Política fiscal, inflação acima da meta e riscos
geopolíticos limitam novos cortes da taxa de juros, avalia FecomercioSP
Mesmo com a redução da taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto porcentual (p.p.), anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (16), que levou a Selic de 14% para 13,75%, a conjuntura é de que novos cortes ocorram de forma mais lenta e limitada do que o mercado chegou a antecipar. Na avaliação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), a expectativa é que a Selic permaneça alta por mais tempo, em resposta à política fiscal expansionista, à falta de contenção das despesas obrigatórias (atrelada à inflação acima da meta) e às incertezas do cenário geopolítico.
Na visão da FecomercioSP, para que o Banco Central (BC) pudesse aprofundar o ciclo de cortes, seria necessário que o governo assumisse um compromisso com o equilíbrio fiscal, o que é improvável em ano eleitoral. Com a continuidade da política fiscal expansionista, a fragilidade das contas públicas e um ambiente de inflação acima da meta, o BC acaba obrigado a manter os juros altos por mais tempo, reduzindo a eficácia da política monetária e elevando o custo social do controle inflacionário.
A principal justificativa para a continuidade do corte dos juros está no comportamento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que, em agosto, registrou deflação de 0,32%, o melhor resultado para o ano, em um sinal claro de arrefecimento da inflação corrente. Contudo, o indicador, acumulado em 12 meses, segue em torno de 4,1%, acima da meta de 3% para 2026, e a inflação de serviços permanece próxima de 6% ao ano (a.a.).
O próprio boletim Focus trouxe uma previsão menos otimista, com a projeção mediana para o IPCA subindo para cerca de 4,86%, neste ano, e para 4%, em 2027. Com as expectativas desancoradas, o BC tem uma margem reduzida para acelerar os cortes sem comprometer a convergência da inflação.
No campo internacional, há ainda outro componente dificultando a intensificação do ciclo de cortes: o conflito envolvendo o Irã e as ameaças de fechamento ou interrupção do Estreito de Ormuz. Aproximadamente 20% do petróleo consumido no mundo passa por esse canal marítimo. Qualquer interrupção do tráfego no local, portanto, provocaria um choque de oferta de energia, com impacto imediato aos custos de produção e transporte em todo o mundo, especialmente no Brasil, onde o petróleo e derivados têm peso significativo tanto na inflação ao produtor quanto no IPCA, via combustíveis. Assim, a dúvida quanto aos rumos dos acontecimentos, exige que o BC preserve um diferencial de juros capaz de reagir ao reflexo inflacionário do setor externo.
Nesse cenário, o corte de 0,25 p.p. não decorreu de uma melhoria do cenário macroeconômico, mas da necessidade de o BC preservar a consistência e a credibilidade do ciclo de afrouxamento que o próprio iniciou. Interromper o processo sem uma deterioração clara das expectativas criaria ruídos desnecessários na comunicação e poderia ser interpretado como falta de clareza sobre os fundamentos da política monetária. Juros estruturalmente mais baixos, porém, só serão possíveis com um ajuste fiscal consistente. Sem essa base, qualquer ciclo de afrouxamento corre o risco de ser revertido, com custos que recaem sobre empresas e consumidores.
FecomercioSP
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