O interesse pelo noticiário diminui, mas o conteúdo jornalístico continua ajudando a formar aquilo que encontramos, discutimos e até perguntamos às inteligências artificiais
As
pessoas deveriam se importar mais com as notícias.
Não necessariamente acompanhar cada manchete ou passar o dia consumindo atualizações, mas entender o que acontece ao redor continua sendo parte importante de como tomamos decisões e formamos nossa percepção sobre empresas, setores, economia e sociedade.
O problema é que o movimento recente aponta na direção contrária. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostra que o interesse por notícias vem caindo e que 42% das pessoas pesquisadas dizem evitar o noticiário algumas vezes ou frequentemente. No Brasil, esse percentual chega a 47%.
Seria fácil olhar para esses números e concluir que a imprensa está perdendo relevância. Mas essa leitura desconsidera uma mudança importante no modo como a informação circula. As pessoas podem acessar menos diretamente jornais, portais e telejornais e, ainda assim, continuar sendo impactadas pelo conteúdo produzido por eles.
Uma
reportagem repercute nas redes sociais, vira assunto em vídeos, aparece em
mecanismos de busca, abastece análises e passa a fazer parte do conjunto de
referências disponível na internet. O jornalismo deixa, portanto, de ser apenas
o lugar onde a informação é consumida para ocupar também uma posição menos
visível: a de fonte que sustenta parte do ecossistema informacional.
O caminho até a informação mudou
Os próprios hábitos de acesso às notícias mostram essa transformação. Segundo o Reuters Institute, redes sociais e plataformas de vídeo já superam sites e aplicativos jornalísticos como porta de entrada para o noticiário em muitos mercados. Isso não significa, porém, que toda a informação encontrada nesses ambientes tenha surgido ali.
Muitas
vezes, o conteúdo original foi apurado por jornalistas e depois resumido,
comentado, reinterpretado ou redistribuído por terceiros. O ponto de contato
com o público mudou, mas a necessidade de uma fonte primária confiável não
desapareceu.
Os mecanismos de busca tornam essa mudança ainda mais evidente. Pesquisa do Pew Research Center mostrou que usuários do Google tendem a clicar menos nos resultados tradicionais quando recebem uma resposta gerada por inteligência artificial diretamente na página de busca. Ou seja, cada vez mais, a pessoa pode receber uma síntese sem acessar a página que ajudou a produzir aquela informação.
Com as inteligências artificiais generativas, essa lógica ganha outra dimensão. O Digital News Report 2026 indica que 10% dos entrevistados globalmente já utilizam chatbots para acessar notícias; no Brasil, o índice chega a 13%. Entre esses usuários, estão pessoas que pedem resumos, explicações, contexto ou fazem perguntas adicionais sobre temas do noticiário.
A
experiência muda: ao invés de abrir várias reportagens para compreender um
assunto, o usuário pergunta diretamente à ferramenta. Mas a qualidade da
resposta continua dependendo da qualidade das informações disponíveis.
O valor do que fica publicado
É por
isso que discutir a relevância da imprensa apenas a partir do número de
leitores diretos é insuficiente. O jornalismo continua produzindo registros
públicos, contextualizando fatos, entrevistando fontes, organizando dados e
criando referências que permanecem disponíveis muito depois da publicação
original.
Em um ambiente dominado por buscas, plataformas e IA, esse
acervo de informação passa a ter uma importância diferente.
Para empresas e lideranças, isso também muda a lógica da reputação. Durante muito tempo, aparecer na imprensa era visto principalmente como uma forma de alcançar público. Hoje, existe uma segunda camada igualmente importante: aquilo que fica registrado sobre a organização. Quando alguém pesquisa uma empresa, compara referências do setor ou pergunta a uma inteligência artificial sobre determinado mercado, o histórico público disponível ajuda a construir essa percepção.
Isso não
significa que uma matéria jornalística seja um selo automático de
credibilidade, nem que a imprensa exista para validar empresas. Porém,
significa que informações publicadas por fontes independentes passam a compor
um repertório que não pode ser construído apenas com publicidade ou canais
próprios.
Quanto mais intermediada por algoritmos se torna a descoberta de informações, maior é o valor de existir um histórico público consistente, verificável e contextualizado.
Talvez esteja aí a aparente contradição. As pessoas podem estar menos dispostas a “consumir notícias” no sentido tradicional, mas continuam vivendo em um ambiente alimentado por informações produzidas, organizadas e verificadas por quem faz jornalismo. A imprensa pode deixar de ser o destino final de parte do público sem deixar de ser uma das origens do que ele encontra pelo caminho.
Para quem trabalha com reputação, esse movimento merece atenção. A pergunta já não é apenas quantas pessoas lerão uma matéria hoje, mas também quanto tempo aquela informação continuará existindo, sendo encontrada, relacionada a outras fontes e ajudando a explicar quem é uma organização amanhã.
A imprensa continua relevante não apesar da transformação dos hábitos de informação, mas justamente porque esses hábitos estão se tornando cada vez mais mediados por outras plataformas.
Francine Ferreira - Jornalista, especialista em Comunicação Empresarial.Diretora e fundadora da Expressio Comunicação Humanizada

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