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| Simplesmente transferir tarefas cognitivas para a IA pode melhorar o resultado imediato de uma atividade sem necessariamente produzir ganhos reais de aprendizagem. : Freepik |
Pedir uma explicação sobre um conteúdo difícil,
criar perguntas para revisar uma matéria, resumir conceitos ou até simular uma
prova. A inteligência artificial generativa já oferece inúmeras possibilidades
para quem está estudando. Com ferramentas como o ChatGPT cada vez mais
presentes na rotina acadêmica, surge também uma questão: recorrer à tecnologia
ajuda efetivamente a aprender ou pode fazer com que o estudante deixe de
exercitar o próprio raciocínio?
A resposta depende, em grande parte, da forma de
utilização. O Digital Education Outlook 2026, publicado pela Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que ferramentas de
inteligência artificial generativa podem contribuir para a aprendizagem quando
utilizadas com objetivos pedagógicos claros. Por outro lado, simplesmente
transferir tarefas cognitivas para a IA pode melhorar o resultado imediato de
uma atividade sem necessariamente produzir ganhos reais de aprendizagem.
Para o coordenador do curso de Análise e
Desenvolvimento de Sistemas (ADS) da Afya Centro Universitário de Pato Branco,
professor Cézar Mezzalira, o ponto central está em entender a IA como
ferramenta de apoio, e não como substituta do estudante.
“A inteligência artificial pode ser uma excelente
parceira no processo de aprendizagem. O problema começa quando o estudante
deixa de perguntar ‘como eu chego a essa resposta?’ e passa apenas a perguntar
‘qual é a resposta?’. Se utilizada para explicar um conceito de outra maneira,
criar exercícios, levantar questionamentos ou confrontar uma conclusão que o
próprio aluno construiu, ela pode estimular o aprendizado. Mas, se todo o
raciocínio for terceirizado, perde-se justamente uma das etapas mais
importantes do estudo”, explica Cézar.
Fazer
a atividade não significa necessariamente aprender
Um dos conceitos discutidos pela OCDE é o chamado cognitive
offloading, ou descarga cognitiva: quando uma ferramenta externa assume
parte do esforço mental necessário para executar determinada tarefa. Isso não é
necessariamente ruim, mas pode se tornar um problema educacional quando a
tecnologia elimina justamente o esforço necessário para desenvolver determinada
habilidade.
Um dos estudos destacados pela OCDE ajuda a
ilustrar essa diferença. Em um experimento envolvendo cerca de mil estudantes
do Ensino Médio em matemática, alunos que tiveram acesso irrestrito a um modelo
baseado em GPT apresentaram desempenho 48% superior durante os exercícios.
Porém, quando precisaram realizar posteriormente uma prova sem a ferramenta,
tiveram desempenho 17% inferior. Já uma versão da IA desenvolvida especificamente
como tutora, com mecanismos para orientar o aluno sem simplesmente entregar respostas,
conseguiu reduzir esse efeito.
“A facilidade de obter uma resposta pronta pode
criar uma falsa sensação de domínio do conteúdo. O aluno lê, entende naquele
momento e acredita que aprendeu. Uma forma de testar isso é fechar a ferramenta
e tentar explicar o assunto com as próprias palavras ou resolver um problema
semelhante sozinho. Se não conseguir, provavelmente ainda existem lacunas
naquele conhecimento”, observa o coordenador do curso de ADS, da Afya de Pato
Branco.
IA
pode assumir o papel de “tutora”
Em vez de solicitar que o ChatGPT faça um trabalho
ou resolva uma questão integralmente, uma alternativa é transformar a
ferramenta em uma espécie de tutora. O estudante pode, por exemplo, pedir que a
IA faça perguntas sobre determinado assunto, apresente um problema sem revelar
imediatamente a solução, avalie uma resposta escrita pelo próprio aluno ou
explique onde está o erro em determinado raciocínio.
Também é possível pedir explicações em diferentes
níveis de dificuldade, solicitar exemplos práticos, comparar conceitos e criar
simulados. Nesse modelo, a tecnologia não elimina a participação do estudante:
ela fornece estímulos para que ele próprio chegue às respostas.
A própria UNESCO defende uma abordagem centrada no
ser humano para a utilização da inteligência artificial generativa na educação.
Sua orientação internacional destaca a necessidade de desenvolver capacidades
humanas e garantir que a tecnologia seja utilizada de maneira segura, ética e
significativa no processo educacional.
“Outro cuidado está na confiabilidade das
informações. Sistemas de IA generativa podem apresentar respostas incorretas ou
informações imprecisas. Por isso, especialmente em atividades acadêmicas, é
importante verificar dados, autores, referências e conceitos em fontes confiáveis,
em vez de assumir que uma resposta está correta apenas porque foi apresentada
de maneira convincente”, alerta o professor Cézar.
Pensamento
crítico se torna ainda mais importante
Um estudo apresentado na conferência CHI 2025,
envolvendo 319 profissionais e 936 exemplos reais de utilização de IA
generativa no trabalho, identificou uma associação entre maior confiança nas
respostas da IA e menor exercício de pensamento crítico. Os pesquisadores
também observaram que, com a tecnologia, parte do esforço crítico passa a se
concentrar em verificar informações, integrar respostas e supervisionar o
resultado produzido.
Para Cézar, isso reforça a necessidade de uma nova
habilidade: saber questionar a própria inteligência artificial.
“O estudante precisa continuar sendo protagonista.
Isso significa desconfiar, conferir fontes, comparar informações, formular boas
perguntas e ter conhecimento suficiente para perceber quando uma resposta não
faz sentido. Saber utilizar IA não é simplesmente saber escrever um comando. É
também saber avaliar criticamente aquilo que a ferramenta entrega”, conclui o
docente do curso de ADS da Afya Centro Universitário de Pato Branco.
Assim, mais do que discutir se o ChatGPT deve ou
não fazer parte dos estudos, o desafio passa a ser ensinar a utilizá-lo de
forma consciente. A tecnologia pode ajudar a tornar conteúdos mais acessíveis,
ampliar possibilidades de pesquisa e oferecer novas maneiras de estudar. Mas o
aprendizado continua dependendo de algo que não deve ser terceirizado: o
esforço de compreender, relacionar informações, questionar e construir o
próprio conhecimento.
Afya
www.afya.com.br
ir.afya.com.br

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