"Elize: Sombras de Uma Mulher" chegou ao topo do ranking de filmes mais
assistidos da Netflix em diversos países quase ao mesmo tempo em que uma
decisão judicial suspendeu um documentário sobre o ex-marido de Maria da Penha,
por veicular acusações infundadas contra o caso que deu nome à principal
lei de proteção às mulheres do Brasil. São dois episódios aparentemente
distantes, mas que revelam a mesma fratura. O streaming aprendeu a vender
histórias de violência contra a mulher, mas ainda não aprendeu a contá-las com
responsabilidade.
Venho defendendo há algum tempo que a comunicação não é um detalhe
posterior ao crime, ela integra o próprio fenômeno da violência. É o que venho
dizendo sobre o Método Papageno, uma adaptação, para o enfrentamento da
violência de gênero, das diretrizes da Organização Mundial da Saúde contra o
chamado "Efeito Werther", que explica como a cobertura
sensacionalista de mortes pode gerar contágio social.
Se a narrativa errada pode adoecer, a narrativa certa pode
proteger. E é exatamente essa régua que precisamos aplicar ao boom de true crime
sobre feminicídio no streaming. A questão aqui não é proibir, mas sim saber
onde termina o contexto legítimo e começa o espetáculo.
"Elize" é um caso particularmente delicado porque
inverte o roteiro clássico. A protagonista é, ao mesmo tempo, sobrevivente de
abuso na infância, de exploração sexual e de um relacionamento marcado por
violência, e autora confessa do homicídio e esquartejamento do próprio marido.
Mostrar essa trajetória tem um valor social. Ajuda o público a reconhecer que
ciclos de violência raramente começam no dia do crime, e que vítimas também
podem reagir de formas que a lei não absolve, mas que a sociedade precisa
entender.
Esse é o lado em que o filme se aproxima do que o Método Papageno
recomenda, uma contextualização estrutural, e não redução da violência a um
"crime passional" isolado. O problema é que parte do público reagiu
ao filme celebrando a protagonista, praticamente transformando-a em fenômeno de
cultura pop. Afinal, esta já é a terceira produção sobre o mesmo caso em cinco
anos, depois da docussérie "Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime"
(2021) e da série "Tremembé" (2025).
Quando um crime real vira franquia de entretenimento, a linha
entre humanizar e romantizar se rompe. Humanizar é explicar por que uma pessoa
chegou até ali, sem retirar sua responsabilidade. Já romantizar é estetizar o
crime até ele parecer sedutor, heroico ou justificável e é justamente esse tipo
de narrativa que, segundo a lógica do Efeito Werther, pode servir de espelho
para outros agressores, ou mesmo para vítimas em situações limite, buscarem no
crime uma saída.
O caso de Maria da Penha mostra a outra face do mesmo problema,
ainda mais grave por vir de uma produção que se apresenta como documental,
logo, com pretensão de verdade factual. Ao dar voz à versão do ex-marido,
condenado por tentar matá-la duas vezes, a obra não amplia o debate público.
Ela tenta reescrever o consenso jurídico e histórico em torno de um caso que
fundou uma política de Estado - política essa, inclusive, reconhecida como uma
das melhores do mundo.
É o que se percebe como desalento institucional, o risco de que
mulheres em situação de violência olhem para o caso mais emblemático do país,
vejam sua credibilidade sendo questionada na tela, e concluam que denunciar não
muda nada. Entre esses dois extremos, há exemplos de como fazer diferente.
"Justiça por Elas" e "Mexeu com Uma, Mexeu com
Todas", este último com o relato direto da própria Maria da Penha, mostram que é possível narrar violência real
sem espetacularizá-la. São produções que dão protagonismo à sobrevivente,
expondo falhas institucionais e indicando caminhos de proteção, em vez de
apenas revisitar o horror do crime.
Não defendo que o streaming deixe de contar essas histórias,
afinal o interesse do público por elas é, também, um sintoma de que a sociedade
quer entender a violência contra a mulher, não apenas consumi-la. Defendo que
produtoras, plataformas e veículos de imprensa assumam que contar esse tipo de
história é exercer um dever de cuidado. Evitar a centralidade do agressor,
preservar a dignidade da vítima, contextualizar a violência como fenômeno
estrutural e, sempre que possível, indicar onde uma mulher em risco pode buscar
ajuda. Comunicar, aqui, também é prevenir.
O sucesso de audiência de "Elize" e a repercussão do caso Maria da Penha não são incidentes isolados. São um retrato de como o Brasil ainda está aprendendo a diferenciar entre expor violência e explorá-la. Essa é uma escolha editorial, não um acaso do algoritmo e é hora de tratá-la como tal.
Daniele Akamine - advogada, membro da Comissão de
Direitos Humanos da OAB-SP e especialista em políticas públicas. Foi
Coordenadora de Políticas para Mulheres da cidade de São Paulo e é referência
na articulação de estratégias de enfrentamento à violência de gênero.
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