fonte de distração e
passa a ser parte do processo de investigação e aprendizagem.
Para Cláudia,
entretanto, nenhuma ferramenta substitui o papel do professor.
"O professor
precisa ser o facilitador, saber mediar, ensinar o conteúdo de forma coerente
sem desconsiderar o que eles têm acesso na rede, usar a tecnologia a favor da
aprendizagem e deixar o aluno contribuir com os conhecimentos prévios, não
sendo o detentor do conhecimento."
Ensinar também
é despertar o interesse
A experiência da
professora mostra que engajamento não depende apenas de tornar uma aula mais
divertida. Para ela, existe uma diferença importante entre transmitir um
conteúdo e despertar no estudante a vontade de aprender.
"Muitas
vezes, o conteúdo em si deixa de ser importante na rotina dos alunos. Dar
atenção para o aluno é o passo principal para ele sentir interesse e vontade de
dar retorno no processo de ensino-aprendizagem", explica.
Nesse processo,
escutar também é ensinar. O desinteresse pode estar relacionado a questões que
ultrapassam os muros da escola, e perceber essas dificuldades pode ser
fundamental para estabelecer uma relação de confiança.
Na experiência de
Cláudia, a ONEE acabou funcionando como uma porta de entrada para esse
protagonismo. A medalha é parte da motivação, mas o principal resultado está em
fazer o estudante perceber que é capaz de enfrentar um desafio, aprender com
ele e compartilhar o conhecimento adquirido.
"Eu carrego
todos os alunos das minhas turmas para tentar, para se desafiarem. Tenho
resistências e desistências, mas os resultados e o protagonismo dos colegas
falam por si."
ONEE 2026
A Olimpíada
Nacional de Eficiência Energética (ONEE) 2026 está com inscrições
abertas até 15 de setembro. A competição é voltada para
estudantes do 8º e 9º anos do ensino fundamental e, pela primeira vez, para
alunos do 1º e 2º anos do ensino médio, das redes pública e privada.
A iniciativa
promove desafios gamificados, provas e atividades educativas relacionadas à
eficiência energética, sustentabilidade, consumo consciente e segurança no uso
da eletricidade. A expectativa da organização é reunir mais de 660 mil
estudantes em todo o país.
Mais informações e
inscrições estão disponíveis em onee.org.br.
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