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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Usar ChatGPT para estudar ajuda ou atrapalha a aprendizagem?

Simplesmente transferir tarefas cognitivas para a IA pode melhorar o
resultado imediato de uma atividade sem necessariamente
produzir ganhos reais de aprendizagem.
 : Freepik
Inteligência artificial pode funcionar como ferramenta de apoio aos estudos, mas especialista alerta que respostas prontas não devem substituir raciocínio, pesquisa e construção do conhecimento

 

Pedir uma explicação sobre um conteúdo difícil, criar perguntas para revisar uma matéria, resumir conceitos ou até simular uma prova. A inteligência artificial generativa já oferece inúmeras possibilidades para quem está estudando. Com ferramentas como o ChatGPT cada vez mais presentes na rotina acadêmica, surge também uma questão: recorrer à tecnologia ajuda efetivamente a aprender ou pode fazer com que o estudante deixe de exercitar o próprio raciocínio?

A resposta depende, em grande parte, da forma de utilização. O Digital Education Outlook 2026, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aponta que ferramentas de inteligência artificial generativa podem contribuir para a aprendizagem quando utilizadas com objetivos pedagógicos claros. Por outro lado, simplesmente transferir tarefas cognitivas para a IA pode melhorar o resultado imediato de uma atividade sem necessariamente produzir ganhos reais de aprendizagem.


Para o coordenador do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS) da Afya Centro Universitário de Pato Branco, professor Cézar Mezzalira, o ponto central está em entender a IA como ferramenta de apoio, e não como substituta do estudante.

“A inteligência artificial pode ser uma excelente parceira no processo de aprendizagem. O problema começa quando o estudante deixa de perguntar ‘como eu chego a essa resposta?’ e passa apenas a perguntar ‘qual é a resposta?’. Se utilizada para explicar um conceito de outra maneira, criar exercícios, levantar questionamentos ou confrontar uma conclusão que o próprio aluno construiu, ela pode estimular o aprendizado. Mas, se todo o raciocínio for terceirizado, perde-se justamente uma das etapas mais importantes do estudo”, explica Cézar.


Fazer a atividade não significa necessariamente aprender

Um dos conceitos discutidos pela OCDE é o chamado cognitive offloading, ou descarga cognitiva: quando uma ferramenta externa assume parte do esforço mental necessário para executar determinada tarefa. Isso não é necessariamente ruim, mas pode se tornar um problema educacional quando a tecnologia elimina justamente o esforço necessário para desenvolver determinada habilidade.

Um dos estudos destacados pela OCDE ajuda a ilustrar essa diferença. Em um experimento envolvendo cerca de mil estudantes do Ensino Médio em matemática, alunos que tiveram acesso irrestrito a um modelo baseado em GPT apresentaram desempenho 48% superior durante os exercícios. Porém, quando precisaram realizar posteriormente uma prova sem a ferramenta, tiveram desempenho 17% inferior. Já uma versão da IA desenvolvida especificamente como tutora, com mecanismos para orientar o aluno sem simplesmente entregar respostas, conseguiu reduzir esse efeito.

“A facilidade de obter uma resposta pronta pode criar uma falsa sensação de domínio do conteúdo. O aluno lê, entende naquele momento e acredita que aprendeu. Uma forma de testar isso é fechar a ferramenta e tentar explicar o assunto com as próprias palavras ou resolver um problema semelhante sozinho. Se não conseguir, provavelmente ainda existem lacunas naquele conhecimento”, observa o coordenador do curso de ADS, da Afya de Pato Branco.


IA pode assumir o papel de “tutora”

Em vez de solicitar que o ChatGPT faça um trabalho ou resolva uma questão integralmente, uma alternativa é transformar a ferramenta em uma espécie de tutora. O estudante pode, por exemplo, pedir que a IA faça perguntas sobre determinado assunto, apresente um problema sem revelar imediatamente a solução, avalie uma resposta escrita pelo próprio aluno ou explique onde está o erro em determinado raciocínio.

Também é possível pedir explicações em diferentes níveis de dificuldade, solicitar exemplos práticos, comparar conceitos e criar simulados. Nesse modelo, a tecnologia não elimina a participação do estudante: ela fornece estímulos para que ele próprio chegue às respostas.

A própria UNESCO defende uma abordagem centrada no ser humano para a utilização da inteligência artificial generativa na educação. Sua orientação internacional destaca a necessidade de desenvolver capacidades humanas e garantir que a tecnologia seja utilizada de maneira segura, ética e significativa no processo educacional.

“Outro cuidado está na confiabilidade das informações. Sistemas de IA generativa podem apresentar respostas incorretas ou informações imprecisas. Por isso, especialmente em atividades acadêmicas, é importante verificar dados, autores, referências e conceitos em fontes confiáveis, em vez de assumir que uma resposta está correta apenas porque foi apresentada de maneira convincente”, alerta o professor Cézar.


Pensamento crítico se torna ainda mais importante

Um estudo apresentado na conferência CHI 2025, envolvendo 319 profissionais e 936 exemplos reais de utilização de IA generativa no trabalho, identificou uma associação entre maior confiança nas respostas da IA e menor exercício de pensamento crítico. Os pesquisadores também observaram que, com a tecnologia, parte do esforço crítico passa a se concentrar em verificar informações, integrar respostas e supervisionar o resultado produzido.

Para Cézar, isso reforça a necessidade de uma nova habilidade: saber questionar a própria inteligência artificial.

“O estudante precisa continuar sendo protagonista. Isso significa desconfiar, conferir fontes, comparar informações, formular boas perguntas e ter conhecimento suficiente para perceber quando uma resposta não faz sentido. Saber utilizar IA não é simplesmente saber escrever um comando. É também saber avaliar criticamente aquilo que a ferramenta entrega”, conclui o docente do curso de ADS da Afya Centro Universitário de Pato Branco.

Assim, mais do que discutir se o ChatGPT deve ou não fazer parte dos estudos, o desafio passa a ser ensinar a utilizá-lo de forma consciente. A tecnologia pode ajudar a tornar conteúdos mais acessíveis, ampliar possibilidades de pesquisa e oferecer novas maneiras de estudar. Mas o aprendizado continua dependendo de algo que não deve ser terceirizado: o esforço de compreender, relacionar informações, questionar e construir o próprio conhecimento.



Afya
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