Mudança amplia os critérios de avaliação sobre renda, patrimônio e benefícios públicos; Cerca de 588 mil solicitantes de ajuste de status por ano estejam sujeitos à análise de "carga pública
Os
Estados Unidos vão ampliar, a partir de 18 de setembro de 2026, a análise sobre
a situação financeira de estrangeiros que buscam residência permanente no país.
A nova regulamentação do Departamento de Segurança Interna (DHS) revoga a regra
adotada em 2022 para o chamado "public
charge", ou “carga pública”, e aumenta a margem dos agentes
migratórios para avaliar se um solicitante poderá depender de determinados
recursos governamentais.
A
mudança atinge principalmente estrangeiros submetidos à análise de
inadmissibilidade ao solicitar o Green Card, incluindo parte daqueles que
apresentam o formulário I-485 para realizar o ajuste de status dentro dos
Estados Unidos.
Segundo
estimativa apresentada pelo próprio DHS na regulamentação publicada em julho,
uma média anual de 587.706 solicitantes esteve sujeita ao critério de
inadmissibilidade por carga pública entre os anos fiscais de 2019 e 2024. O
número não representa pessoas que terão o Green Card negado, mas ajuda a
dimensionar o universo de processos que pode passar por esse tipo de avaliação.
Para
Daniel Toledo, advogado
especializado em Direito Internacional, fundador da Toledo e Advogados Associados e
sócio da LeeToledo PLLC, a principal mudança está no peso que a situação
econômica poderá assumir durante o processo migratório.
“Não
significa que uma pessoa será automaticamente impedida de receber o Green Card
porque utilizou determinado benefício. O que muda é que o agente passa a ter um
campo mais amplo para avaliar a situação econômica do solicitante, seu
histórico e a capacidade real de autossuficiência. Para quem pretende buscar a
residência permanente, o planejamento financeiro passa a exigir ainda mais
atenção”, afirma Toledo.
Benefícios públicos entram no radar
A
regulamentação de 2022 delimitava de forma mais restrita quais benefícios
poderiam ser considerados na análise de carga pública. Com a mudança, os agentes
poderão avaliar, dentro do conjunto das circunstâncias de cada caso, benefícios
públicos condicionados à renda, inclusive programas anteriormente excluídos
dessa análise.
Entre
eles estão modalidades do Medicaid e o SNAP, programa de assistência alimentar
conhecido como food stamps.
Isso
não significa, porém, que a utilização de qualquer serviço público leve
automaticamente à negativa de um Green Card. O recebimento de um benefício será
apenas um dos fatores considerados. Idade, saúde, composição familiar,
patrimônio, recursos financeiros, educação e qualificações profissionais também
fazem parte da avaliação.
A
regra ainda estabelece uma importante divisão temporal. Benefícios que estavam
fora da análise sob a regulamentação de 2022 poderão ser considerados sob os
novos critérios quando solicitados, aprovados ou recebidos a partir de 18 de
setembro de 2026.
“É
justamente por isso que quem já está nos Estados Unidos e pretende pedir
residência permanente precisa revisar sua situação antes de tomar decisões
financeiras ou solicitar determinados benefícios. Não é uma questão de criar
pânico, mas de entender que as regras de análise estão mudando”, diz Toledo.
Renda e patrimônio ganham importância
A
mudança também chama atenção para os processos em que existe um patrocinador
financeiro, como ocorre em determinadas categorias de imigração familiar.
A
apresentação do formulário I-864, o Affidavit
of Support, continua sendo exigida nos casos previstos em lei, mas
a existência de um patrocinador que cumpra os requisitos mínimos não significa
aprovação automática do Green Card.
“O
patrocinador continua sendo importante, mas o candidato precisa entender que o
processo pode olhar para um cenário mais amplo. Renda, patrimônio, emprego,
tamanho da família, perspectivas profissionais e capacidade de manutenção nos
Estados Unidos podem fazer parte dessa avaliação”, explica Toledo.
O
DHS também prevê mudanças na coleta de informações relacionadas à situação
econômica dos candidatos, aumentando a importância de documentos capazes de
demonstrar renda, patrimônio e condições de sustento durante o processo.
Quem já tem Green Card será afetado?
Para
quem já possui residência permanente, a mudança não significa perda automática
do Green Card nem cria uma revisão generalizada dos documentos já concedidos.
A
nova regulamentação está direcionada principalmente à análise de
admissibilidade e aos estrangeiros que buscam obter residência permanente. A
simples renovação do cartão de residente permanente ou um processo de
naturalização não passa automaticamente a ser uma nova avaliação de carga
pública.
Também
é importante diferenciar o ajuste de status para Green Card de uma mudança
entre categorias temporárias. Uma solicitação para mudar de turista para
estudante, por exemplo, não se transforma automaticamente em um processo
sujeito à nova regra de carga pública.
“Não
dá para colocar todos os imigrantes na mesma situação. Quem já tem Green Card,
quem está buscando residência permanente e quem possui apenas um visto
temporário enfrenta regras diferentes. O primeiro passo é identificar
exatamente qual é o status migratório da pessoa”, afirma Toledo.
Mudança ocorre em cenário de maior rigor migratório
A
alteração faz parte de um movimento mais amplo de reforço da fiscalização
migratória nos Estados Unidos, mas não representa o fechamento das vias legais
de imigração.
Os
dados mais recentes do USCIS também mostram que o sistema continua processando
pedidos de residência permanente. No ano fiscal de 2026, considerando
informações disponíveis até 31 de maio, o tempo mediano de processamento de
pedidos I-485 baseados em emprego estava em 5,7 meses; nos processos
familiares, em 5,8 meses.
Para
Toledo, o cenário exige que o planejamento financeiro seja tratado com a mesma
atenção dada à escolha da categoria migratória e à documentação apresentada.
“Quem
pretende morar nos Estados Unidos precisa entender que capacidade financeira
também faz parte da estratégia migratória. Não basta olhar apenas para
currículo, documentos ou categoria de visto. A pessoa precisa demonstrar que
possui condições reais de se manter e estruturar a vida no país”, conclui.
Daniel Toledo - advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford - Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.
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