Relatório
feito pela nstech aponta reconcentração dos prejuízos no Sudeste, avanço do
crime em trechos urbanos e migração das ocorrências para o horário da madrugada
- RJ assume liderança nacional: o estado do Rio de Janeiro concentrou 36,6% do prejuízo nacional com roubo de cargas no primeiro semestre de 2026;
- Salto histórico de medicamentos: o roubo de medicamentos saltou de uma participação de 2,8% dos prejuízos no primeiro semestre de 2025 para 19% no mesmo período em 2026,
consolidando-se como o terceiro maior alvo das quadrilhas no país;
- Migração para a madrugada e trechos urbanos: a criminalidade migrou com força para as vias urbanas, onde os
prejuízos quase dobraram, passando de 20,4% para 39,6%. Simultaneamente, a madrugada disparou para a liderança absoluta entre os horários críticos, concentrando 32,9% dos sinistros (ante os 14,4% verificados anteriormente);
No primeiro
semestre de 2026, o cenário do roubo de cargas no Brasil consolidou uma reorganização
geográfica e operacional profunda. A região Sudeste voltou a concentrar
as ocorrências, respondendo por 77,2% de todo o prejuízo financeiro
nacional no período (alta expressiva de 16,7 pontos percentuais em relação aos
60,5% observados no primeiro semestre de 2025).
Os
dados na região foram impulsionados pelo Rio de Janeiro, que ultrapassou São
Paulo e assumiu a liderança isolada, concentrando 36,6% do prejuízo nacional com
roubo de cargas no primeiro semestre de 2026, contra 16,1% no mesmo período de
2025 — um salto de 20,5 pontos percentuais.
Os
números são do relatório “Report nstech de Roubo
de Cargas”, elaborado pela nstech, maior empresa de software para supply
chain da América Latina e uma das 5 maiores SaaS do Brasil. O estudo é baseado
nas informações apuradas pelas gerenciadoras de risco BRK, Buonny e Opentech,
integradas à TNS (Transportation Network System) da nstech.
“O
estudo demonstra que a criminalidade logística no Brasil tem operado de forma
dinâmica, com quadrilhas especializadas alternando de forma ágil as mercadorias
visadas, os horários de ataque e as regiões de atuação. No período, também
percebemos que o risco muda rapidamente e exige monitoramento contínuo.
Pensando nisso, a combinação entre inteligência, integração de dados, colaboração
logística e capacidade de adaptação ajuda a mitigar os riscos operacionais e a
adaptar as estratégias de negócio”, analisa Cristiano Tanganelli, VP de
Inteligência de Mercado da nstech.
Perfil
das cargas e a transição para itens de alto valor
O primeiro
semestre mostrou uma nítida transição das atividades criminosas rumo a itens de
alta liquidez e forte valor agregado no mercado ilegal. As cargas diversas
ou fracionadas mantêm-se no topo da sinistralidade, liderando o ranking
nacional com 36,6% dos prejuízos (alta de 4,1 pontos percentuais em
comparação com os 32,5% do primeiro semestre de 2025), em virtude da alta
atratividade logística de carregar múltiplas mercadorias em uma única viagem.
O
segmento de produtos alimentícios manteve estabilidade relativa,
posicionando-se na vice-liderança com 24,6% dos prejuízos (contra 24,2% no
1S25). No entanto, o indicador mais preocupante do relatório reside no
transporte de medicamentos, cuja participação de perdas saltou de 2,8% para 19%
(+16,2 p.p.). Com isso, o segmento farmacêutico escalou da sexta para a
terceira colocação, um reflexo do cerco criminoso estruturado que foca na
facilidade de revenda paralela.
Em
contrapartida, outros segmentos de alto valor perderam espaço nas investidas.
O principal recuo deu-se no transporte de cigarros, que despencou de uma
participação de 26,4% no 1S25 para 6,3% no 1S26 (-20,1 p.p.), caindo para a
quarta posição. O roubo de eletrônicos também apresentou contração
acentuada, passando de 7,9% do total de perdas para apenas 1,5%.
Nova
geografia do risco e corredores críticos
A reconcentração
do crime no Sudeste (77,2%) redefiniu o ranking de estados mais afetados. O
Rio de Janeiro assumiu o protagonismo nacional absoluto, caracterizado
por uma forte concentração urbana e metropolitana: a capital do estado liderou
de forma isolada, gerando 20,1% do total de perdas do país, enquanto os
municípios de Duque de Caxias (6%), São Gonçalo (3%) e Nova Iguaçu (1,9%)
consolidam, junto com a capital, 31% de todo o prejuízo nacional por roubos.
São
Paulo recuou para a segunda colocação nacional com 30,9% de participação
(redução de 3,3 p.p. em relação aos 34,2% do ano anterior). No território paulista, o risco revelou-se
predominantemente interno e centrado em distribuição local: 57% dos roubos
ocorreram na rota SP x SP, a qual isoladamente liderou os fluxos de perdas
nacionais com 17,6%. No ranking dos municípios paulistas, a capital de São
Paulo concentrou 8,1% do prejuízo geral, seguida por Cajamar (2,1%) e São
Bernardo do Campo, Miracatu e Santos (com 2% cada).
O estado
de Minas Gerais permaneceu na terceira colocação com 9,3% dos prejuízos
(estável ante os 9,1% do 1S25), tendo o município de João Pinheiro como seu
principal polo crítico (2,8% nacional). Ainda no Sudeste, o Espirito Santo
registrou cerca de 0,4% dos roubos, recuando dos seus 1,2% em 2025.
Em
escala oposta, a região Norte registrou o recuo mais acentuado do país,
desabando de 16,7% para 2,3% na participação de perdas. Esse movimento foi diretamente influenciado pelo recuo de
roubos no estado do Pará, que viu seu percentual de prejuízos despencar de
12,8% no 1S25 para apenas 2,4% no 1S26. No Nordeste, embora a região tenha
passado para a segunda posição de prejuízos com 14,3%, o principal crescimento
deu-se na Bahia, que subiu de 2,7% para 4,8%. Ainda sobre regiões, o Sul
do país representou 3,6% dos roubos e o Centro-Oeste cerca de 2,6%.
Dinâmica
temporal e logística do crime
As
táticas logísticas das quadrilhas de roubo passaram a focar substancialmente
nas etapas de distribuição interna e nas janelas de menor vigilância das
estradas. Os trechos urbanos praticamente dobraram sua participação nas
perdas financeiras, subindo de 20,4% para 39,6% e consolidando a tendência
de migração criminosa para a chamada "última milha"
logístico-metropolitana.
Entre
as rodovias mapeadas, a BR-101 consolidou-se como a via mais perigosa do
país no semestre, atingindo 17,1% dos prejuízos (contra 10,8% no 1S25),
confirmando uma tendência de altas consecutivas desde 2023 (quando o indicador
era de apenas 2,1%). A BR-116 ocupou a segunda posição rodoviária com 8,2%
das perdas (contra 4,8% anteriores).
No
comportamento temporal, houve maior concentração de prejuízos na madrugada,
saltando de 14,4% para 32,9% dos prejuízos do país (+18,5 p.p.). A noite,
por sua vez, registrou recuo de 38,6% para 24,5%, embora continue relevante.
Juntos, os períodos da noite e da madrugada concentraram 57,4% de todos os
prejuízos das transportadoras. Já a manhã representou 26,7% (alta de 6,2
p.p.), e a tarde recuou para 15,9%.
Na
análise de dias da semana, a quinta-feira permaneceu à frente como o dia com
maior índice de sinistros, registrando 22% dos prejuízos (embora com
ligeira redução frente aos 25,7% do 1S25). O destaque mais expressivo deu-se no
início da semana: a segunda-feira saltou para 15,6% (contra 9,3%) e a
terça-feira subiu para 14,3% (contra 9%). Os prejuízos ocorridos aos
domingos despencaram, caindo de 13,2% para 5% do total.
Tecnologia
e gerenciamento preventivo como chave para mitigação de prejuízos
“Apesar
do aumento na ousadia e na seletividade das quadrilhas de roubo, o avanço
tecnológico na área de gerenciamento de riscos demonstrou-se essencial para
reverter perdas milionárias. No primeiro semestre de 2026, o ecossistema
nstech registrou um crescimento de 10,74% no volume de mercadorias monitoradas
pelas gerenciadoras BRK, Buonny e Opentech, ultrapassando a barreira histórica
de R$ 1,11 trilhão de cargas sob gestão”, avalia Tanganelli.
Paralelamente,
o ambiente exigiu maior eficiência preventiva, uma vez que o valor total das
mercadorias atacadas pelas quadrilhas cresceu 12,27% em relação ao primeiro
semestre de 2025. Como resposta direta das ações de monitoramento e tecnologia
de ponta do ecossistema, mais de 70% de todas as cargas atacadas foram
prontamente recuperadas, atenuando os impactos diretos nos custos de seguros e
na cadeia de abastecimento nacional.