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Impacto da tecnologia e rotinas cada
vez mais intensas provocaram mudanças sociais, influenciando o desenvolvimento
infantil
A imagem de crianças brincando na rua até o
anoitecer, inventando jogos com os amigos da vizinhança e passando horas longe
das telas faz parte da memória das gerações que viveram a infância até por
volta da década de 2000. O que faz muita gente se perguntar: ser criança era
melhor antigamente?
Para especialistas em educação e desenvolvimento infantil, a
resposta não é tão simples. Mais do que comparar épocas, o foco deve ser
garantir uma infância equilibrada, com espaço para brincar, aprender, conviver
e se desenvolver de forma saudável.
Se por um lado as crianças de hoje convivem com desafios que não
existiam há alguns anos, como o uso precoce da tecnologia, agendas repletas de
compromissos e maior exposição às redes sociais; por outro lado crescem com
mais acesso à informação, novas formas de aprendizagem e discussões sobre temas
importantes que eram menos frequentes no passado, como saúde emocional,
inclusão e convivência.
A infância está mudando?
Segundo Renata Alonso, coordenadora pedagógica da
Escola Bilíngue Aubrick,
de São Paulo (SP), é natural que os adultos olhem para a própria infância com
carinho e tenham a sensação de que ela foi melhor do que na atualidade. Afinal,
toda geração costuma comparar o presente com as lembranças da época em que
cresceu; e é bem provável que as crianças de hoje, quando forem adultas, também
sintam saudade de aspectos do período que estão vivendo agora.
"É verdade que muitas crianças têm hoje menos oportunidades
de brincar na rua, explorar espaços ao ar livre e conviver espontaneamente com
outras crianças, experiências que são muito importantes para desenvolver
criatividade, autonomia e aprender a lidar com desafios do dia a dia. Por outro
lado, elas também crescem com mais acesso à informação, novas formas de
aprender, tecnologias que podem enriquecer o ensino e maior contato com
diferentes culturas e realidades", diz Renata.
Para a docente da Aubrick, a pergunta não deve ser se uma geração
teve uma infância melhor do que a outra. "Cada época traz oportunidades e
desafios diferentes. O mais importante é garantir que as crianças tenham tempo
para brincar, conviver, descobrir o mundo, criar vínculos e experimentar
diferentes vivências."
Uma rotina ampliada pode ser saudável?
Muitas crianças permanecem na escola durante todo o dia e
participam de atividades como idiomas, esportes, música e propostas culturais.
Essas experiências podem contribuir de forma significativa para o
desenvolvimento, desde que sejam adequadas à faixa etária e organizadas com
equilíbrio e intencionalidade.
Para Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian
International School (BIS),
a questão não está apenas no tempo que a criança passa na escola ou na
quantidade de atividades, mas na qualidade das experiências oferecidas.
“Uma rotina ampliada pode ser muito positiva quando alterna
momentos de aprendizagem, brincadeira livre, movimento, descanso, interação e
escolhas. A criança precisa participar de experiências significativas, mas
também precisa ter tempo para brincar, imaginar e construir suas próprias
descobertas”, afirma.
A especialista do BIS explica que não existe uma organização única
que funcione para todas as crianças. “É importante observar como cada criança
vivencia sua rotina, se demonstra interesse, bem-estar e disponibilidade para
participar. Atividades extracurriculares enriquecem a formação quando respeitam
o ritmo da infância e convivem de forma equilibrada com o brincar, o descanso e
a convivência familiar.”
Telas estão no centro do debate sobre a infância
Poucos temas têm mobilizado tanto especialistas em educação, saúde
e desenvolvimento infantil quanto o uso de telas por crianças e adolescentes.
Nos últimos anos, escolas, governos e famílias passaram a discutir medidas para
reduzir o tempo de exposição a celulares e outros dispositivos, especialmente
diante do aumento de casos de ansiedade, dificuldade de concentração,
distúrbios do sono e prejuízos às interações sociais entre os mais jovens.
Para Carla Litrenta, psicopedagoga e educadora parental da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP), embora a
tecnologia seja parte da realidade e ofereça inúmeras oportunidades de
aprendizagem, ela não pode ocupar o espaço das experiências fundamentais da
infância: o desafio não está em demonizar as telas, mas em estabelecer uma relação
equilibrada com elas.
"Celulares, tablets e computadores são ferramentas
importantes e fazem parte da forma como as crianças aprendem e se comunicam. O
problema surge quando o tempo de tela passa a substituir momentos essenciais
para o desenvolvimento, como brincar livremente, praticar atividades físicas,
conversar presencialmente, lidar com frustrações, explorar a criatividade e
construir relações no mundo real."
Carla explica que a infância é o período em que habilidades
socioemocionais são construídas por meio da convivência. "Empatia,
autocontrole, comunicação, capacidade de resolver conflitos e de enfrentar
pequenas frustrações são competências que se desenvolvem principalmente nas
interações presenciais. Quando boa parte do tempo livre acontece diante de uma
tela, essas oportunidades podem se tornar mais escassas."
Por isso, é preciso criar uma rotina em que a tecnologia ocupa um
lugar saudável. “Estabelecer horários para os dispositivos, evitar o uso
durante refeições e antes de dormir, incentivar brincadeiras ao ar livre e
garantir momentos de convivência em família são algumas das estratégias que
ajudam a equilibrar o mundo digital e as experiências indispensáveis para uma
infância saudável”, acrescenta a docente da EIA.
O que uma infância saudável deve ter?
Na opinião de Michele Diniz, coordenadora da Educação Infantil do
colégio Progresso Bilíngue de Vinhedo (SP), a infância não deve
ser encarada apenas como uma preparação para a vida adulta, mas como uma etapa
que tem valor em si mesma e que deixa marcas profundas na forma como cada
pessoa irá se relacionar consigo, com os outros e com o mundo.
"As experiências vividas nos primeiros anos influenciam a
maneira como lidamos com frustrações, construímos relacionamentos, enfrentamos
desafios e cuidamos da nossa saúde emocional ao longo da vida. Por isso, mais
do que formar adultos bem-sucedidos, precisamos garantir que as crianças tenham
o direito de viver plenamente a infância, brincar, experimentar, errar,
aprender e crescer em um ambiente onde se sintam amadas, seguras e livres para
serem quem são."
A especialista aponta elementos indispensáveis para que uma
criança se desenvolva de forma saudável: brincar, criar vínculos afetivos, movimentar
o corpo, explorar o mundo, nutrir relações de qualidade, sentir-se segura e
saber que pode contar com adultos de confiança.
“Um dos maiores presentes que pais e educadores podem oferecer às
crianças é a escuta genuína. Elas precisam sentir que são respeitadas,
acolhidas e levadas a sério. Quando percebem que podem conversar sem medo de
julgamentos, fazer perguntas, expressar emoções, admitir que erraram e pedir
ajuda, desenvolvem confiança para enfrentar desafios e construir uma autoestima
saudável. Essa segurança emocional nasce das relações que estabelecem com os
adultos que fazem parte da sua vida", finaliza Michele.
Beatriz Martins - educadora com mais de 30 anos de atuação na educação, dos quais 18 em funções de liderança pedagógica, formando equipes, projetos e — principalmente — pessoas. Possui licenciatura plena pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduação pelo Instituto Singularidades. Atualmente atua como coordenadora pedagógica no BIS.
Carla Litrenta Todaro - pedagoga, educadora parental e pós-graduada em “Psicologia Positiva: Ciência do Bem-Estar e da Autorrealização” e em “Bullying, Violência e Discriminação na Escola”. Iniciou sua carreira há quase 30 anos como professora de alfabetização nas séries iniciais, trilhando seu caminho no mundo da educação. Estudiosa das relações e do desenvolvimento humano, atualmente é coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville.
Michele Diniz - pedagoga, pós-graduada em Psicanálise, com mais de 25 anos de atuação na área da Educação. Sua trajetória é marcada pela dedicação ao processo de alfabetização e ao acompanhamento do desenvolvimento infantil, com ampla experiência na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Integra a equipe do Colégio Progresso Bilíngue Vinhedo como a coordenadora pedagógica e Designated Safeguarding Lead (DSL), promovendo ações voltadas à proteção, ao bem-estar e à segurança de crianças e adolescentes.
Renata Alonso - formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicomotricidade, com mais de 15 anos de experiência em educação bilíngue. Sua grande paixão são as crianças bem pequenas, e seus estudos são voltados à primeira infância, crianças de 0 a 3 anos. Com um olhar atento ao desenvolvimento integral dos pequenos, Renata acredita que essa fase da vida é crucial para a formação de indivíduos seguros, criativos e capazes de se expressar com confiança. Seu trabalho visa proporcionar um ambiente acolhedor e estimulante para o aprendizado, sempre com foco no cuidado e no afeto.
International Schools Partnership – ISP
Para mais informações, acesse o site.

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