No Dia Internacional das Pessoas Idosas,
pesquisador brasileiro que atua na área de envelhecimento e longevidade explica
por que ampliar a expectativa de vida precisa vir acompanhado de autonomia e
funcionalidade
O aumento da expectativa de vida é uma das principais conquistas da medicina
nas últimas décadas, mas viver mais anos não significa, necessariamente, viver
com autonomia e qualidade de vida. Para o pesquisador brasileiro David Amorim,
que atua no campo do envelhecimento e da longevidade, o desafio atual está
justamente em ampliar os anos vividos com funcionalidade, independência e
participação ativa na sociedade.
A discussão ganha destaque em 1º de outubro, Dia Internacional das Pessoas
Idosas, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para chamar
atenção para as questões relacionadas ao envelhecimento da população e aos
direitos das pessoas idosas.
Segundo
David, pensar em longevidade exige ir além do número de anos vividos. “O
objetivo não deve ser apenas acrescentar anos à vida, mas preservar a
capacidade de viver bem esses anos. Com autonomia, funcionalidade e qualidade
de vida. Envelhecer faz parte do curso natural da vida, mas a forma como
envelhecemos é influenciada por diferentes fatores ao longo de toda a
trajetória”, explica.
Com
isso, a capacidade funcional ganha importância, ela está relacionada à
possibilidade de uma pessoa realizar suas atividades cotidianas, tomar decisões,
se locomover, manter relações sociais e participar da vida em comunidade.
Quando essa capacidade é preservada, o envelhecimento pode ser vivido de
maneira mais independente, mesmo diante das mudanças naturais associadas à
idade.
Para
o especialista, também é importante evitar a ideia de que envelhecer significa
necessariamente adoecer ou perder autonomia. O processo de envelhecimento é
heterogêneo e pode acontecer de maneiras muito diferentes entre pessoas da
mesma idade.
“Duas
pessoas com a mesma idade cronológica podem apresentar condições de saúde,
níveis de necessidade e capacidades funcionais muito diferentes. Por isso, não
podemos olhar para a idade isoladamente. Precisamos compreender o indivíduo de
forma integral e considerar aspectos sociais, culturais e emocionais, além das
condições físicas e cognitivas”, afirma David.
Por
isso, a discussão sobre envelhecimento saudável envolve também prevenção e
planejamento ao longo do curso da vida. Manter-se fisicamente ativo, cuidar de
doenças crônicas, preservar vínculos sociais, estimular a saúde cognitiva e ter
acesso adequado à assistência médica são alguns dos elementos que podem
contribuir para a manutenção da funcionalidade.
“Longevidade
não é um projeto que começa aos 60 ou 70 anos. O envelhecimento começa no
nascimento, e muitas das condições que encontramos na velhice têm relação com
fatores acumulados ao longo das décadas. Pensar antecipadamente sobre saúde e
funcionalidade é uma forma de ampliar as possibilidades de envelhecer bem, mas
nunca é tarde para agir”, destaca.
A
discussão também passa pela necessidade de repensar a própria ideia de velhice.
Com o aumento da longevidade, pessoas acima dos 60 anos permanecem por mais
tempo trabalhando, estudando, viajando, criando novos projetos e participando
ativamente da sociedade.
Para
David, preservar autonomia significa também garantir que a pessoa idosa
continue tendo espaço para fazer escolhas e participar das decisões sobre a
própria vida. “Muitos enxergam o cuidado como sinal de uma dependência indesejada,
mas cuidar não significa substituir a autonomia da pessoa. Todo ser humano
cuida e é cuidado em pelo menos um momento da vida. Essa verdade humana não
pode ser interpretada como uma ferida à dignidade da pessoa cuidada. Por isso,
é preciso encontrar um equilíbrio entre oferecer suporte quando necessário e
preservar a capacidade de escolha e participação do indivíduo”, conclui.
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